A sólida imagem democrática do Uruguai contrasta com a persistência de um aparato burocrático que garante a impunidade dos crimes da ditadura e agrava as crises sociais contemporâneas
Escrito por MAURICIO VÁZQUEZ CORREA e ANDRÉS DEL RÍO*
Maio é o mês da memória no Uruguai. Há 31 anos, todo dia 20 do mês, as principais avenidas do país veem passar centenas de milhares de pessoas em busca de verdade e justiça. É o testemunho de um silêncio ensurdecedor que clama por saber o que aconteceu com os mais de duzentos desaparecidos nas mãos do Estado durante a última ditadura cívico-militar.[i] Os governos se sucedem, mas as respostas são poucas.
Em 2025, Yamandú Orsi assumiu a presidência do país, marcando o retorno ao poder da Frente Ampla, uma coalizão de centro-esquerda. Ele foi precedido na presidência por Luis Lacalle Pou, que liderou um bloco de centro-direita responsável pelo Executivo no último mandato. Os dois blocos divergem profundamente no discurso e na ação sobre a causa dos crimes de lesa-humanidade cometidos durante a ditadura. No entanto, há elementos corporativos e institucionais de fundo que, de um governo para outro, sustentam uma estrutura que preserva o silêncio e a impunidade.
O Estado no Uruguai funciona como um dispositivo de legitimação simbólica. A persistência de determinadas práticas estatais e mecanismos de proteção corporativa contribuem para sustentar uma imagem que muitas vezes entra em tensão com os fatos concretos.
O sistema político construiu uma reputação de respeito às instituições, que se reproduz de forma recorrente sob a ideia de “cuidar da institucionalidade”. Mas nesse jogo, parece pesar mais a institucionalidade militar e burocrática do que o que dita a justiça. Atualmente, 16 militares estão foragidos da justiça[ii] – com mandado de prisão internacional – por crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura (1973–1985). Mesmo assim, brechas administrativas permitem que o Estado continue pagando suas aposentadorias.
Um exemplo disso é que, recentemente, no Consulado do Uruguai em Miami, foi concedido um certificado de vida ao coronel da aviação aposentado Roberto Freddy Amorín Maciel.[iii] Esse trâmite permitiu que ele continuasse recebendo a aposentadoria. Amorín está foragido e é investigado pelo desaparecimento de José Arpino Vega e por ter praticado torturas na base aérea de Boiso Lanza, um centro militar que funcionou como um dos epicentros da infâmia e da repressão estatal durante a última ditadura.
Organizações da sociedade civil, como Mães e Familiares de Uruguaios Detidos e Desaparecidos (Familiares),[iv] vêm denunciando essa situação. Para Ignacio Errandonea, membro dessa organização, o caso de Amorín não é uma exceção, mas sim um sintoma. A organização também critica o fato de que, governo após governo, não existe uma política ativa do Estado para enfrentar a situação.[v]
Discursos, memória e legitimidade
Se as ações do Estado permitem observar os limites e as contradições das instituições uruguaias, os discursos presidenciais também disputam o terreno político e ideológico. Não se trata apenas de comunicações protocolares: as mensagens presidenciais, tanto perante o Parlamento quanto em organismos internacionais, fazem parte da construção simbólica do Estado. São intervenções estrategicamente elaboradas, nas quais a linguagem não apenas descreve a realidade, mas também define o que deve ser lembrado, o que pode ser omitido e quais são os marcos legítimos a partir dos quais se deve interpretar o passado e o presente.
Nesse sentido, a análise dos discursos oficiais proferidos entre 2020 e 2026 permite observar diferenças significativas entre os governos de Luis Lacalle Pou, e Yamandú Orsi, particularmente em torno dos direitos humanos, da memória e do legado da ditadura[vi]. Conceitos como “ditadura”, “desaparecidos”, “memória, verdade e justiça”, “liberdade” ou “direitos humanos” funcionam como indicadores de orientações ideológicas e de diferentes formas de compreender a democracia.
No plano interno, Lacalle Pou optou por uma narrativa centrada na gestão, na estabilidade e na segurança pública, relegando sistematicamente referências ligadas ao terrorismo de Estado ou às demandas históricas de memória e justiça. Lacalle Pou omitiu o termo “direitos humanos” em seus discursos internos perante o Parlamento, enquanto no âmbito internacional – especificamente nas Nações Unidas – ele aparecia reiteradamente associado a condenações contra governos como o da Venezuela. Os direitos humanos, sob essa lógica, pareciam constituir-se mais como uma ferramenta de política externa do que como uma dimensão problemática da própria história nacional.
