segunda-feira, 15 de abril de 2013

É proibido!


Por Jairo Bouer

Multa de quase 2 mil reais para quem for pego guiando depois de beber uma única latinha de cerveja, utilização de aparelhos para detectar consumo de maconha ou cocaína em quem assumir o volante, proibição de fumar cigarro até mesmo em parques e praias são ou não medidas radicais?

Quem acompanha algumas das políticas públicas recentes, aqui e no resto do mundo, pode ter a sensação de que estamos vivendo em uma sociedade cada vez mais controlada, na qual as liberdades individuais parecem perder espaço para leis, regras e normas de conduta. Talvez em um nível mais superficial, essa sensação seja mesmo real. Se olhássemos com maior profundidade, poderíamos entender mais facilmente algumas dessas restrições em função de um ganho real, que seria maior segurança e mais saúde para a população.

Mas será que esse tipo de controle, sempre externo, de cima para baixo, com ameaças e punições, é a única forma de as pessoas perceberem como é importante e essencial que elas cuidem de si mesmas e dos outros?

Não há dúvidas de que, no curto prazo, esse tipo de limite parece surtir efeito. Quem acompanhou os últimos números do Carnaval pôde ver que, de fato, as estradas brasileiras nunca foram tão seguras (pelo menos nos últimos dez anos) e que menos acidentes e mortes aconteceram depois das festas do mês de fevereiro. Outros trabalhos mostram que, quando uma cidade proíbe o fumo em locais fechados, em poucos meses, as ocorrências cardiológicas, como infartos e anginas, diminuem nas salas de emergência dos hospitais locais. É possível ainda que a detecção de outras drogas nos condutores de veículos também reduza acidentes no trânsito, bem como um controle maior do uso de celulares ao volante, da mesma forma que o uso obrigatório do cinto de segurança diminuiu as mortes e lesões há algumas décadas. Em resumo, essas medidas de saúde pública, adotadas por mais e mais países, acompanhadas de controle e fiscalização adequados, parecem cumprir seu papel.

Na contramão desses bons resultados, a sensação de controle, a necessidade de obedecer a mais e mais normas, de ter que mudar hábitos e condutas são situações que incomodam uma parcela crescente da população. Qual seria, então, a solução ideal, se é que ela existe?

Se as pessoas fossem educadas para o cuidado ao longo da sua formação (em casa, na escola, por campanhas públicas permanentes), talvez a autonomia para decidir com maior lucidez ganhasse terreno e as medidas de controle externo poderiam ser mais afrouxadas. Seria algo similar ao processo que acontece na estrutura da própria família. À medida que percebem maior capacidade dos filhos de se cuidar, de assumir o controle da sua vida, os pais vão dando maior liberdade de ação. Enquanto essa maturidade não chega, proibições, limites e interdições vão sendo impostos pela autoridade dos mais velhos.

Em um mundo ainda utópico, essas novas leis seriam substituídas por uma administração da vida com maior responsabilidade. É claro que esse seria um processo longo, com gerações mais preparadas para lidar com os desejos e emoções de uma forma um pouco mais equilibrada. Difícil de imaginar isso nos jovens e até mesmo adultos de hoje, que vivem uma fase prolongada de necessidade de transgressão. Mais complicado ainda, pensar nesse autocontrole sob a ação de substâncias que alteram nossa capacidade de avaliar o que está acontecendo ao redor (caso típico da bebida). Enquanto isso, novas regras, limites e punições estarão a caminho!

JAIRO BOUER VOLTOU DO SRI LANKA APAIXONADO PELA SIMPATIA LOCAL, PELOS ELEFANTES E PELO WHITE TEA DO CEILÃO

[Ilustração: Marcelo Cipis - fonte: www.revistadacultura.com.br]

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