terça-feira, 4 de julho de 2017

Uma análise sobre a industria editorial argentina

Em seu artigo, Trini Vergara analisa a situação atual da indústria editorial argentina e ajuda a compreender a evolução do setor


A Libros del Pasaje é uma charmosa livraria bonaerense no bairro de Palemo 

Escrito por TRINI VERGARA* 

Para entender melhor a situação atual da indústria editorial argentina, podemos abrir as informações em duas perspectivas simultâneas: a conjuntural e a estrutural. A perspectiva da conjuntura descreve o momento atual que a indústria atravessa e o que aconteceu entre 2015 e 2016 nos principais indicadores. Mas se também quisermos aprofundar a perspectiva, precisamos de uma breve análise dos dados estruturais, que ajudam a compreender a evolução do setor por mais tempo e com um horizonte médio-longo prazo.
A conjuntura
Entre 2015 e 2016, houve uma queda de 15% na produção tanto de títulos como de exemplares totais e de 12% nas vendas do mercado privado, das editoras comerciais. Se incluirmos a queda nas vendas ao setor público (em 2016 não houve compras de livros infantis para salas de aula e bibliotecas), temos uma queda total de vendas de livros de 25% em exemplares ou 24% em valores constantes, pelo importante peso que essas vendas públicas significavam (passaram de 14% a 1% das vendas totais).
Por outro lado, ao se liberar das restrições às importações de livros, que existiram entre 2010 e 2015, na Argentina, estas aumentaram acentuadamente, embora ainda não tenham recuperado os níveis de 2011. Também é importante destacar que o maior impulso deste aumento acontece pelas importações industriais, particularmente de livros com ISBN estrangeiro (aumentaram quase nove vezes). Correspondem a edições internacionais, em muitos casos de livros didáticos para o ensino de línguas.
As importações industriais de livros de ISBN argentino também aumentaram, embora em menor grau, cerca de 36%. A principal razão para as maiores importações industriais acontece pelos altos custos da Argentina, que, no Libro blanco de la industria editorial argentina [que pode ser acessado na íntegra no fim deste artigo], apresentamos separadamente (a comparação entre custos locais e estrangeiros para o mesmo tipo de livro, chegam a ser o dobro dos que é possível obter em outros países impressores da região).
Além disso, as importações comerciais, ou seja, as que entram em menores quantidades para distribuição no país e, assim, contribuir para a bibliodiversidade só aumentou 13%.
A estrutura
A primeira coisa importante a esclarecer é que assim como os movimentos de importações de livros acontecem ao ritmo das oportunidades ou dificuldades do momento e, portanto, são fenômenos cíclicos, não é o caso com as exportações de livros. Desenvolver os mercados externos do livro argentino é uma tarefa de médio e longo prazo, e as dificuldades que o setor tem hoje já existem há muitos anos, e possuem causas tanto endógenas como exógenas.
Preparamos uma análise especial que revela que, ao depurar os dados, as exportações de livros são realmente baixas em relação ao potencial de vendas do livro argentino no exterior, já que em sua maioria não estão destinadas aos principais mercados do livro em espanhol, como México e Espanha, ou estão representadas por exportadores fora do mercado comercial do livro, como editoras religiosas ou produtos que não são livros.
Essa dificuldade estrutural no desenvolvimento dos mercados externos está relacionada com causas endógenas, como o alto custo do livro argentino (cuja razão principal é o peso do IVA em toda a cadeia de custos de produção e comercialização) e fatores exógenos, como a concorrência cada vez mais forte dos grandes grupos editoriais globais. Esses poucos, mas fortes atores estão gerando mercados concentrados não apenas em todos os países de língua espanhola, mas em toda indústria em nível mundial.
Simultaneamente, verifica-se um extraordinário dinamismo no setor editorial argentino, visto através da constante aparição de novas editoras. Este fenômeno, que já tem alguns anos, tem uma correlação com o número recorde de estudantes do curso de Edição da Universidade de Buenos Aires, que reúne cerca de 1.000 alunos ativos, número maior que o de qualquer programa de ensino de edição do mundo.  
É por isso que este ano o Libro blanco decidiu acrescentar um relatório básico de uma nova categoria de editores, que chamamos de "editores emergentes", registrando 146 casos que cumprem os critérios mínimos para já serem considerados atores do setor. Embora por enquanto só contribuam com 7,5% dos títulos das editoras comerciais, dão ao setor uma grande criatividade, diversidade e potencial de desenvolvimento futuro.
A intenção do documento é realizar um acompanhamento constante deste setor, pela volatilidade que muitos projetos novos costumam ter. É interessante ver que, ao somar os editores emergentes, o setor editorial conta com 391 editoras em atividade, um número comparável a de muitos grandes mercados editoriais no mundo.
Finalmente, o setor editorial argentino ainda tem uma estrutura tradicional que não aproveita as novas tecnologias a serviço dos editores. Desde a falta de um sistema digital e unificado de catalogação de todos os livros disponíveis para venda no país, que facilite, como acontece em outros mercados, uma comercialização mais ágil, eficiente e econômica, até a informatização de 100% das livrarias, ou sistemas de gestão mais modernos de processos editoriais, a Argentina ainda tem um enorme potencial de crescimento em seu setor editorial, se começar a aproveitar as novas tecnologias.
Continua a ser o país com maior hábito de leitura de toda a área de idioma espanhol e conta com uma população jovem e leitora, que gerou os maiores sucessos editoriais dos últimos anos. Por outro lado, é um dos países da área do espanhol cuja população vive mais "conectada" através das redes sociais, e conta um parque de celulares per capita (1,4 assinatura de celulares por habitante), também superior aos dos maiores mercados de língua espanhola, à frente da Espanha, México, Colômbia, Chile e Peru, segundo dados do Banco Mundial. Esses números falam de um elevado potencial de todas as indústrias de comunicação, que estiveram e estarão sempre ligadas diretamente à indústria do livro.
Resumindo, podemos concluir que a indústria editorial argentina atravessa uma conjuntura de menores vendas e maiores custos de produção, que deslocaram a produção nacional para o exterior, mas também devem ser analisados os problemas estruturais dos altos custos (que estão relacionados com a carga tributária histórica, mais que com a inflação do ano passado), que dificultam as exportações, mas que se forem corrigidos, expandiriam o mercado de tal forma que a indústria local poderia ter o horizonte de crescimento necessário, tanto para poder competir nos mercados mundiais, como ser capaz de aproveitar as novas tecnologias que já estão a serviço dos editores globais.
[O Libro blanco de la industria editorial argentina pode ser acessado aqui.]

* Trini Vergara é fundadora da editora V&R e diretora de relações internacionais da Câmara Argentina de Publicações (CAP). 
[Foto: Lima Andruška - fonte: www.publishnews.com.br]

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