sexta-feira, 17 de abril de 2026

Viçosas antigualhas

Escrito por Fernando Alves

Já lá vão uns anos bem contados, meti-me aos caminhos procurando Lorvão, a memória dos beneditinos e a magnífica doçaria conventual. Encontrei tudo isso e também utentes do velho hospício psiquiátrico vagueando pelas ruas e alguns poucos antigos trabalhadores da indústria dos palitos. Os números que então me foram revelados a respeito da outrora fulgurante ocupação desses recantos aprazíveis dos vales de Penacova são surpreendentes. Mas a minha surpresa a respeito dos palitos, agora que folheio o recém-chegado livro de Paulo Moreiras, "Do Palito à Perdiz: sobre a mesa muito se diz", ganha a escala da boca aberta. É que o autor escarafuncha todos os recantos de um saber perdido, aquém e além do Lorvão, lugar fabuloso que - ele o recorda, citando o etnógrafo José Leite de Vasconcelos - ficou conhecido como "a capital do palito".

O infatigável investigador folheia, para nosso deleite, livros como "As Freiras do Lorvão", de Tomaz Lino d'Assumpção, revelando-nos os dias longínquos em que as crianças entravam na venda e "a troco de palitos levavam bacalhau, assucar (ainda grafado com dois esses), arroz, café, petróleo, azeite, vinho, borôa, phosphoros (com pe-agá) ou papel de cor". O palito era, nesses dias, a moeda corrente. Esse esplendor terá levado Leite de Vasconcelos a catar quadras da boca dos de Lorvão ("Adeus, lugar de Lorvão, / ó terra dos paliteiros,/ a fazer dois palitinhos / se ganham muitos dinheiros"). Ao fim de aturada investigação, Paulo Moreiras partilha os tesouros que foi reunindo, deixando claro por que é que os palitos eram tão caros ao poeta Marcial ou por que é que as favas, pretas e brancas, foram utilizadas desde o tempo dos gregos em processos de votação. Tal escrutínio secreto chegou a ser usado em Portugal e obteve os bons auspícios de reis como D. João III. Para muitos, por razões que justificariam intermináveis investigações, os processos eleitorais foram, demasiadas vezes, favas contadas.

Paulo Moreiras merece juntar vastos cabedais com esta empreitada que, delicadamente, embrulha com o rótulo "Curiosidades da Gastronomia Portuguesa", sabendo que nos dá delicioso pitéu literário. Ele prefere a expressão "antigualhas". Eu contraponho que estamos perante uma apetitosa edição empratada pela Casa das Letras, sob os auspícios editoriais de Maria do Rosário Pedreira e projecto gráfico de Maria Manuel Lacerda. É este livro tão saboroso dedicado a Ana Paula Guimarães e esse é um gesto que muito enobrece o autor, a quem a fundadora do IELT encomendara há anos sucessivos e cativantes livrinhos com os quais Moreiras ensaiou o BI da Cereja e da Ginja, do Palito, do Tremoço, da Perdiz, da Morcela e da Fava, bem como da Rede de Dormir.

Lendo, aprendendo e sorrindo com este livro, cresceu a vontade de virar uma ginja ou de roer uns tremoços com o autor, celebrando festivamente este vício do conhecimento e da sua partilha.

Chegados a páginas tantas, passada a interminável toponímia da fava, teríamos de esconjurar o safado do Pitágoras, que proibiu a leguminosa porque ela provocava a luxúria. Nas contas do grego, a fava engendrava ventosidades, causava "sonhos terríveis e espantosos, irritava a sensualidade da carne e era de difícil digestão, entre muitas outras más qualidades". Temos de agradecer a Aristóteles a revelação desta censura dos paladares. A Aristóteles e a Paulo Moreiras. O Pitágoras que vá à fava.

[Fonte: www.tsf.pt/sinais]



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