segunda-feira, 24 de julho de 2017

As últimas palavras de Guimarães Rosa

Num episódio misterioso, sete relatórios produzidos como diplomata pelo autor de Grande Sertão: Veredas foram excluídos da edição póstuma do seu último livro. Seis deles estão nos arquivos do Itamaraty. Eles revelam como o escritor mineiro, mesmo em textos burocráticos, se esmerava no uso da palavra.

Escrito por MARCELO BORTOLOTI

O escritor e diplomata João Guimarães Rosa morreu aos 59 anos de idade, no auge da fama, deixando o país consternado e uma lenda em torno de sua morte. Acabara de entrar para a Academia Brasileira de Letras, depois de adiar a posse por quatro anos, justamente com medo de morrer. Rosa era médico, estava ciente de seus hábitos de fumante e sedentário, agravados pelo histórico de cardiopatia na família. Sabia que uma emoção mais forte poderia matá-lo, e a tão aguardada cerimônia de posse era um ensejo para isso. Também ouvira de um pai de santo com quem se correspondia em Minas Gerais que iria morrer no momento em que a fama do sobrenome Guimarães Rosa superasse a existência do indivíduo João. Ainda que estivesse relutante, amigos e familiares diziam que ele se preparava para o desenlace fatal.
Guimarães Rosa,escritor (Foto:  David Zingg/Acervo Instituto Moreira Salles)
Meses antes do ocorrido, o escritor chamou sua filha Vilma na sala que ocupava no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro. Abriu em sua frente o cofre onde guardava documentos importantes, além dos doces de leite que trazia de Minas. E mostrou a ela dois maços de papel, protegidos por capas de plástico transparente. Eram os originais dos livros Estas estórias e Ave, palavra, que estavam supostamente prontos à espera de publicação. Rosa deu ordens expressas à filha: “Se algo me acontecer, leve imediatamente ao editor José Olympio”.
Em novembro de 1967, um infarto fulminante tirou a vida do escritor, que ainda tentou pedir ajuda por telefone, mas morreu sozinho em seu apartamento. Após o enterro, Vilma foi ao Itamaraty e cumpriu as ordens do pai. Retirou as duas pastas do cofre e, tal como estavam, entregou-as na editora José Olympio para publicação. Estas estórias saiu em 1969 e Ave, palavra, um ano depois. As duas obras foram revistas e organizadas pelo editor e tradutor Paulo Rónai, que procurou ser o mais fiel possível aos originais deixados pelo amigo. Ave, palavra foi a última obra de Guimarães Rosa. Encerrou uma produção que se restringiu a oito livros, mas que mudou para sempre a literatura brasileira.
A história poderia terminar aí. No entanto, uma carta preservada na Biblioteca Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP), abre um mistério em torno de Ave, palavra e do tratamento dado aos originais do escritor. A carta foi escrita por volta de 1970 por Raul Floriano, advogado que cuidava do espólio de Guimarães Rosa. Foi dirigida a Daniel Pereira, irmão de José Olympio, responsável pelas publicações da casa. Nela, Floriano diz que alguns textos deveriam ser “eliminados” do livro a ser editado. Ele justificava: “Esses textos pertencem aos Arquivos Secretos do Itamaraty”. A carta lista sete relatórios escritos por Rosa ao longo da carreira como diplomata que não entraram em Ave, palavra. Uma estranha interferência do advogado, que pode ter deformado o último livro do grande escritor.
Guimarães Rosa,chefe da Divisão de Fronteiras do Itamaraty (Foto:  Arquivo / Agência O Globo)Guimarães Rosa, chefe da Divisão de Fronteiras do Itamaraty 
(Foto: Arquivo / Agência O Globo)
Os relatórios não foram destruídos. A reportagem consultou os arquivos do Itamaraty no Rio de Janeiro e em Brasília  e conseguiu localizar seis deles. Apenas um está desaparecido. Não possuem o selo de “secreto” e estão disponíveis ao público. Foram escritos por Rosa quando serviu na Alemanha, na França e como chefe da Divisão de Fronteiras no Brasil. Não restou nenhum registro escrito que possa justificar o pedido de Raul Floriano para que fossem eliminados do livro. Embora não sejam textos literários, a diplomata Heloísa Vilhena, que estudou a atividade de Guimarães Rosa no Itamaraty, afirma que alguns deles se aproximam da linguagem característica do escritor, lembrando contos de seu primeiro livro, Sagarana.
Todos os personagens envolvidos diretamente na publicação de Ave, palavra já morreram e não revelaram se o livro teria conteúdo diferente do publicado. No inventário de Guimarães Rosa, Raul Floriano aparece como advogado designado pela segunda mulher do escritor, Aracy Moebius de Carvalho. As duas filhas do primeiro casamento com Lygia, Vilma e Agnes, eram representadas por outro advogado. Este, em mais de uma petição ao juiz, critica o excesso de interferência de Floriano, “recolhendo documentos e valores encontrados em gavetas da mesa de trabalho no Ministério do Exterior”. Raul Floriano era autor de livros de Direito e não tinha qualquer expressão literária que o autorizasse a decidir o que deveria entrar ou não na obra. Ao zelar pelos interesses do espólio, pode ter entendido que a publicação dos relatórios, documentos internos do Itamaraty, poderia prejudicar a circulação do livro em plena ditadura militar. Ou acreditar que aqueles textos entraram por engano na edição. “Os originais estavam prontos para ir ao prelo. Se papai quisesse tirar algo, teria já tirado ou me dito”, disse a ÉPOCA Vilma, a filha do escritor, hoje com 86 anos.
