Escrito por Fernando Alves
O infatigável investigador folheia, para nosso
deleite, livros como "As Freiras do Lorvão", de Tomaz Lino
d'Assumpção, revelando-nos os dias longínquos em que as crianças entravam na venda
e "a troco de palitos levavam bacalhau, assucar (ainda grafado com dois esses), arroz, café, petróleo, azeite, vinho, borôa, phosphoros (com pe-agá) ou
papel de cor". O palito era, nesses dias, a moeda corrente. Esse esplendor
terá levado Leite de Vasconcelos a catar quadras da boca dos de Lorvão
("Adeus, lugar de Lorvão, / ó terra dos paliteiros,/ a fazer dois
palitinhos / se ganham muitos dinheiros"). Ao fim de aturada investigação,
Paulo Moreiras partilha os tesouros que foi reunindo, deixando claro por que é
que os palitos eram tão caros ao poeta Marcial ou por que é que as favas,
pretas e brancas, foram utilizadas desde o tempo dos gregos em processos de
votação. Tal escrutínio secreto chegou a ser usado em Portugal e obteve os bons
auspícios de reis como D. João III. Para muitos, por razões que justificariam
intermináveis investigações, os processos eleitorais foram, demasiadas vezes,
favas contadas.
Paulo Moreiras merece juntar vastos cabedais com esta empreitada
que, delicadamente, embrulha com o rótulo "Curiosidades da Gastronomia Portuguesa", sabendo que nos dá delicioso pitéu literário. Ele prefere a
expressão "antigualhas". Eu contraponho que estamos perante uma
apetitosa edição empratada pela Casa das Letras, sob os auspícios editoriais de
Maria do Rosário Pedreira e projecto gráfico de Maria Manuel Lacerda. É este
livro tão saboroso dedicado a Ana Paula Guimarães e esse é um gesto que muito
enobrece o autor, a quem a fundadora do IELT encomendara há anos sucessivos e
cativantes livrinhos com os quais Moreiras ensaiou o BI da Cereja e da Ginja,
do Palito, do Tremoço, da Perdiz, da Morcela e da Fava, bem como da Rede de Dormir.
Lendo, aprendendo e sorrindo com este livro, cresceu a vontade
de virar uma ginja ou de roer uns tremoços com o autor, celebrando festivamente
este vício do conhecimento e da sua partilha.
Chegados a páginas tantas, passada a interminável toponímia da
fava, teríamos de esconjurar o safado do Pitágoras, que proibiu a leguminosa
porque ela provocava a luxúria. Nas contas do grego, a fava engendrava
ventosidades, causava "sonhos terríveis e espantosos, irritava a
sensualidade da carne e era de difícil digestão, entre muitas outras más
qualidades". Temos de agradecer a Aristóteles a revelação desta censura
dos paladares. A Aristóteles e a Paulo Moreiras. O Pitágoras que vá à fava.
[Fonte: www.tsf.pt/sinais]

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