Com este congresso, Die Linke afirmou-se claramente como um polo alternativo de esquerda face ao consenso dominante de todos os partidos em torno do desmantelamento social, do ataque aos direitos laborais, da militarização, do apoio incondicional a Israel e do fortalecimento da extrema-direita.
Escrito por Harald Wolf
Mais jovem, mais feminino e mais marcado pela experiência migratória – assim foi o congresso federal de Die Linke, celebrado entre 19 e 21 de junho de 2026 em Potsdam. O partido decidiu fazer um esforço para enraizar-se mais na classe operária e consolidar a sua luta na defesa das condições sociais das pessoas, a luta contra o armamento, a solidariedade com o povo palestiniano e a luta contra a extrema-direita para construir uma alternativa de esquerda na Alemanha.
A composição dos delegados mostrou até que ponto o partido se transformou profundamente, após a separação da ala de direita e hostil à imigração em torno de Sarah Wagenknecht em 2023. Dos 571 delegados, 311 tinham aderido ao partido após a cisão. A média das idades era de 37 anos, mais de metade eram mulheres e mais de 100 tinham vivido pessoalmente, ou através das suas famílias, experiências de fuga ou de migração.
O número de membros mais do que duplicou,
passando de cerca de 50.000 para 126.000. Isto aproximou-se de uma refundação
do partido. Um grande sucesso, mas também associado a grandes desafios. Assim,
a moção orientadora aprovada por esmagadora maioria afirmava: «Não
podemos confiar num hype político passageiro».
É necessário um enraizamento mais forte e estável na sociedade e, em
particular, na classe operária. No centro desta estratégia deverá estar a
mobilização contra os ataques massivos ao Estado social, bem como a continuação
da campanha contra a explosão dos preços das rendas, a favor de um teto para as
rendas e da socialização das grandes empresas imobiliárias.
A isto deverá associar-se um trabalho de
organização nos bairros, nos locais de trabalho e nos sindicatos, com o
objetivo de desenvolver Die Linke como um partido organizador de classe. Tendo
em conta o aumento do apoio de sindicalistas, trabalhadores e desempregados à
extrema-direita da AfD, bem como o afastamento quase completo do tradicional
meio operário da social-democracia, torna-se urgentemente necessário formar um
contrapolo de esquerda, o que requer exigirá um trabalho paciente e de longo
prazo no terreno.
O congresso também decidiu limitar os
vencimentos dos deputados a um salário médio previsto pelas convenções
coletivas da administração pública e de transferir os montantes excedentários
para um fundo social do partido. Uma decisão que poderá reforçar a
credibilidade do partido e dos seus deputados.
Um partido antimilitarista e antifascista
O congresso reafirmou igualmente a posição
antimilitarista do partido, a única força política representada no parlamento
que se opõe ao vasto programa de rearmamento da Alemanha e da União Europeia.
Em conjunto com organizações pacifistas, o partido presta aconselhamento sobre
a objeção de consciência ao serviço militar e apoia as mobilizações, em
particular dos estudantes, contra a reintrodução do serviço militar
obrigatório.
A luta contra a extrema-direita e o
fortalecimento da AfD colocam Die Linke perante desafios difíceis. Nas
sondagens, a AfD é já o partido mais forte e, nas eleições da Saxónia-Anhalt e
de Mecklenburgo, todas as previsões indicam que será a força mais votada.
Existe, assim, o risco de que, pela primeira vez, um partido da extrema-direita
conquiste o poder governamental num Estado federado. É possível que uma maioria
parlamentar contra a AfD só possa ser alcançada através da concentração dos
votos de todos os outros partidos.
Na Saxónia-Anhalt, Die Linke está confrontada
com a questão de saber se deverá permitir a formação de um governo minoritário
liderado pela CDU para impedir uma tomada do poder pela extrema-direita. O
congresso formulou, a este respeito, critérios orientadores para a decisão
final das secções regionais. A prevenção de um governo de extrema-direita
através dos votos de Die Linke a favor de um ministro-presidente conservador
exigiria acordos claros de que a CDU não procurará maiorias parlamentares com a
AfD, de que não haverá cortes sociais e de que a sociedade civil democrática e
os direitos democráticos serão defendidos. Isto, porém, ainda não resolve a
complexa questão de como evitar que Die Linke, como preço pela contenção da
extrema-direita, seja forçada a uma lógica de unidade com os conservadores e
perca visibilidade enquanto polo oposicionista autónomo. Serão necessárias
novas e intensas discussões no interior do partido.
