sexta-feira, 3 de julho de 2026

Congresso do Die Linke: transformar o «hype» político numa prática organizadora

Com este congresso, Die Linke afirmou-se claramente como um polo alternativo de esquerda face ao consenso dominante de todos os partidos em torno do desmantelamento social, do ataque aos direitos laborais, da militarização, do apoio incondicional a Israel e do fortalecimento da extrema-direita. 

Congresso do Die Linke

Escrito por Harald Wolf

Mais jovem, mais feminino e mais marcado pela experiência migratória – assim foi o congresso federal de Die Linke, celebrado entre 19 e 21 de junho de 2026 em Potsdam. O partido decidiu fazer um esforço para enraizar-se mais na classe operária e consolidar a sua luta na defesa das condições sociais das pessoas, a luta contra o armamento, a solidariedade com o povo palestiniano e a luta contra a extrema-direita para construir uma alternativa de esquerda na Alemanha. 

A composição dos delegados mostrou até que ponto o partido se transformou profundamente, após a separação da ala de direita e hostil à imigração em torno de Sarah Wagenknecht em 2023. Dos 571 delegados, 311 tinham aderido ao partido após a cisão. A média das idades era de 37 anos, mais de metade eram mulheres e mais de 100 tinham vivido pessoalmente, ou através das suas famílias, experiências de fuga ou de migração. 

O número de membros mais do que duplicou, passando de cerca de 50.000 para 126.000. Isto aproximou-se de uma refundação do partido. Um grande sucesso, mas também associado a grandes desafios. Assim, a moção orientadora aprovada por esmagadora maioria afirmava: «Não podemos confiar num hype político passageiro». É necessário um enraizamento mais forte e estável na sociedade e, em particular, na classe operária. No centro desta estratégia deverá estar a mobilização contra os ataques massivos ao Estado social, bem como a continuação da campanha contra a explosão dos preços das rendas, a favor de um teto para as rendas e da socialização das grandes empresas imobiliárias.

A isto deverá associar-se um trabalho de organização nos bairros, nos locais de trabalho e nos sindicatos, com o objetivo de desenvolver Die Linke como um partido organizador de classe. Tendo em conta o aumento do apoio de sindicalistas, trabalhadores e desempregados à extrema-direita da AfD, bem como o afastamento quase completo do tradicional meio operário da social-democracia, torna-se urgentemente necessário formar um contrapolo de esquerda, o que requer exigirá um trabalho paciente e de longo prazo no terreno.

O congresso também decidiu limitar os vencimentos dos deputados a um salário médio previsto pelas convenções coletivas da administração pública e de transferir os montantes excedentários para um fundo social do partido. Uma decisão que poderá reforçar a credibilidade do partido e dos seus deputados.

Um partido antimilitarista e antifascista

O congresso reafirmou igualmente a posição antimilitarista do partido, a única força política representada no parlamento que se opõe ao vasto programa de rearmamento da Alemanha e da União Europeia. Em conjunto com organizações pacifistas, o partido presta aconselhamento sobre a objeção de consciência ao serviço militar e apoia as mobilizações, em particular dos estudantes, contra a reintrodução do serviço militar obrigatório.

A luta contra a extrema-direita e o fortalecimento da AfD colocam Die Linke perante desafios difíceis. Nas sondagens, a AfD é já o partido mais forte e, nas eleições da Saxónia-Anhalt e de Mecklenburgo, todas as previsões indicam que será a força mais votada. Existe, assim, o risco de que, pela primeira vez, um partido da extrema-direita conquiste o poder governamental num Estado federado. É possível que uma maioria parlamentar contra a AfD só possa ser alcançada através da concentração dos votos de todos os outros partidos.

Na Saxónia-Anhalt, Die Linke está confrontada com a questão de saber se deverá permitir a formação de um governo minoritário liderado pela CDU para impedir uma tomada do poder pela extrema-direita. O congresso formulou, a este respeito, critérios orientadores para a decisão final das secções regionais. A prevenção de um governo de extrema-direita através dos votos de Die Linke a favor de um ministro-presidente conservador exigiria acordos claros de que a CDU não procurará maiorias parlamentares com a AfD, de que não haverá cortes sociais e de que a sociedade civil democrática e os direitos democráticos serão defendidos. Isto, porém, ainda não resolve a complexa questão de como evitar que Die Linke, como preço pela contenção da extrema-direita, seja forçada a uma lógica de unidade com os conservadores e perca visibilidade enquanto polo oposicionista autónomo. Serão necessárias novas e intensas discussões no interior do partido.