Documentos burocráticos (Foto: Reprodução/Arte Época)
Guimarães Rosa entrou para o Itamaraty em 1934 e sempre procurou distinguir o diplomata do escritor. O pano de fundo de seus livros era o sertão mineiro, e não a vida em Hamburgo ou em Paris, cidades onde trabalhou. A presença dos relatórios em Ave, palavra poderia indicar uma intenção do autor em aproximar suas duas esferas profissionais a partir desse livro – uma obra atípica, que inclui notas de viagem, trechos de diário, poesia e reportagens poéticas, muitos deles publicados em jornal. Rosa era conceituado no Itamaraty pela minúcia e pela clareza de seus textos. A fluidez da escrita tinha a propriedade de atrair mesmo leitores de fora do círculo diplomático. Não era, no entanto, a linguagem literária que criou em obras monumentais como Grande sertão: veredas.
Documentos burocráticos (Foto: Reprodução/Arte Época)
Um dos textos eliminado do livro foi produzido durante viagem a uma cooperativa de lavradores ao sul de Paris. O então primeiro-secretário Guimarães Rosa deveria avaliar se os trabalhadores possuíam condições técnicas para participar de um projeto de imigração para o Brasil. Voltou com achados poéticos:  “Há um jeito, sábio e amoroso, de revolver na mão a terra da gleba arada; de tocaiar as toupeiras, que alongam o morrete de suas galerias pelos canteiros da horta; de armar engenhosos espantalhos para defesa da semeadura, estacando manipanços ou pendurando um pintarroxo morto, que se balança ao vento e escarmenta os demais pintarroxos atrevidos”.
Outro relatório expõe uma divertida contenda nos bastidores do Itamaraty. Em 1945, o diplomata Djalma Lessa escreveu ao chefe do Departamento de Administração sobre o envio de uma amostra de damascos vinda de Assunção. O texto passou pelas mãos de Rosa, que fez uma série de correções ortográficas com tinta vermelha. Na ocasião, um ano antes de Sagarana, ele ainda não era conhecido como escritor. Lessa não gostou das correções e escreveu carta ao chefe dizendo que as alterações “em vez de melhorar ou corrigir o texto” deixavam “positivamente errado o que eu escrevera certo”. Minucioso ao extremo, Rosa redigiu um longo relatório pormenorizando cada uma de suas correções ortográficas. “O estilista da minuta e autor do memorandum levantou contra o revisor a acusação de haver errado, e errado gravemente.” Ele esmiúça suas correções citando regras gramaticais e manuais de redação do Itamaraty. Termina atacando o colega: “A verdade é que minuta e memorandum comprovam a completa desorientação do autor, no tocante ao emprego das vírgulas”. Depois do arrazoado, o chefe concordou com Rosa e ainda passou uma bronca em Lessa.
Guimarães Rosa,na possde na Academia Brasileira de  Letras ,entre Juscelino Kubisschck e Autrésilo de Athayde (Foto:  Arquivo / Agência O Globo)
De tempos em tempos, Rosa entregava alguns de seus relatórios para que Maria Augusta de Camargos, sua secretária pessoal, os guardasse. Os sete textos que estavam junto com os originais de Ave, palavra foram escritos ao longo de vários anos e escolhidos por critérios muito específicos. Não está entre eles, por exemplo, aquele que é considerado o mais importante texto de Rosa como diplomata – a nota de 1966 que deu origem à Ata das Cataratas. Com muito traquejo e profundo conhecimento das fronteiras, nesse texto ele consegue apaziguar um possível conflito entre Brasil e Paraguai, que disputavam limites no Rio Paraná. “Esta foi a melhor nota diplomática que o Brasil já escreveu, depois das do Barão do Rio Branco”, diz o escritor e diplomata Alberto da Costa e Silva, contemporâneo de Rosa no Itamaraty.
Um dos relatórios descreve o cotidiano em Portugal e Espanha durante a Segunda Guerra Mundial, em 1941. Rosa foi enviado como correio diplomático e escreveu um apanhado da situação política, social e econômica dos países para o embaixador em Berlim. Há uma curiosidade a respeito desse texto. Anos depois, Rosa retrabalhou o relatório de maneira literária, produzindo um conto inacabado sobre o mesmo tema. O professor da Universidade de Brasília (UnB) Gustavo de Castro, que está fazendo uma biografia sobre o escritor, encontrou os rascunhos no arquivo da USP. Esse era seu processo comum de trabalho, o que faz soar estranha a ideia de publicação dos relatórios brutos. “Ele tinha ojeriza ao estado bruto. Ao passar desta descrição para a narrativa ficcional é que criava sua literatura. Acho que os textos diplomáticos poderiam servir de mote para alguma narrativa. Duvido que quisesse publicá-los na forma de relatório”, diz Mônica Gama, professora de literatura da Universidade Federal de Ouro Preto, especialista na obra de Rosa. Pela documentação preservada, não fica claro se o escritor via algum valor literário em seus textos do Itamaraty e pretendia publicá-los na íntegra ou não. O advogado Raul Floriano pode entrar para a história como o homem que interferiu na obra póstuma de um mestre da literatura nacional.
Documentos burucráticos (Foto: Reprodução/Arte Época)

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