Comunicação de Fernando Rosas ao X Encontro da
Associação Portuguesa de Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica, dedicado ao
tema "A Erosão do Humano"
por Fernando Rosas
Agradeço o convite ao Dr. Mário Horta e à Associação Portuguesa de
Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica. Saúdo os meus companheiros de mesa,
bem como todas e todos presentes e participantes.
Permitam-me uma breve explicação prévia. Como certamente saberão, não sou versado, muito menos especializado,
nas matérias e nas abordagens que vos convocam a este Encontro da Associação
Portuguesa de Psicanálise. Sou um historiador da época contemporânea e
seguramente um cidadão cívica e politicamente empenhado relativamente aos
inquietantes desafios do tempo presente. É a esse título que aqui estou, com a
pretensão de emprestar um testemunho algo exterior ao vosso objeto central de
estudo, mas que eventualmente o possa completar. Não sei falar sobre aquilo que
não se vê na aparência física da mente, mas da realidade que seguramente
condiciona e visibiliza a invisibilidade talvez possa dizer alguma coisa.
Nesse sentido, começarei por dizer
que não vale a pena dourar a pílula. Vivemos nos dias de hoje globalmente um
tempo sombrio, percorrido por um halo de morte, de guerra, de agressão,
carregado de presságios apocalípticos para o futuro da paz justa entre os
povos, da democracia e da justiça social. Chamar-lhe-ei o tempo da necropolítica,
da política da morte, tempo de ameaça de regressão civilizacional sem
precedentes desde o fim da II Guerra Mundial. Vejo nele quatro características
dominantes, entre outras.
Em primeiro lugar, o regresso impune
da barbárie imperial e genocida; o império da lei do mais forte nas relações
internacionais sobre a moral e o direito; a agressão, a chantagem, a ameaça, a
arrogância desbragadas e campeando sem limite perante o silêncio cúmplice ou a
cobardia política dos demais suseranos do mundo dos impérios.
Em segundo lugar, essa cavalgada pelo
mundo fora de uma nova extrema direita fascizante, apoiada na soberba
ingerência do trumpismo, cavalgando demagogicamente o desespero, o medo ou a
zanga dos que se sentem abandonados pelos impasses, os erros e as impotências
da crise profunda e prolongada dos sistemas liberais do ocidente. A ameaça de
um novo tipo de regime fascistizado instrumentalizando o descontentamento de
largos setores empobrecidos das classes intermédias ou de camadas
crescentemente precarizadas do mundo do trabalho é a outra face da mesma moeda
das guerras imperiais e da necropolítica. É o grande desafio da nossa idade.
Saber se as opiniões públicas e os povos lhe conseguem fazer face é uma
questão, se quiserem, é a questão em aberto dos dias de hoje.
Em terceiro lugar, como elemento novo essencial relativamente à época do
fascismo paradigmático do século passado, temos o controlo da revolução
tecnológica e informática por uma tecnoligarquia industrial e financeira que
reinventou novas formas de domínio e de intoxicação através da manipulação
algorítmica das redes sociais. Um novo tipo de totalitarismo tendencial que
tanta semeia a abolia e a sujeição, como explora sem escrúpulos os instintos
primitivos de tanta gente perdida ou marginalizada nesta crise sem fim do
capitalismo tardio.
Finalmente, referirei o fenómeno da
produção social da indiferença que acompanha permanentemente tudo o resto,
mais, que atapeta o terreno onde todas as formas de violência se podem exercer.
Criar a indiferença moral, tentar comparar o incomparável, abafar cultural e
ideologicamente a indignação contra a matança ou contra a ilegalidade da nova
política das canhoneiras, contra o racismo e todas as formas de descriminação
racial ou de género, é normalizar o regresso à barbárie. É mergulhar as
sociedades nessa espécie de atordoamento difuso e impotente que subverte
comportamentos individuais e coletivos que banaliza ou até justifica o
impensável e o inaceitável à luz de uma ética democrática e de respeito pelos direitos
fundamentais.
Mas para os muitos que resistem e
fazem questão de enfrentar e derrotar esse mundo fantasmático dos infernos de
Dante que parece ressuscitar é talvez preciso, penso eu, despertar novos
engenhos e arte.
É preciso entender que a salvaguarda
da democracia social e política nestes tempos de vésperas e de ameaças só se
pode opor com sucesso aos “traficantes da perversão” acho que por dois
caminhos. Por um lado, confiando sobretudo na força dos povos e de uma opinião
publica disposta a dar tudo por tudo na defesa dos seus direitos contra o
obscurantismo e a opressão. Como já acontece com sacrifícios inauditos na
Cijordânia, em Gaza ou no Líbano, mas também, como vimos recentemente, em
tantas cidades dos Estados Unidos.
Por outro lado, reinventando,
aprofundando e transformando a democracia de forma a poder superar a crise
sistémica do liberalismo tanto na sua expressão político-institucional, como no
tocante à crise económica estrutural do capitalismo tardio. Essa crise existe
como pano de fundo, ainda que não caiba aqui abordá-la em detalhe. Deixa atrás
de si um rasto de empobrecimento, de degradação das condições de vida, de
precarização, de marginalização que a mera gestão governativa do capitalismo
neoliberal nessa espécie de reedição tardia do rotativismo oitocentista se tem
mostrado incapaz de superar. É precisamente aí que se alimentam os traficantes
da demagogia, da manipulação e da mentira. Da perversão ideológica e política,
da exploração do medo e da raiva para perpetuar agravadamente a dominação dos
mais pobres.
Quero com isto dizer que, na minha
maneira de ver, salvaguardar a democracia há-de ser transformá-la e
aprofundá-la democraticamente tanto no domínio político-institucional como na
vertente económico-social. E há-de ser, seguramente, a ousadia de não baixar os
braços quando tudo parece mais difícil, de remar contra a corrente, de não
temer, em certas esquinas da História, estar em minoria, pois é ela que nos
mostra que, muitas vezes, as minorias têm razão e quando porfiam transformam-se
em maiorias.
[Foto de Gabriela Carvalho - fonte: www.esquerda.net]

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