Quem não quer ou não consegue reconhecer uma verdade tão simples não é burro - é perverso. E perigoso.
Um filme de Ingmar Bergman – belíssimo. Aqui, nesta crônica, a mesma metáfora.
Gosto de metáforas ou eu não gostasse de palavras, que são metáforas mortas, segundo Jorge Luiz Borges.
Há 30 anos escrevi uma crônica sobre o golpe de 1964.
Naquele
momento nunca imaginei que voltaria a tocar no assunto tantos anos
depois, porque pensei que as instituições militares já teriam se
redimido desse momento sujo de sua história com um pedido de desculpas à nação.
Pensava, ingênuo, que essa mancha indelével na história das Forças Armadas
brasileiras iria ficar circunscrita aos compêndios de História e sair,
ainda que dolorosa e lentamente, da corrente sanguínea do cotidiano da
nação.
Engano crasso.
Isso não foi feito, antes pelo contrário.
A serpente deixou e choca os seus ovos.
São
vozes orgulhosas, arrogantes, provocadoras, insidiosas, nostálgicas,
que teimam em insistir que o golpe que se eternizou por duas décadas foi
um momento glorioso da História do Brasil: são as vozes fardadas de
militares, personagens desse negro período, que buscam anular o passado
negando, de pés juntos, o que já corre à luz do dia; são vozes fardadas dos militares que vieram depois e que por esprit de corp ou por obediência hierárquica, se refugiam no silêncio; são as vozes civis dos que ganharam poder e que se locupletaram nesse longo período de desbragada corrupção, que cochicham ou louvam em alto e bom som.
Todos
unidos, cúmplices na tentativa de desmentir o estigma marcado a ferro
no corpo e na alma do povo brasileiro durante duas décadas de um governo
autoritário - e autoritário é aqui um eufemismo.
Duas décadas.
Vinte
e um anos, para sermos exatos, de arbitrariedades, ameaças, prisões,
censura, torturas, assassinatos, ocultação de corpos das vítimas, dentes arrancados
e dedos decepados, atentados e testemunhos falsos, subornos, delações,
expurgos, sequestros ... que mais? Falta, mas qualquer brasileiro pode
acrescentar outras ignomínias, mais torpezas, desmandos. Um legado de
corrupção, ignorância, desigualdade, matraca e mordaça. E um imenso
buraco cultural. A castração sistemática do pensamento criador e
político de toda uma juventude, e não só. Um fosso que vai levar décadas
para ser transposto.
Mas para abordar esse tema seriam necessárias mais de três telas.
Não
é preciso ser historiador para entender que o futuro tem suas raízes no
passado. Que um homem, mulher ou nação é feito do que foi e do que
carrega na memória, individual e coletiva. Que o que passou tem mais
força do que o que está para vir, porque tem o poder de pesar no que se
desenha no horizonte. Que não é dever, nem imposição mas uma necessidade
incontornável não fechar os olhos para a realidade, por mais ingrata que seja, sem se indagar o que ela significa.
O conhecimento do passado é transformador. O silêncio embalsama, nega o movimento, é pá de cal.
Abro um parêntesis:
Às
vezes me sinto tentado a ser inconveniente, usar uma palavra mais
contundente. Numa conversa falada, em que a velocidade da ideia e da
palavra não admitem retrocesso, uso. E raramente me arrependo; a
veemência justifica. Exorcizado o ímpeto da palavra que seria falada,
paro, para substituí-la por uma mais delicada. Demorei e resolvi
escolher um palavrão infantil: burro.
Fecho parêntesis e retomo a escrita.
As
Forças Armadas são assim tão burras que não conseguem entender que
ninguém mais do que elas têm interesse em se demarcar desse intolerável
passado para retomar a sua dignidade profissional e humana, comprometida
durante esses anos cruéis? Que quanto mais completo e rápido vierem à
tona os fatos, ainda que incômodos, mais cedo pode haver um novo pacto
de dignidade e respeito, entre si e entre todos, mediante seu
reconhecimento? Que as instituições são dinâmicas e que as Forças
Armadas de hoje podem e devem ser críticas em relação a si próprias,
assumir o erro e expurgá-lo? Não creio que sejam.
Quem não quer ou não consegue reconhecer uma verdade tão simples não é burro - é perverso.
E perigoso.
Defende
valores que devem ser combatidos, extirpados, porque esses valores são a
bandeira de uma corja, baioneta e braço erguido, que atenta contra o
axioma mais simples e fundamental do ser humano em sua constante
caminhada para se civilizar: respeito ao próximo e ao Outro.
A
palavra corja é mais do meu discurso falado, mas não a corrijo: sutileza
seria omissão. E nessa palavra tanto cabem civis como militares.
Quebrem-se os ovos - enquanto ainda é tempo.
Rio, 1 de abril de 2014.
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Ruy Alexandre Guerra Coelho Pereira (Maputo, Moçambique, 22 de agosto de 1931) é cineasta, dramaturgo e ator. Envolveu-se com clássicos da história do cinema: autor de Os Fuzis, Os Deuses e os Mortos, atuou em Aguirre, a Cólera dos Deus, de Werner Herzog. Ruy está terminando o roteiro adaptado do romance Quase Memória, de Carlos Heitor Cony.
[Foto: Tony Costa - fonte: www.cartamaior.com.br]

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