A instrumentalização do trauma histórico pelo sionismo e as implicações morais de um projeto de Estado fundamentado na violência institucional contra o povo palestino
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| Imagem: Mohammad Alizade |
Escrito por SAMUEL KILSZTAJN*
Não nos é dado saber de onde viemos, para onde vamos e, tampouco, onde estamos. Crenças e religiões consolidam a experiência humana, criando sentido, identidade e orientação moral. Na qualidade de ecumênico, minha crença é de que, estejamos onde estivermos, só nos resta fazer a coisa certa. E, certamente, causar sofrimento não o é. Embora não possamos evitar o nosso sofrimento, não devemos causá-lo deliberadamente ao próximo. Também não devemos reagir e justificar o nosso comportamento por ações alheias. Ser bom e correto para quem é bom e correto com você não é nenhum trunfo. Ser correto é agir de forma correta em qualquer situação. Causar sofrimento, vangloriar-se e refestelar com o sofrimento do outro é sinal de degradação moral.
Existem crimes classificados como culposos e crimes classificados como dolosos. Mas como poderíamos classificar um crime que passa pela alta hierarquia de juristas de uma nação, um crime institucionalizado como a pena de morte, a pena capital? Liev Tolstoy, em 1857, presenciou a cabeça de Français Richeux rolar em frente a 15 mil parisienses. Tolstoy já havia vivido os horrores da guerra no Cáucaso e na Crimeia, mas não conseguiu se recuperar do trauma de ver, no país de Descartes, a cabeça sendo separada do corpo de um homem por uma máquina engenhosa e elegante, decepado de forma fria, calma e instantaneamente. A partir desta experiência, Tolstoy passou a considerar que todo Estado era uma conspiração com vistas a corromper seus cidadãos e decidiu que não serviria mais a nenhum governo, em qualquer tempo e lugar.
Salomon Kilsztajn
Meus pais, sobreviventes que se submeteram à violência nazista, perderam 9 a cada 10 familiares, 9 a cada 10 conterrâneos que caminharam para o abate como ovelhas. A “Ficha Pessoal de Prisioneiro de Auschwitz” do irmão de meu pai, Salomon, registra uma profusão de informações como residência, profissão, religião, cidadania, estado civil, nome dos pais e da esposa com raça e endereço (in haft, detidos, ou seja, exterminados), número de filhos, escolaridade, altura, corporatura (schlank, esguio), forma do rosto, olhos, nariz, boca, orelhas, dentes, cabelos e idiomas falados.
Este número de detalhes ilustra a forma metódica que os alemães nazistas usavam para registrar prisioneiros que, em sua esmagadora maioria, sobreviveriam por três meses ao trabalho forçado. Os prisioneiros deviam ainda assinar a ficha, garantindo a veracidade das informações prestadas, sob a pena da lei. Traduzido literalmente, o documento assinado afirma que “eu fui informado de que poderei ser condenado por falsificação ideológica de documentos caso as informações acima fornecidas sejam comprovadas falsas”. A ideia de que os prisioneiros de Auschwitz poderiam ser condenados por falsificação ideológica é, no mínimo, grotesca.
Salomon sobreviveu a Auschwitz e às marchas da morte por ocasião de sua evacuação, mas pereceu em 20 de março de 1945, às vésperas da liberação do Campo de Concentração de Buchenwald, que hoje presta homenagem a seus mortos.
Am Israel Hai
O Povo de Israel Vive (עַם יִשְׂרָאֵל חַי) é utilizado como um grito de guerra por judeus e apoiadores de Israel em todo o mundo. Praticamente todos os judeus na Palestina, na diáspora e, sobretudo, os sobreviventes do Holocausto, foram levados a acreditar no engodo de que somente um Estado judeu poderia prevenir o antissemitismo e que a Palestina era uma terra sem povo para um povo sem terra – muito triste (e catastrófico). O sionismo, decididamente, capturou o judaísmo e se transformou oficialmente em sua nova identidade.
O Pesadelo judeu decorre hoje do Pesadelo palestino perpetrado pelo sionismo. Os sionistas, judeus e não judeus, que largamente utilizam e instrumentalizam o Holocausto para justificar o genocídio dos palestinos, empenham-se em monopolizar e criminalizar a menção do Holocausto pelos críticos às atrocidades cometidas pelo Estado de Israel. Os judeus lastimam-se do discurso de ódio e do atual crescimento mundial do antissemitismo, enquanto milhões de palestinos, além do discurso de ódio, seguem sendo concretamente vitimados e dezenas de milhares efetivamente exterminados pelos israelenses. Yakov Rabkin, autor de Judeus contra judeus, em entrevista a Pascal Lottaz, considerou que se é de esperar que “pessoas fiquem horrorizadas com o que Israel vem fazendo” – enquanto sinagogas e instituições judaicas ostentam bandeiras e defendem o Estado Judeu.
Encontro vários judeus que se lamentam de que o mundo inteiro é antissemita. Para tanto, fazem um milenar pastiche histórico, que começa com a mitológica narrativa de Moises no Egito, Nabucodonosor, os romanos, e segue com as expulsões na Europa ocidental, a Inquisição, os cossacos, os pogroms na Rússia czarista e na Guerra Civil após a Revolução de 1917, o Holocausto – para finalizar com Yasser Arafat e seus sanguinários correligionários.
Recebi um texto, escrito por um judeu liberal que se considera bem informado, afirmando que “fatos são ignorados e uma narrativa fantástica é criada para demonizar os judeus e o Estado de Israel. Mesmo a Cruz Vermelha Internacional distorce os acontecimentos para justificar a sua ajuda aos agressores, ao invés das verdadeiras vítimas. O mundo apoia o ataque bárbaro do Hamas contra civis em Israel. A mídia norte-americana e internacional aproveita a oportunidade para publicar histórias fictícias, fornecidas por fontes árabes, para ‘provar’ que o Estado Judeu é o agressor.”
Disputa de narrativas ou pura alienação? Os governos dos Estados Unidos e de vários países europeus, principalmente da Alemanha, ocupada em exorcizar o seu passado nazista, não só apoiam, como participam ativamente do ataque de Israel contra os palestinos. Por mais bélico que seja o exército israelense, o poderio militar norte-americano é considerado decisivo para a ofensiva em curso.
O parlamento israelense, em março de 2026, discutiu e aprovou medidas para ampliar o uso da pena de morte com vistas a atingir palestinos em julgamento por tribunais militares. A pena capital, regada a champanhe, foi amplamente festejada como um grande marco simbólico. Considere-se que o Estado de Israel, desde a sua criação, tem levado à morte dezenas de milhares de palestinos – “terroristas, incubadoras de terroristas, crianças ou bebês, projetos de terroristas e incubadoras” – sem nenhuma necessidade de encaminhar os réus ao seu poder judiciário.
*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de Salaam Aleikum, Palestina! [https://amzn.to/3Q3lP4M]
[Fonte: www.aterraeredonda.com.br]


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