Por Jairo Bouer
Multa de quase 2 mil reais para quem for pego guiando depois de beber
uma única latinha de cerveja, utilização de aparelhos para detectar
consumo de maconha ou cocaína em quem assumir o volante, proibição de
fumar cigarro até mesmo em parques e praias são ou não medidas radicais?
Quem acompanha algumas das políticas públicas recentes, aqui e no resto
do mundo, pode ter a sensação de que estamos vivendo em uma sociedade
cada vez mais controlada, na qual as liberdades individuais parecem
perder espaço para leis, regras e normas de conduta. Talvez em um nível
mais superficial, essa sensação seja mesmo real. Se olhássemos com maior
profundidade, poderíamos entender mais facilmente algumas dessas
restrições em função de um ganho real, que seria maior segurança e mais
saúde para a população.
Mas será que esse tipo de controle, sempre externo, de cima para baixo,
com ameaças e punições, é a única forma de as pessoas perceberem como é
importante e essencial que elas cuidem de si mesmas e dos outros?
Não há dúvidas de que, no curto prazo, esse tipo de limite parece surtir
efeito. Quem acompanhou os últimos números do Carnaval pôde ver que, de
fato, as estradas brasileiras nunca foram tão seguras (pelo menos nos
últimos dez anos) e que menos acidentes e mortes aconteceram depois das
festas do mês de fevereiro. Outros trabalhos mostram que, quando uma
cidade proíbe o fumo em locais fechados, em poucos meses, as ocorrências
cardiológicas, como infartos e anginas, diminuem nas salas de
emergência dos hospitais locais. É possível ainda que a detecção de
outras drogas nos condutores de veículos também reduza acidentes no
trânsito, bem como um controle maior do uso de celulares ao volante, da
mesma forma que o uso obrigatório do cinto de segurança diminuiu as
mortes e lesões há algumas décadas. Em resumo, essas medidas de saúde
pública, adotadas por mais e mais países, acompanhadas de controle e
fiscalização adequados, parecem cumprir seu papel.
Na contramão desses bons resultados, a sensação de controle, a
necessidade de obedecer a mais e mais normas, de ter que mudar hábitos e
condutas são situações que incomodam uma parcela crescente da
população. Qual seria, então, a solução ideal, se é que ela existe?
Se as pessoas fossem educadas para o cuidado ao longo da sua formação
(em casa, na escola, por campanhas públicas permanentes), talvez a
autonomia para decidir com maior lucidez ganhasse terreno e as medidas
de controle externo poderiam ser mais afrouxadas. Seria algo similar ao
processo que acontece na estrutura da própria família. À medida que
percebem maior capacidade dos filhos de se cuidar, de assumir o controle
da sua vida, os pais vão dando maior liberdade de ação. Enquanto essa
maturidade não chega, proibições, limites e interdições vão sendo
impostos pela autoridade dos mais velhos.
Em um mundo ainda utópico, essas novas leis seriam substituídas por uma
administração da vida com maior responsabilidade. É claro que esse seria
um processo longo, com gerações mais preparadas para lidar com os
desejos e emoções de uma forma um pouco mais equilibrada. Difícil de
imaginar isso nos jovens e até mesmo adultos de hoje, que vivem uma fase
prolongada de necessidade de transgressão. Mais complicado ainda,
pensar nesse autocontrole sob a ação de substâncias que alteram nossa
capacidade de avaliar o que está acontecendo ao redor (caso típico da
bebida). Enquanto isso, novas regras, limites e punições estarão a
caminho!
JAIRO BOUER VOLTOU DO SRI LANKA APAIXONADO PELA SIMPATIA LOCAL, PELOS ELEFANTES E PELO WHITE TEA DO CEILÃO
[Ilustração: Marcelo Cipis - fonte: www.revistadacultura.com.br]

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