Yamandú Orsi tentou construir um discurso de recuperação democrática associado às noções de memória, reparação e não repetição. Desde seu discurso de posse em 2025, que coincidiu com os quarenta anos ininterruptos de democracia, o presidente vinculou a legitimidade democrática à necessidade de enfrentar as dívidas históricas do Estado uruguaio. Ao contrário de seu antecessor, Yamandú Orsi tem incorporado constantemente referências aos direitos humanos tanto no plano interno quanto no externo, apresentando-os não apenas como uma bandeira diplomática, mas como componente constitutivo da democracia.
Essa orientação também se expressou em algumas iniciativas institucionais impulsionadas por seu governo. O governo apoiou publicamente atividades de memória, como a 31ª Marcha do Silêncio, e anunciou a reativação de mecanismos estatais ligados à busca pela verdade e pela justiça, entre eles a digitalização de arquivos históricos de inteligência e o fortalecimento da Secretaria de Direitos Humanos para o Passado Recente. O próprio governo insistiu na necessidade de remover obstáculos burocráticos e facilitar o acesso a arquivos militares para acelerar as investigações sobre desaparecimentos forçados e crimes da ditadura.[vii]
No entanto, as tensões persistem e mostram os limites dessa narrativa. Organizações como a Familiares apoiaram algumas dessas medidas, embora também tenham criticado sinais ambíguos emitidos pelo próprio presidente. Orsi se reuniu com representantes da Suprema Corte de Justiça para abordar a situação dos militares presos no centro de detenção de Domingo Arena, uma prisão exclusiva onde cumprem pena militares por violações dos direitos humanos. A organização de familiares criticou o encontro, considerando-o um privilégio injustificado para com os responsáveis pelo terrorismo de Estado.[viii] Mesmo dentro de setores historicamente próximos à Frente Ampla começaram a surgir questionamentos quanto ao lugar secundário que a agenda da memória ocupa entre as prioridades governamentais.
A persistência de estruturas burocráticas, corporativas e políticas herdadas, bem como de ações incongruentes, mostra até que ponto os limites da institucionalidade uruguaia continuam condicionando até mesmo governos que buscam construir a partir de uma narrativa diferente.
Direitos humanos, orçamentos e limites estruturais
As tensões entre discurso, institucionalidade e realidade social também se refletem no Relatório Anual 2025 da Anistia Internacional sobre o Uruguai.[ix] O documento apresenta um diagnóstico crítico sobre o estado atual do sistema de garantias dos direitos humanos, apontando um processo de desgaste institucional contínuo que afeta particularmente os setores mais vulneráveis da sociedade.
O relatório alerta para graves deficiências em áreas sensíveis como infância, sistema penitenciário, violência de gênero e saúde mental. Em matéria de proteção infantil, a Anistia Internacional aponta que, entre 2020 e 2025, foram registradas 114 mortes de crianças e adolescentes sob custódia do Estado, expondo profundas falhas estruturais nos mecanismos de cuidado e proteção pública. A isso se soma a persistência da violência de gênero e um sistema penitenciário marcado pela superlotação, pela superpopulação e pelas mortes sob custódia.
Nesse sentido, o Uruguai enfrenta um paradoxo significativo para a região latino-americana. O Uruguai atingiu um recorde histórico de população carcerária, com 16.496 pessoas privadas de liberdade, em dezembro de 2025. O número contrasta com a imagem internacional associada à estabilidade democrática e à sólida institucionalidade. Desde 2020, a população carcerária aumentou mais de 30%, colocando o Uruguai como o país com a maior taxa de encarceramento da América do Sul e entre os quinze com os maiores níveis de encarceramento do mundo.
O documento também chama a atenção para outro fenômeno crítico: a saúde mental. Segundo dados citados pela Organização Mundial da Saúde, o Uruguai apresenta a taxa de suicídio mais alta da América Latina, superando amplamente a média regional. Esse dado questiona a narrativa tradicionalmente associada ao “sucesso” institucional uruguaio e evidencia a crise social, o abandono da população e a deterioração das redes de apoio.
Por sua vez, o relatório aponta preocupações relacionadas a projetos de extração e ambientais, bem como dificuldades persistentes no acesso à informação pública e nas garantias para o pleno exercício da liberdade de imprensa. Esses elementos complexificam ainda mais a imagem de excepcionalidade democrática que historicamente o Uruguai projetou tanto em nível regional quanto internacional.
