quarta-feira, 27 de maio de 2026

Fjord e Minotaur vivem o sonho aventureiro do cinema europeu

O que há a saber de Cannes é simples: Palma de Ouro para o romano Cristian Mungiu, com Fjord, e o reconhecimento de Minotaur, do russo Andrey Zvyagintsev, com o Grande Prémio. E ainda com The Dreamed Adventure, da alemã Valeska Grisebach, a completar o pódio 2026 da 79ª edição do Festival de Cannes. Ou seja, um pleno do cinema europeu.

Tilda Swinton (fez a entrega do prémio) com a atriz norueguesa Renate Reinsve, o realizador Cristian Mungiu e o ator estadunidense Sebastian Stan. Foto do Festival de Cannes.

Escrito por Paulo Portugal

É esta a paisagem, assim vista à distância, do mais importante festival de cinema do mundo. Inevitavelmente, a configurar a fotografia do ‘aqui e agora’ do cinema do mundo em que vivemos, agora definida pela premiação do júri liderado pelo coreano Park Chan-wook (o realizador de Oldboy). Ou seja, a realidade nua e crua que raramente confirma as expectativas e que tanta tinta digital fez correr durante os meses que antecedem esta fenomenal feira do cinema. E como os prémios raramente confirmam as tendências formadas pela crítica internacional presente, não admira que tenham sido goradas algumas expectativas criadas em redor de, por exemplo, Paper Tiger, de James Gray (tal como a outra entrada americana, The Man I Love, de Ira Sachs), e da sexta participação gorada de Pedro Almodóvar, a concurso em Cannes, com Amarga Navidad.

Seja como for, a Palma de Ouro para Fjord não deixa de ser uma conquista significativa para o cinema poderoso do realizador romeno, vencedor da Palma de Ouro, quase duas décadas depois (foi em 2007), 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, na altura, colocando no mapa a nova vanguarda do cinema romeno que haveria de afirmar um realismo potente e visualmente vibrante. Ele que agora explora as complexidades perante do sistema social de uma família romena disfuncional a viver na Noruega. Ele que revelou uma assinalável modéstia ao relativizar o prémio, argumentando que “teremos de esperar talvez 10 ou 20 anos para perceber se estes filmes eram realmente bons e conseguiram resistir ao teste do tempo.

Minotaur, de Andrey Zvyagintsev, vence Grande Prémio

Como se esperava, esta foi uma edição marcada pelo carimbo político (porque o cinema é também político), com o júri a eleger para o Grande Prémio o thriller psicológico de Andrey Zvyagintsev (Minotaur). O cineasta de Leviatã (2014), atualmente exilado em França, elabora uma mensagem anti-Putin à atual paisagem sociopolítica russa. Neste regresso ao ativo, nove anos depois, elabora um filme considerado por muitos como um neo-noir, a partir da atualização do thriller erótico de 1969, de Claude Chabrol, A Mulher Infiel, embora localizado na Rússia nas vésperas da invasão da Ucrânia, ainda que rodado na Letónia por razões óbvias.

Neste palmarés (que foi totalmente europeu), o prémio de Melhor Realizador seria dividido entre visões históricas distintas: de um lado, a evocação política do pós-guerra, pelo polaco Pawel Pawlikowski, no muito bem recebido, Fatherland, e a dupla espanhola Javier Calva e Javier Ambrossi, na revisão de vidas queer ao longo da história espanhola, em La Bola Negra.

Mesmo à distância, nota-se certa familiaridade, como se o palmarés revelasse algo que está no seu próprio ADN – ou seja, auscultar a pulsação do cinema do mundo num dado momento pelos títulos a concurso à Palma de Ouro. Recentrado até por uma realidade fria acentuando expectativas de cineastas e obras que estavam fora de cogitação. Enfim, tudo isto vale o que vale. Mas se algo ficou por provar, pelo menos no capítulo das ansiedades e das expectativas criadas pela imprensa internacional, foi talvez a ausência nos prémios do tão ansiado Paper Tiger, de James Gray (como o outro americano, The Man I Love, de Ira Sachs), mas também certa amargura pela sexta participação gorada de Pedro Almodóvar, a concurso em Cannes, com Amarga Navidad.

No fundo, a escolha do júri sublinha a globalização do cinema. Onde tanto Fjord, como Minotaur, mas também The Dreamed Adventure – e até Fatherland e All of a Sudden – abraçam essa ausência de rigidez geográfica num deslocamento que sugere uma fertilidade de ligações, entre países, cultura e identidade.

[Fonte: www. insider.pt]


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