O que há a saber de Cannes é simples: Palma de Ouro para o romano Cristian Mungiu, com Fjord, e o reconhecimento de Minotaur, do russo Andrey Zvyagintsev, com o Grande Prémio. E ainda com The Dreamed Adventure, da alemã Valeska Grisebach, a completar o pódio 2026 da 79ª edição do Festival de Cannes. Ou seja, um pleno do cinema europeu.
Tilda Swinton (fez a entrega do prémio) com a atriz norueguesa Renate Reinsve, o realizador Cristian Mungiu e o ator estadunidense Sebastian Stan. Foto do Festival de Cannes.
Escrito por Paulo Portugal
É esta a paisagem, assim vista à distância, do mais importante festival de
cinema do mundo. Inevitavelmente, a configurar a fotografia do ‘aqui e agora’
do cinema do mundo em que vivemos, agora definida pela premiação do júri
liderado pelo coreano Park Chan-wook (o realizador de Oldboy). Ou seja, a
realidade nua e crua que raramente confirma as expectativas e que tanta tinta
digital fez correr durante os meses que antecedem esta fenomenal feira do
cinema. E como os prémios raramente confirmam as tendências formadas pela
crítica internacional presente, não admira que tenham sido goradas algumas
expectativas criadas em redor de, por exemplo, Paper Tiger, de
James Gray (tal como a outra entrada americana, The Man I Love, de
Ira Sachs), e da sexta participação gorada de Pedro Almodóvar, a concurso em
Cannes, com Amarga
Navidad.
Seja como for, a Palma
de Ouro para Fjord não
deixa de ser uma conquista significativa para o cinema poderoso do realizador
romeno, vencedor da Palma de Ouro, quase duas décadas depois (foi em 2007), 4 Meses, 3 Semanas e 2
Dias, na altura, colocando no mapa a nova vanguarda do cinema romeno que
haveria de afirmar um realismo potente e visualmente vibrante. Ele que agora
explora as complexidades perante do sistema social de uma família romena
disfuncional a viver na Noruega. Ele que revelou uma assinalável modéstia ao
relativizar o prémio, argumentando que “teremos de esperar talvez 10 ou 20 anos
para perceber se estes filmes eram realmente bons e conseguiram resistir ao
teste do tempo.
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Minotaur, de Andrey Zvyagintsev, vence Grande Prémio |
Neste palmarés (que foi totalmente europeu),
o prémio de Melhor Realizador seria dividido entre visões históricas distintas:
de um lado, a evocação política do pós-guerra, pelo polaco Pawel Pawlikowski,
no muito bem recebido, Fatherland,
e a dupla espanhola Javier Calva e Javier Ambrossi, na revisão de vidas queer ao
longo da história espanhola, em La Bola Negra.
Mesmo à distância, nota-se certa
familiaridade, como se o palmarés revelasse algo que está no seu próprio ADN –
ou seja, auscultar a pulsação do cinema do mundo num dado momento pelos títulos
a concurso à Palma de Ouro. Recentrado até por uma realidade fria acentuando
expectativas de cineastas e obras que estavam fora de cogitação. Enfim, tudo
isto vale o que vale. Mas se algo ficou por provar, pelo menos no capítulo das
ansiedades e das expectativas criadas pela imprensa internacional, foi talvez a
ausência nos prémios do tão ansiado Paper Tiger, de James Gray (como o outro
americano, The
Man I Love, de Ira Sachs), mas também certa amargura pela sexta
participação gorada de Pedro Almodóvar, a concurso em Cannes, com Amarga Navidad.
No fundo, a escolha do júri sublinha a
globalização do cinema. Onde tanto Fjord, como Minotaur, mas
também The
Dreamed Adventure – e até Fatherland e All of a Sudden –
abraçam essa ausência de rigidez geográfica num deslocamento que sugere uma
fertilidade de ligações, entre países, cultura e identidade.
[Fonte: www. insider.pt]


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