A favor da segurança dos judeus e a liberdade
dos palestinianos
A discussão sobre o conflito no Médio Oriente
ocupou igualmente um lugar importante. Tendo como pano de fundo o genocídio
cometido pelo fascismo alemão contra seis milhões de judeus, trata-se de uma
questão particularmente sensível na Alemanha. O apoio a Israel foi declarado
pelo governo como a Staatsräson alemã («razão
de Estado», que na realidade significa o apoio incondicional a Israel). Contudo,
setores importantes da esquerda compreenderam o sionismo sobretudo como uma
reação aos crimes do fascismo alemão, relegando para segundo plano a crítica ao
sionismo enquanto projeto de conquista através da colonização. Isto alterou-se
com a guerra em Gaza. Muitos dos jovens novos membros politizaram-se e
radicalizaram-se perante a guerra de destruição levada a cabo por Israel contra
a população palestiniana. Para eles, Gaza tem a mesma importância que o
Vietname teve para as gerações mais velhas. A direção do partido viu-se, assim,
confrontada com a tarefa de aproximar estas diferentes experiências.
Foi uma decisão prudente da direção do partido
convidar duas oradoras, que não pertenciam ao partido, para intervirem no
início do debate: Verad Berman e Aida Touma-Sliman. Ambas são cidadãs
israelitas. Berman é neta de sobreviventes do Holocausto. Touma-Sliman é
comunista e deputada árabe no Knesset pela aliança de esquerda Hadash. Aos 19
anos, Berman perdeu a mãe, que morreu num atentado suicida cometido por um
jovem palestiniano. A conclusão que retirou dessas experiências trágicas foi a
de «não viver na lógica da vingança e da desumanização». A segurança dos judeus
e a liberdade dos palestinianos «não são opostos, mas condicionam-se mutuamente».
Berman apelou à esquerda alemã para que se levantasse «contra a desumanização,
a privação de direitos e o genocídio». A República Federal da Alemanha teria
uma responsabilidade especial no combate a qualquer forma de antissemitismo.
Este não pode ser separado do compromisso «contra o racismo, a privação de
direitos e o genocídio». Não basta opor-se ao atual governo israelita: «Todo o
sistema de ocupação deve ser abolido». Touma-Sliman exigiu «o fim da
cumplicidade» da Alemanha com o regime de Jerusalém e um «embargo total ao
fornecimento de armas a Israel».
Após este importante início, o congresso
aprovou, por larga maioria, uma resolução que caracteriza a atuação de Israel
como genocídio, exige o fim do fornecimento de armas a Israel e o congelamento
do acordo de associação entre a União Europeia e Israel. O congresso
pronunciou-se a favor do direito à autodeterminação dos palestinianos num
Estado próprio, bem como do direito à autodeterminação do povo judeu. Ao mesmo
tempo, perante o aumento dos ataques antissemitas na Alemanha, o congresso
reafirmou a luta contra todas as formas de antissemitismo.
Die Linke: uma alternativa de esquerda
Com este congresso, Die Linke afirmou-se
claramente como um polo alternativo de esquerda face ao consenso dominante de
todos os partidos em torno do desmantelamento social, do ataque aos direitos
laborais, da militarização, do apoio incondicional a Israel e do fortalecimento
da extrema-direita. Die Linke demonstrou a sua capacidade de unir diferentes
tradições políticas, experiências e perspetivas de consensos que agora têm que
ser traduzidos em ações políticas concretas. O partido tornou-se não apenas
mais diverso, mas também mais à esquerda e mais radical. Para Die Linke permanece,
contudo, o desafio de transformar o atual crescimento do número de membros –
o hype, como disse a direção – numa prática política estável,
organizadora e orientada para a classe operária, bem como de continuar a
alargar o apoio político e social para Die Linke.
Harald
Wolf é
membro do partido Die Linke
[Foto: Die Linke - fonte: www.esquerda.net]

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