terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Eros e Psique, de Fernando Pessoa

.. E assim vêdes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma Verdade.

Do Ritual do Grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Êle tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Êle dela é ignorado.
Ela para êle é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Êle buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, êle vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia, 
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que êle mesmo era
A Princesa que dormia.
FERNANDO PESSOA

[Fonte: www.pessoadigital.pt]


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