No que diz respeito à agenda de memória, verdade e justiça, a Anistia Internacional reconhece certos avanços durante o atual governo, particularmente na continuidade dos processos judiciais contra membros das forças de segurança envolvidos em crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura e na cooperação com investigações internacionais relacionadas ao Plano Condor. Nesse ponto, ressurge um contraste com a gestão de Luis Lacalle Pou, cuja narrativa política tendia a deslocar a agenda de direitos humanos para o plano exclusivamente internacional, evitando colocar no centro do debate as dívidas pendentes do próprio Estado uruguaio.
No entanto, o relatório também sustenta que persiste uma “impunidade estrutural” decorrente da falta de acesso pleno aos arquivos militares e da ausência de avanços substanciais na busca por detidos desaparecidos e nas garantias de não repetição.
Um dos aspectos mais críticos do documento refere-se ao plano orçamentário. A Anistia Internacional alerta que o orçamento nacional para 2025-2029 não aloca recursos suficientes para sustentar políticas públicas compatíveis com os compromissos assumidos em matéria de direitos humanos. Argumenta-se que os recursos continuam sendo insuficientes para garantir a aplicação efetiva de normativas integrais, como a Lei 19.580 sobre violência de gênero contra as mulheres.
Além disso, a falta de detalhes específicos no orçamento em áreas-chave, como o sistema penitenciário, os cuidados ou as políticas para a infância, limita a transparência do Estado e dificulta a avaliação do alcance real dos gastos públicos. A partir dessa perspectiva, o documento apresenta uma crítica que abrange tanto o atual governo quanto as administrações anteriores: a persistência de uma lacuna entre as declarações institucionais e a alocação efetiva de recursos.
Quando as violações se institucionalizam
As problemáticas acima mencionadas expõem um dos principais dilemas do Uruguai contemporâneo: a coexistência entre uma sólida legitimidade institucional e um conjunto de crises estruturais que continuam a corroer as garantias materiais e sociais dos direitos humanos. Essa distância entre a retórica dos princípios e as restrições factuais não se esgota nas fronteiras nacionais. As mesmas estruturas que condicionam o âmbito doméstico atuam como vetores na inserção global do país, transferindo a estratégia de moderação para o campo da diplomacia.
Nesse contexto e no plano internacional, partindo do status de princípios do país como um defensor de destaque dos princípios fundadores das Nações Unidas, é difícil não perceber uma tensão de fundo: um governo que evita reconhecer como genocídio o que ocorre atualmente contra o povo palestino[x] dificilmente poderá escapar completamente das contradições históricas que atravessam a agenda de memória, verdade e justiça dentro do próprio Estado que administra.
*Mauricio Vázquez Correa é doutorando em sociologia pela Universidade da República (UDELAR), Uruguai.
*Andrés del Río é professor de ciência política na Universidade Federal Fluminense (UFF).
Notas
[i] Recentemente, a Instituição Nacional de Direitos
Humanos do Uruguai atualizou o número de pessoas desaparecidas de 197 para 205,
após descobertas na Argentina e em El Salvador. Veja o link publicado no La
Diaria: https://bit.ly/4uiRT3w
[ii] Lista de fugitivos procurados pela justiça
uruguaia publicada em artigo do La Diaria: https://bit.ly/438fA2N
[iii] Denúncia feita pela organização civil Familiares
de Desaparecidos. Link: https://bit.ly/4v73umu
[iv] https://desaparecidos.org.uy/
[v] O promotor que vem conduzindo a investigação
sobre esses crimes declarou recentemente em uma entrevista que “existem
condutas ‘omissivas’ e até mesmo ‘obstruidoras’ de diferentes órgãos estatais
em relação a militares aposentados procurados por causas ligadas ao terrorismo
de Estado”. Publicado em Caras & Caretas, link disponível em: https://bit.ly/4wDY4Rv
[vi] A análise dos discursos centrou-se no discurso de
prestação de contas, em março, perante o Parlamento Nacional. A nível
internacional, o discurso em setembro perante a Assembleia Geral das Nações
Unidas
[vii] No âmbito do Mês da Memória, a Secretaria de
Direitos Humanos para o Passado Recente apresentou as principais diretrizes para
o período. Link: https://bit.ly/4x0UEZh
[viii] “Chamativo e indevido”: Familiares criticam
reunião de Orsi com o STF sobre a saúde dos repressores. Link: https://bit.ly/4nHOOHC
[ix] Relatório completo no link a seguir: https://bit.ly/4uqPC6k
[x] Artigo de Florencia Salgueiro publicado no
Semanário Brecha sobre este tema: https://bit.ly/4wJE5AM
[Imagem: Nikolai Kolosov/ Montevidéu/ Uruguai - fonte: www.aterraeredonda.com.br]

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