domingo, 27 de setembro de 2026

Elif Eralp, a líder de esquerda radical com raízes turcas vista como a «Mamdani alemã»

Aos 45 anos, a advogada deu uma vitória histórica ao Die Linke no domingo. Mas para chegar ao poder em Berlim, a extrema-esquerda precisa de parceiros de coligação. Defesa de habitação acessível gerou comparações com mayor de Nova Iorque. 

Escrito por Helena Tecedeiro 

Aos 10 anos, Elif Eralp convenceu duas amigas a juntar-se a ela na garagem dos pais para pintarem cartazes pela defesa do ambiente e distribuí-los. Aos 12 sabia que queria ser advogada de direitos humanos. Criada por pais sindicalistas, que fugiram da Turquia para a Alemanha após o golpe militar de 1980 e que sempre a levaram com eles a manifestações, Eralp formou-se em Direito e passou pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados antes de, em 2010, ir trabalhar como assessora jurídica para o grupo parlamentar do Die Linke. A adesão ao partido da esquerda radical alemã (Die Linke significa A Esquerda) deu-se em 2017 e agora, menos de uma década depois, Eralp protagonizou a vitória histórica de domingo passado em Berlim. Mas para tornar-se a primeira filha de imigrantes a liderar a cidade-estado que é a capital alemã tem ainda de conseguir apoios para formar uma coligação de governo. 

A viver no bairro de Kreuzberg, na antiga Berlim Ocidental, com o marido e os dois filhos, num apartamento arrendado, como gosta de destacar, Eralp fez da habitação acessível um foco da sua campanha para burgomestre. Aos 45 anos, a advogada defende a municipalização de 220 mil apartamentos, vendidos pela câmara a grandes grupos imobiliários nos anos 2000, sendo estes acusados de explorar os inquilinos. Um programa que pode dificultar as negociações com os social-democratas do SPD que, como os Verdes, já abriram a porta a juntar-se a Eralp no governo. 

“A minha grande prioridade será combater o aumento das rendas, porque esse é o maior problema para os berlinenses”, afirmou Eralp em entrevista à agência estatal turca Anadolou. 

Nascida em Munique em 1981, pouco depois da chegada dos pais à Alemanha, Eralp destaca-se em contraponto à AfD, o partido de extrema-direita que, também no domingo, foi o mais votado nas eleições no Mecklemburgo-Pomerânia, duas semanas depois da sua vitória na Saxónia-Anhalt, onde ficou a três lugares da maioria. 

Em Berlim, a campanha do Die Linke promete uma “cidade solidária”, com Eralp a defender a facilitação da naturalização e maiores direitos políticos para residentes de longa data sem cidadania alemã. Segundo ela, a capital precisa de um governo que reflita melhor uma cidade marcada pela imigração. “Durante décadas, vimos como a chamada geração dos ‘trabalhadores convidados’, que ajudou a construir Berlim, nunca foi realmente reconhecida ou valorizada”, diz à Deutsche Welle. 

Confrontada com acusações de antissemitismo no Die Linke, sobretudo depois de um evento do partido na capital ter tido a presença do rapper Dahabflex, cujas letras foram consideradas antissemitas, defendendo a violência contra soldados israelitas, Eralp afastou-se do episódio. Condenando a apresentação e pedindo consequências, garantiu: “Defendo de forma inequívoca a proteção da vida judaica, assim como a proteção da vida palestiniana e muçulmana”. 

Apelidada de “Mamdani alemã” pelos media germânicos, numa comparação com o mayor de Nova Iorque, Zohran Mamdani, cuja campanha também se centrou na habitação acessível e maior justiça social, Eralp não nega a inspiração, tanto na mensagem como no estilo de campanha centrado no porta a porta e nas redes sociais. “Como mulher, tenho relutância em comparar-me a um homem. Mas, naturalmente, o sucesso de Mamdani foi um grande exemplo para nós”, disse Eralp à Reuters. 

Mulher, jovem, filha de imigrantes, Eralp tem um perfil que há uns anos seria pouco comum no Die Linke, um partido fortemente implantado nos länder da antiga Alemanha de Leste e em Berlim Oriental. Nascido em 2007 da fusão entre o Partido do Socialismo Democrático (PDS) - sucessor do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED), que governou a Alemanha de Leste nos seus 40 anos de existência - e da Alternativa Eleitoral para o Trabalho e a Justiça Social (WASG), constituída na Alemanha Ocidental por sindicalistas e dissidentes do SPD, o Die Linke teve como primeiros líderes Lothar Bisky e Oskar Lafontaine. 

Muitas vezes visto ainda como o partido dos ex-comunistas, hoje três quartos dos eleitores do Die Linke vêm do oeste da Alemanha, apesar de a percentagem do partido ainda a ser maior no leste: nas eleições de 2025, teve 12,8% no leste e 7,9% no oeste. 

Atualmente, com Elif Eralp em Berlim, Heidi Reichinnek, deputada e presidente do grupo parlamentar no Bundestag, que aos 38 anos é uma estrela das redes sociais, e Ines Schwerdtner, aos 37 anos copresidente do partido, o Die Linke apresenta um trio feminino de peso na liderança. Objetivo? Conquistar o voto de uma população mais jovem, urbana, mais feminina e marcada por uma história de migração, muito sensível às questões da igualdade e do racismo. 

 

[Foto: EPA/CLEMENS BILAN - fonte: www.dn.pt]

 

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