O ideário linguístico de Castelao constitui um bom exemplo de como a dimensom mais arraigada dum autor pode ficar obscurecida perante a parte mais homologável do seu legado, aquela mais amável para as elites do momento.

Alfonso Daniel Rodríguez Castelao
Escrito por Eduardo Maragoto
O ideário linguístico de Castelao constitui um bom exemplo de como a dimensom mais arraigada dum autor pode ficar obscurecida perante a parte mais homologável do seu legado, aquela mais amável para as elites do momento.
No ano em que foi lembrado polo 75.º aniversário da sua morte, que coincidiu com um tempo em que também muito falamos da situaçom do galego, celebrou-se o artista e o político que foi, admirou-se a sua resiliência nas circunstâncias adversas que padeceu, mas o seu pensamento —principalmente o idiomático—, se nom desapareceu, quase nunca apareceu projetado para o futuro.
Imagino que existe certo receio a difundir a ideia de língua do político-artista, que claramente dissente da que hoje se ensina nas escolas. Ao fin e ao cabo, legou-nos por escrito os grandes lemas do reintegracionismo posterior: “A nosa lingua está viva e florece en Portugal”; “Deseo, además, que el gallego se acerque y confunda con el portugués, de modo que tuviésemos dos idiomas extensos y útiles”, etc.
Mas ainda há quem se resista a ver nestes motes um antecipo do reintegracionismo. Consideram-nas um recurso empregado por Castelao, no Sempre en Galiza e na correspondência com Sánchez Albornoz, para combater os preconceitos castelhanistas sobre o galego. Nom me parece. É certo que ele nom chegou a ensaiar, como fizeram alguns contemporâneos (J. V. Biqueira, E. C. Calderom, R. Flores), o uso de grafias portuguesas nos seus escritos (uma iniciativa que pouco podia avançar entom sem galego no ensino), mas a ideia da concórdia galego-portuguesa nom parou de crescer na sua obra até a morte.
E nom só. Graças a uma entrevista concedida em 1929 ao jornal Le Nouvelliste (Courrier de la Basse-Bretagne) que passou despercebida até hoje, sabemos que a questom também é mais precoz do que se pensava no conjunto do seu pensamento, obrigando a adiantar até a ditadura de Primo de Rivera os seus depoimentos sobre a unidade linguística com o português.
Castelao é muito categórico: « Notre langue est du pur portugais» (‘a nossa língua é puro português’), di, entre outras reflexões sobre a identidade luso-galaica. A entrevista completa, realizada durante a famosa viagem que realizou àquela regiom para estudar as cruzes de pedra e publicada agora em galego-português na revista Tempos Novos (nº 345), confirma que a divulgaçom desta doutrina foi uma das grandes teimas do rianjeiro ao longo da sua vida política.
Postal enviada por Castelao a Vicente Risco en xullo de 1929 CC-BY Eduardo Maragoto
[Fonte: www.praza.gal]

Sem comentários:
Enviar um comentário