A iniciativa de cidadania europeia para pôr fim ao acordo de associação entre a União Europeia e Israel já reúne mais de 500 mil assinaturas. Em entrevista ao Esquerda.net, Catarina Martins fala sobre a necessidade concreta de pôr fim a esse acordo.

Catarina Martins no Parlamento Europeu
Catarina Martins é eurodeputada do Bloco de
Esquerda e copresidente da Aliança da Esquerda Europeia, partido europeu que
lançou uma Iniciativa de Cidadania Europeia para pôr fim ao Acordo de
Associação entre a União Europeia e Israel. Ao Esquerda.net, fala sobre o
falhanço da suspensão parcial do acordo e da necessidade de uma política
externa para a decência.
Assina aqui a Iniciativa de Cidadania Europeia.
Como avalias o
posicionamento da Comissão Europeia face ao genocídio na Palestina?
A Comissão Europeia apoiou por completo e continua
a apoiar o genocídio de Gaza, em total violação do direito internacional e
continua a financiar e armar Israel. Do ponto de vista diplomático fez ligeiras
referências aos direitos humanos, normalmente invertendo as responsabilidades,
numa flagrante contradição com a clareza da sua posição sobre a Ucrânia.
A UE já tinha
anunciado a suspensão parcial do Acordo de Associação entre a UE e Israel. O
que é que ainda resta desse acordo?
Neste momento, resta tudo. A Comissão propôs uma
suspensão parcial que ainda não foi aprovada em Conselho. A proposta da Comissão iria suspender até 2027 algumas das condições do acordo, nomeadamente
ao nível do tratamento preferencial de exportações de Israel e algumas
parcerias, nomeadamente em áreas de investigação com usos híbridos.
Como é que a
Iniciativa de Cidadania Europeia vai mais longe?
A suspensão total do acordo de associação entre a
União Europeia e Israel é o mínimo da decência. E como disse, esse mínimo está
muito longe de ser alcançado. Vários Estados-membros da União Europeia e a
própria comissão aproveitaram o cessar-fogo para colocar a proposta da
suspensão parcial em águas de bacalhau. E como sabemos, Israel viola o cessar-fogo todos os dias, desde que o mesmo foi assinado. A iniciativa da cidadania
europeia é um combate contra a hipocrisia e um instrumento de luta contra o
esquecimento da Palestina.
A União Europeia tem
um histórico de corte de relações económicas com países que não cumprem o
direito internacional. Como vês esta incoerência face a Israel?
Na realidade, o histórico da União Europeia é todo ele bastante
contraditório. Sem ir mais longe, basta ver a continuidade das relações
económicas com os Estados Unidos, apesar das inúmeras violações do direito
internacional em que estes incorreram ao longo das últimas décadas. No entanto,
a passividade perante o genocídio de Gaza leva a inconsistência europeia a um
novo nível e vai ter impactos graves e duradouros na sua credibilidade perante
o mundo.
Como é que a
suspensão total do Acordo de Associação pressiona Israel a acabar com o
genocídio?
A suspensão do acordo da associação tem impactos significativos sobre a
economia de Israel, alguns imediatos, alguns a prazo. No entanto, o mais importante
é mesmo o impacto simbólico e diplomático dessa decisão. Há ainda uma dimensão
legal: cada dia que passa sem que a União Europeia suspenda o acordo da
associação com Israel é um mais um dia em que a União Europeia está, para todos
os efeitos práticos, a apoiar o genocídio de Gaza.
Para além da
suspensão do Acordo, a UE deve ir mais longe na condenação do genocídio na
Palestina?
Na realidade, suspender o acordo da associação é necessário, mas não
suficiente para que a União Europeia abandone a atual posição de cumplicidade.
O adequado seria tomar em relação a Israel o tipo de medidas que já tomámos em
relação à Rússia, por causa da agressão à Ucrânia.
E Portugal, em
particular, pode desempenhar algum papel de pressão externa a Israel?
Muitas das medidas que discutimos para a escala europeia podem ser
tomadas por Portugal, no exercício da sua própria soberania. Mesmo em algumas
áreas de competência comunitária, como por exemplo as relações comerciais,
Portugal pode e deve proibir quaisquer relações comerciais que possam
constituir um apoio ao genocídio de Gaza. Tem para isso a proteção do direito
internacional, que responsabiliza, e bem, países que contribuam de alguma forma
para a concretização de violações dos direitos humanos e do direito internacional.
[Foto: The Left - fonte: www.esquerda.net]
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