No jornal de papel, existe o fator espaço, muitas vezes verdadeiro;
na web, esse fator tem peso (quase) zero
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ESTAVA NA primeira página de um site, há uma ou duas semanas: "Comissão
aprova feriado em dia de jogo do Brasil e cerveja em estádio". Prato cheio para
uma das já tradicionais questões de vestibulares (o da Unicamp, por exemplo) que
pedem ao candidato que traduza os efeitos "estranhos" que a ordem das palavras
dá ao sentido de determinadas frases.
Estruturalmente, a frase em questão pode ser ambígua, já que dela se pode
entender que: a) foram dois os itens aprovados pela tal comissão (1 - feriado em
dia de jogo do Brasil; 2 - cerveja nos estádios); b) o feriado está condicionado
a dois itens (1 - jogo do Brasil; 2 - cerveja no estádio -jogo do Brasil sem
cerveja no estádio, nada de feriado).
É claro que com um pouco de boa vontade se chega àquilo que o redator
efetivamente quis dizer, ou seja, que a tal comissão aprovou dois itens (cerveja
nos estádios e feriado em dia de jogo do Brasil), mas a ordem dada aos termos
não nos leva imediatamente a essa compreensão.
Como o caro leitor certamente já pôde perceber, teria sido melhor inverter a
ordem dos termos. Vamos lá: "Comissão aprova cerveja em estádio e feriado em dia
de jogo do Brasil". A frase cai lisa logo de cara, não?
Na última terça-feira, em sua coluna nesta Folha ("A Língua e o
Poeta"), Hélio Schwartsman afirmou que, em determinado contexto (o comentário
que ele, Schwartsman, faz a partir da tese de Noam Chomsky de que a capacidade
para a linguagem é inata), "uma frase ambígua é mais 'errada' do que uma que
fira as caprichosas regras de colocação pronominal". Assino embaixo, o que, para
o leitor habitual deste espaço, não é nenhuma novidade.
E por que a referência ao que escreveu Schwartsman? Porque o título
jornalístico que comentei hoje é prova viva do que diz o caro articulista. Já
perdi a conta de quantas vezes comentei neste espaço trechos e títulos
jornalísticos de difícil compreensão ou de compreensão não imediata. A usina vai
a mil; a produção não tem fim. No jornal de papel, existe o fator espaço, muitas
vezes verdadeiro; na internet, esse fator tem peso zero (ou quase zero), já que
a "manobrabilidade" é muito maior. Qual será, então, o motivo de tantos títulos
ruins? A pressa? Sabe Deus!
Quer outro? Prepare-se para mais um contorcionismo. Lá vai: "Palmeiras encara
primeiro teste para driblar pressão da torcida contra Ajax". Elaiá! O que faz aí
a preposição "contra"? Liga "pressão" a "Ajax", ou seja, indica que a pressão é
contra o Ajax? Ou será que a pressão é da torcida do Palmeiras contra o próprio
time? Sim, sim, já sei, o conhecimento de mundo nos faz entender que o sentido
pretendido pelo redator etc., etc., etc., mas... Mas sonhar com a alteração na
ordem nos termos e a consequente obtenção da clareza não é exigir muito, é?
Vamos lá: "Contra Ajax, Palmeiras encara primeiro teste para driblar pressão da
torcida". Viu como é simples? Por que será que muitos dos que escrevem não
pensam no fator ordem? Será que isso revela linearidade do pensamento?
Bem, antes que me esqueça, o termo "driblar" não parece o mais adequado à
mensagem citada no parágrafo anterior ("aplacar" talvez fosse melhor), mas isso
(o vocabulário) é outra história. É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
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