A favor da segurança dos judeus e a liberdade dos palestinianos

A discussão sobre o conflito no Médio Oriente ocupou igualmente um lugar importante. Tendo como pano de fundo o genocídio cometido pelo fascismo alemão contra seis milhões de judeus, trata-se de uma questão particularmente sensível na Alemanha. O apoio a Israel foi declarado pelo governo como a Staatsräson alemã («razão de Estado», que na realidade significa o apoio incondicional a Israel). Contudo, setores importantes da esquerda compreenderam o sionismo sobretudo como uma reação aos crimes do fascismo alemão, relegando para segundo plano a crítica ao sionismo enquanto projeto de conquista através da colonização. Isto alterou-se com a guerra em Gaza. Muitos dos jovens novos membros politizaram-se e radicalizaram-se perante a guerra de destruição levada a cabo por Israel contra a população palestiniana. Para eles, Gaza tem a mesma importância que o Vietname teve para as gerações mais velhas. A direção do partido viu-se, assim, confrontada com a tarefa de aproximar estas diferentes experiências.

Foi uma decisão prudente da direção do partido convidar duas oradoras, que não pertenciam ao partido, para intervirem no início do debate: Verad Berman e Aida Touma-Sliman. Ambas são cidadãs israelitas. Berman é neta de sobreviventes do Holocausto. Touma-Sliman é comunista e deputada árabe no Knesset pela aliança de esquerda Hadash. Aos 19 anos, Berman perdeu a mãe, que morreu num atentado suicida cometido por um jovem palestiniano. A conclusão que retirou dessas experiências trágicas foi a de «não viver na lógica da vingança e da desumanização». A segurança dos judeus e a liberdade dos palestinianos «não são opostos, mas condicionam-se mutuamente». Berman apelou à esquerda alemã para que se levantasse «contra a desumanização, a privação de direitos e o genocídio». A República Federal da Alemanha teria uma responsabilidade especial no combate a qualquer forma de antissemitismo. Este não pode ser separado do compromisso «contra o racismo, a privação de direitos e o genocídio». Não basta opor-se ao atual governo israelita: «Todo o sistema de ocupação deve ser abolido». Touma-Sliman exigiu «o fim da cumplicidade» da Alemanha com o regime de Jerusalém e um «embargo total ao fornecimento de armas a Israel».

Após este importante início, o congresso aprovou, por larga maioria, uma resolução que caracteriza a atuação de Israel como genocídio, exige o fim do fornecimento de armas a Israel e o congelamento do acordo de associação entre a União Europeia e Israel. O congresso pronunciou-se a favor do direito à autodeterminação dos palestinianos num Estado próprio, bem como do direito à autodeterminação do povo judeu. Ao mesmo tempo, perante o aumento dos ataques antissemitas na Alemanha, o congresso reafirmou a luta contra todas as formas de antissemitismo.

Die Linke: uma alternativa de esquerda

Com este congresso, Die Linke afirmou-se claramente como um polo alternativo de esquerda face ao consenso dominante de todos os partidos em torno do desmantelamento social, do ataque aos direitos laborais, da militarização, do apoio incondicional a Israel e do fortalecimento da extrema-direita. Die Linke demonstrou a sua capacidade de unir diferentes tradições políticas, experiências e perspetivas de consensos que agora têm que ser traduzidos em ações políticas concretas. O partido tornou-se não apenas mais diverso, mas também mais à esquerda e mais radical. Para Die Linke permanece, contudo, o desafio de transformar o atual crescimento do número de membros – o hype, como disse a direção – numa prática política estável, organizadora e orientada para a classe operária, bem como de continuar a alargar o apoio político e social para Die Linke.


Harald Wolf é membro do partido Die Linke

 

[Foto: Die Linke - fonte: www.esquerda.net]

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