O premiado escritor e jornalista cubano escreve sobre a situação na ilha, por entre o bloqueio energético dos EUA e as medidas recentes do governo.
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| Leonardo Padura |
“O que é inegável é que Cuba tem de mudar, mas não deve ser porque está a ser asfixiada por forças externas, mas porque nós, cubanos, empobrecidos, desiludidos e sem esperança, precisamos que mude, em muitos sentidos”, defende o escritor Leonardo Padura num recente artigo publicado no El País.
O jornalista e escritor distinguido em 2012 em Cuba com o Prémio Nacional da Crítica, com a Ordem das Artes e das Letras de França no ano seguinte e com o Prémio Princesa das Astúrias em 2015 em Espanha, responde aos que lhe perguntam como está a situação em Cuba numa altura em que o país vive uma grave crise económica e social por causa do bloqueio energético imposto pelos EUA que paralisou muitas atividades e se veio somar aos “longos apagões, deterioração dos transportes públicos, falta de material médico, inflação e o consequente carestia de vida, que se reflete nos baixos salários de grande parte da população”.
Padura refuta comparações com a época do “Período Especial”, que se seguiu ao colapso da URSS: “Naquela época, a situação extremamente dramática de escassez de tudo o que se possa imaginar tinha uma dimensão política: as carências eram sentidas de forma horizontal, ou seja, afetavam de igual forma quase toda a população, e assim se manteve a estrutura homogénea da sociedade cubana”. Agora, contrapõe, a situação é diferente e inclui uma dinâmica de desigualdade em que “muitos estão em dificuldades, mas um setor já visível tem vindo a enriquecer, aproveitando-se das carências que o Estado não consegue colmatar”.
Para chegar “ao ponto de ebulição atual”, prossegue, é preciso recuar às reformas económicas de Raul Castro que “implicou o desmantelamento de grande parte do sistema igualitário promovido no país, com a eliminação das “benesses indevidas”, e abriu caminho para o surgimento de diferenças económicas e sociais que hoje se tornaram evidentes”. A reforma da política monetária fez cair o valor do peso cubano e disparar a inflação, reduzindo ainda mais o poder de compra, e a dependência económica do turismo mostrou as suas limitações durante a pandemia e na atual crise energética.
As recentes medidas anunciadas pelo governo durante as negociações mantidas com os EUA, de abertura ao investimento por parte dos cubanos residentes no estrangeiro, são vistas como a “exibição de uma vontade de mudança”, embora não se apliquem aos que vivem em Cuba. “É como se se partisse do princípio de que os que vivem aqui são tão pobres que nem sequer conseguiriam abrir uma fábrica de sapatos”, ironiza.
O escritor termina o artigo com um exemplo do que pode ser um retrato da situação atual, com os condutores das motas elétricas - uma alternativa ao transporte público cada vez mais usada - que frequentam o café privado em frente à sua casa: “Haja luz ou apagão, a maioria deles faz a sua pausa gastronómica junto ao veículo, ao qual adaptaram altifalantes que inundam o bairro com a transmissão, a todo o volume, dos reggaetons da moda. Há crise, é verdade, muitos problemas, é verdade, mas, por enquanto, também é verdade que temos o Bad Bunny e o Bebeshito. E, claro, muita vontade de viver”.
[Foto: Casa de America - fonte: www.esquerda.net]

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