"Como vai? / Tudo bem / Apesar, contudo, todavia, mas, porém
/ As águas vão rolar..." Lembra? São versos de "Saúde", bela
composição de Rita Lee e Roberto de Carvalho. Tirante "apesar", que
integra as locuções "apesar de" e "apesar de que", de valor
concessivo, as palavras arroladas no terceiro dos versos citados ("contudo",
"todavia", "mas" e "porém") são conectivos de
valor adversativo.
Como se sabe, as
palavras "adversativo" e "adversário" vêm do mesmo ventre.
Um conectivo adversativo estabelece relação de oposição com o que foi dito na
oração anterior. Grosso modo, é como se se dissesse algo como "isso sim,
aquilo não" ou "isso não, aquilo sim".
De fato, é comum
que numa das orações ligadas por um conectivo adversativo haja um
"não" ou palavra/expressão de valor negativo ou ainda a ideia de
exclusão, restrição etc. ("Corri muito, mas não alcancei o ônibus";
"O time fez ótima campanha, mas foi eliminado"; "Não estudou,
mas foi aprovado"; "Estudou muito, mas foi reprovado").
Agora veja este par
de períodos: "O time jogou mal, mas venceu"; "O time venceu, mas
jogou mal". As palavras que os integram são exatamente as mesmas, mas
ninguém pode dizer que ambos são equivalentes, têm rigorosamente o mesmo
sentido etc.
Quando se opta pela
primeira construção ("O time jogou mal, mas venceu"), dá-se mais
importância à vitória; quando se opta pela segunda ("O time venceu, mas jogou
mal"), enfatiza-se o baixo nível da apresentação, ou seja, reconhece-se que a vitória não esconde a má apresentação.
Certa vez,
perguntaram a Tom Jobim que relação ele estabelecia entre Nova York e o Rio de
Janeiro (o Maestro chegou a ter uma casa em cada uma das duas cidades). Genial
como sempre, Tom disse o seguinte: "Nova York é legal, mas é uma merda; o
Rio é uma merda, mas é legal".
Depois dessa bela aula de língua (mais uma) do grande Tom, torna-se
impossível não entender o que eu me descabelei para explicar no parágrafo
anterior.
Pois bem. Na semana
passada, foi divulgado o resultado de uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) sobre o que pensam
os brasileiros a respeito do estupro. Embora estarrecedor, o resultado não me
surpreendeu, visto que, como bem sabe o leitor habitual deste espaço, não faço
parte dos que dizem que a nossa sociedade é maravilhosa etc.
Chamou-me a atenção
este item da pesquisa, do tipo concorda/discorda: "Se as mulheres
soubessem como se comportar, haveria menos estupros".
A
redação da frase
permite que nela se veja a afirmação de que a mulher não sabe se comportar, o
que é quase uma acusação, uma transformação da vítima em culpada. Que horror!
Parece que a esse pessoal falta leitura de boas obras que tratam da análise do
discurso.
Bem, e o que isso
tem que ver com a nossa conversa sobre os conectivos adversativos
("mas" etc.)? Com a palavra, uma conhecida figura da vida pública
deste país: "Tá bom, tá bom, tá com apetite sexual, estupra, mas não
mata". Como se vê, o autor
da frase não pôs o conectivo "mas" na oração do verbo
"estuprar", mas na do verbo "matar", o que significa que,
para ele, o importante é não matar.
Se pensarmos que
esse cidadão já foi eleito diversas vezes (com muitos votos de mulheres!) e se
compararmos as suas votações com os índices das respostas às perguntas da
pesquisa do Ipea, talvez encontremos alguma relação entre os dois fatos. É
isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
Sem comentários:
Enviar um comentário