Primeira protagonista fora da política da pré-campanha é uma idosa negra que critica o governo e a esquerda nas redes sociais. O problema é que ela é um perfil de IA.
Escrito por João Almeida Moreira
Com aproximadamente 800 mil seguidores, mais de 100
milhões de visualizações acumuladas no Instagram e 22,5 mil interações por
publicação, a Dona Maria, cidadã idosa e negra que se tornou famosa no Brasil
com opiniões políticas radicais de direita, tem condições para influenciar a
campanha eleitoral. Pelo menos é o que pensa o Partido dos Trabalhadores (PT),
do presidente Lula da Silva, e demais formações de esquerda que a pretendem
calar até porque ela não existe – é um perfil criado por inteligência artificial
(IA).
Na semana passada, a Federação Brasil da Esperança,
que reúne o Partido Verde, o Partido Comunista do Brasil e o PT, apresentou
uma queixa ao Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) a pedir “a suspensão e a indisponibilização” de perfis
sob o nome “Dona Maria” nas redes Instagram, TikTok, Facebook, X e Youtube. Na
queixa, os partidos de esquerda alegam que, embora o perfil anónimo tenha
mencionado num primeiro vídeo que não se tratava de uma pessoa real, nas
publicações seguintes a informação foi-se diluindo e o conteúdo pode, por isso,
confundir-se com o de uma pessoa verdadeira. “Trata-se claramente de ferramenta
política”, conclui o documento enviado ao TSE.
Uma publicação de Dona Maria, ainda em julho de
2025, quando Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, decidiu aumentar as
tarifas sobre importações brasileiras, foi das mais vistas. “Eu já estou
revoltada com essa porra, Brasil”, disparou Dona Maria. “E o molusco
[referência a Lula] está calado. Agora que o povo está levando no rabo com a
taxa gringa [estrangeira] ele está calado igual a siri na lata”. “Cadê panela
batendo, cadê o grito, cadê a revolta? Ou todo o mundo virou planta? Porque eu tô aqui
gritando e só escuto o vento e a taxa vindo”, prosseguiu a personagem criada
pelo Gemini, a plataforma de IA do Google. Mais tarde, Lula criticou Trump
pelas taxas e o Planalto conseguiu chegar a acordo com a Casa Branca para
redução das taxas.
Segundo análise da startup Zeeng só
essa publicação da Dona Maria teve mais interações do que as páginas do
pré-candidato à presidência Ronaldo Caiado (Partido Social Democrático), o
terceiro classificado nos institutos de sondagens, atrás apenas de Lula e de
Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, candidato de extrema-direita que Dona
Maria ainda não apoiou explicitamente. “Mas entre Lula e ele faria campanha de
graça para o segundo”, disse Daniel dos Santos, o criador da página, que é um
motorista de plataforma de 37 anos da cidade de Magé, no Rio de Janeiro, à BBC
Brasil e vê no sucesso do personagem uma forma de aumentar os rendimentos.
Esse, aliás, é mais um ponto na queixa da
esquerda. “O perfil aparece
oferecendo parcerias para divulgação de empresas ou outros canais e anunciando
cursos sobre inteligência artificial e automação para Instagram”, o que,
segundo os partidos, “reforça o caráter comercial e político” do avatar. Além
disso, “divulga informações falsas e descontextualizadas, incluindo dados
inexatos sobre [a plataforma de pagamento] PIX, frases atribuídas de forma
distorcida ao presidente e conteúdos diretamente voltados contra o ministro
Guilherme Boulos, da Secretaria‑Geral da Presidência”.
Desafios
O TSE admite que, com a IA barata e acessível, as
eleições de 2026 serão ainda mais desafiadoras do que as de 2022. Sobre o caso
específico da Dona Maria, numa primeira análise membros da corte, ouvidos pelo
portal G1, avaliam que a situação pode configurar o delito de "campanha
antecipada", passível de multas, mas que não há indícios de "uso
irregular" da ferramenta.
Por agora, as
regras mencionam que todo o conteúdo produzido, seja de áudio, vídeo ou texto,
deve estar claramente identificado como produzido por IA, que plataformas não
podem sugerir candidatos, emitir opiniões, indicar preferência eleitoral,
recomendar voto ou realizar qualquer favorecimento ou desfavorecimento político
eleitoral a candidatos.
“O uso de IA para criar personagens, vídeos
simulados e campanhas de alto alcance já entrou no radar das autoridades, a
discussão daqui para a frente será definir até que ponto a tecnologia
representa manipulação milícia ou apenas linguagem do marketing político”,
escreveu Robson Bonin, colunista da revista Veja.
Mas para já a queixa da esquerda ao TSE “caiu mal
para o governo Lula”, diz ainda Bonin, “porque reforça a narrativa da direita
de que o PT pratica censura”. “Porque”, conclui, “ainda que mentiras devam ser
combatidas, o ambiente político pressupõe espaço para crítica e guerra de
versões”.
Daniel dos Santos usa um bordão de Dona Maria – “o
pobre não tem um dia de paz” – para reagir à queixa do PT e aliados. “Que
descontrole é esse por uma simples página? A véia mal liga a
câmera e já aparece partido, denúncia, pedido ao TSE e reunião de emergência,
daqui a pouco vão culpar a Dona Maria pelo trânsito, pela chuva, pelo preço do
café…"
[Fonte: www.dn.pt]

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