Para onde vai
Portugal? É frequente achar-se que as elites que mandam no país não têm um rumo
para Portugal. Nada mais errado. Eles sabem o que querem. Têm um plano e ele
está a avançar.
Escrito por Manuel Afonso
Para onde vai
Portugal?
É frequente
achar-se que as elites que mandam no país — portuguesas, mas não só — não têm
um rumo para Portugal. Seríamos uma noz à deriva, ao sabor do improviso e dos
ventos imprevisíveis dos tão famigerados ciclos eleitorais. Nada mais errado.
Eles sabem o que
querem. Têm um plano e ele está a avançar.
Podemos olhar
para trás e tentar entender onde começou. Haveria vários marcos para assinalar
o arranque dessa grande transformação. Mas certamente quando, em plena crise
das dívidas soberanas (ou da terapia de choque que as usou como
pretexto), foi anunciada a intenção de «ir para além da Troika», era disso que
estavam a falar. Não era só sobre cortes de salários e pensões; não tinha que
ver com política fiscal. Era sobre um novo lugar (pior) de Portugal no mundo.
Na divisão internacional do trabalho. Daquilo que Portugal faz e
para que serve, se assim quisermos dizer. Da inauguração de uma economia de
sacrifício. Para sempre. Foi esse o plano e desde então não foi travado. O
atual Governo é, naturalmente, uma agremiação de talibans votados a esse plano:
sacrificar Portugal. Mas desde, pelo menos, Passos Coelho até hoje ninguém
travou este processo.
De que
falamos?
Vejamos, por
exemplo, o novo PSZAER: Plano Sectorial de Zonas de Aceleração de Energias
Renováveis. Um mapa «verde» como lhe chamam. «Verde» no sentido de um semáforo
permanente aberto para a «aceleração» do extrativismo selvagem, de fluxos de
capital que cá vêm buscar energia barata, deixando sacrifício como resultado.
Trocando por miúdos: neste mapa, o governo assinala as áreas do território onde
se podem (devem?) instalar centrais fotovoltaicas ou de energia eólica, com
maior facilidade de licenciamento (ou seja, menos regulamentação e proteção para
o território e as populações). No total, 7% do território continental
disponível para estes megaparques. Para termos uma noção, as áreas
metropolitanas de Lisboa e Porto somadas são menos de 6%. Mas há distritos que
veem mais de 10% do seu território potencialmente entregue as estas
megacentrais; e concelhos que podem ter mais de 25% ocupado por estes desertos
«verdes». Que não haja ilusões: não tem nada que ver com transição energética e
climática. Para isso, cabe investir no solar descentralizado, essencialmente no
cimo de edifícios já existentes e não seria necessária uma área tão grande.
Problemas: áreas enormes de paisagem roubada, onde já nada crescerá, onde não
há ecossistemas para absorver calor, carbono e água, onde os solos são
esvaziados de nutrientes e desterificados por gerações; sem criação de emprego,
de conhecimento ou inovação; sem embaratecer a eletricidade, devido ao modelo
de fixação de preços, desenhado à medida das rendas da EDP; na mão de poucos
investidores, que concentram poder e dinheiro. O que fica para Portugal? Zonas
de sacrifício. Partes enormes do território fadadas à desertificação literal, à
seca, ao abandono. Uma economia que não gera nada, para além de fartas rendas
para uns poucos.
Mas as Zonas de
Aceleração de Energias Renováveis são só um exemplo. Pensemos na contrarreforma
agrária que viveu Portugal na última década, década e meia: explosão da
agricultura intensiva ou ultraintensiva —frutos vermelhos, olival, amendoal,
abacate. Um modelo que esgota os solos, absorve água em excesso, assente na
exportação, muitas vezes com base a culturas geneticamente modificadas em que
nem a reprodução é possível (os agricultores têm de comprar as plantas
anualmente a multinacionais detentoras das patentes) e cujas margens só se
mantêm através do uso em grande escala de mão de obra ultraprecária. Sacrifício
da terra, sacrifício do trabalho. Saem os lucros, ficam os desertos.
Pensemos na
turistificação dos centros às cidades, aliada ao rentismo imobiliário e à
superexploração na hotelaria, restauração, limpezas, plataformas. Sobram os
centros das cidades, inacessíveis a quem cá trabalha, e o seu correlato
invisível, os subúrbios, armazéns de população «excedente», reservatórios de
mão de obra. Ambas zonas de sacrifício.
Pensemos nos
projetos de data centers. Só o data center Start Campus em Sines irá
utilizar o equivalente a 15% da eletricidade nacional. Somando os pedidos de
potência feitos pelos investidores em data
centers em Portugal, o uso e eletricidade em território nacional pode vir a
triplicar! (Já se percebe o interesse nos mares de painéis solares.)
Vejamos agora na
mineração. A barbaridade em curso nas Covas do Barroso, distrito de Vila Real
(e a heroica resistência da sua população), em que o Estado se coloca ao
serviço, pela lei e pela força, da destruição do território e da comunidade
para permitir a uma multinacional estrangeira executar um crime ambiental, é
apenas um exemplo. Os novos projetos de mineração também surgem como cogumelos.
E o modelo é sempre o mesmo: donos estrangeiros, extração para exportar, nenhum
valor acrescentado, trabalho explorado, destruição do território. Sacrifício.
Naturalmente, o
modelo de imigração realmente existente — não o direito humano a migrar — não
pode ser dissociado desta economia de sacrifício. A ideia de importação de mão
de obra, vista como mercadoria «essencial à nossa economia» (de sacrifício) e a
perseguição aos trabalhadores imigrantes, construindo um novo proletariado numa
situação de subcidadania disponível para o sacrifício são, nisto,
complementares. Só assim se entende a revanche da AD e dos novos fascistas
contra os imigrantes que trabalham, tal como é a esta luz que se percebe a
sanha do malogrado e bem chumbado Pacote Laboral — criar um povo sacrificado.
Zonas de
sacrifício. Economia de sacrifício. Portugal sacrificado. Eles têm um plano
Zonas de
sacrifício. Economia de sacrifício. Portugal sacrificado. Eles têm um plano. As
direitas e o PS distinguem-se no modo e no ritmo (o que, sim,
circunstancialmente, conta), mas não na visão para o país. A escolha não pode
ser entre os aceleracionistas selvagens e os gestores tecnocráticos do nosso
sacrifício.
Também porque a
economia do sacrifício é o sacrifício da democracia. Onde a serra arde, a água
falta e o trabalho adoece, não há democracia; onde os abutres milionários são
donos dos partidos e do poder, não há democracia. Aí, o Estado falha, a
democracia esvazia-se. Não é um prognóstico, é um diagnóstico. E isso explica a
abrupta mudança na política nacional. Vidas sacrificadas não têm o respeito por
uma democracia que lhes falhou como critério eleitoral.
Temos de ter um
diagnóstico claro, conhecer Portugal — os números, mas sobretudo as pessoas e
lugares. E, principalmente, um plano alternativo. Para recuperar o controlo. Do
território, da economia, da democracia. Do povo para o povo.
Este pode ser o
ponto de partida: para um programa, para uma estratégia, para uma esquerda para
vencer.
[Fonte: www.esquerda.net]

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