A primeira visita a Lisboa foi em 1964, em pleno salazarismo, e desde então Kenneth Maxwell tem estudado Portugal, escrevendo sobre o Marquês de Pombal ou o 25 de Abril, também sobre o Império Português. O Brasil é outro dos interesses do grande historiador britânico. Publicou agora mais três livros, entre eles 'Perspectives on Portuguese History'.
Escrito por Leonídio Paulo
Ferreira
Acaba de publicar três novos livros. Um deles intitula-se Perspetivas sobre a História Portuguesa. Como é que um inglês se interessou por um pequeno país isolado pela ditadura salazarista na década de 1960?
O professor Sir Harry Hinsley incentivou-me a “olhar para sul”,
mas eu precisava de aprender espanhol e português para isso. Estive seis meses
em Madrid, na universidade local, e depois planeei seis meses em Lisboa. Tanto
a Espanha como Portugal estavam muito isolados na época. Espanha, em
consequência da ditadura de Franco após a Guerra Civil, e Portugal, sob o
regime de Salazar. O livro sobre Perspetivas é em inglês e
português, e começa com um ensaio escrito em outubro de 1964 com as minhas
observações sobre Portugal uma década antes dos acontecimentos de 1974.
Recorda-se dessa sua primeira visita a Portugal?
Cheguei a Lisboa no comboio noturno Lusitânia Expresso, vindo de
Madrid, em 1964. Pretendia aprender português, mas isso foi muito difícil
porque ninguém falava comigo! Portugal era, na altura, muito mais fechado do
que a Espanha, e o poder da PIDE e dos informadores estava em todo o lado. E um
estudante inglês não era alguém com quem alguém quisesse conversar. Por fim,
publiquei um anúncio no Diário de Notícias procurando uma troca de experiências
com um estudante português, para ver se funcionava. E recebi então um convite
inesperado para visitar a Fundação Gulbenkian, então em instalações
temporárias, onde o Dr. Monteiro, diretor de serviços internacionais, me
ofereceu apoio durante cinco meses na minha estadia em Portugal. O que foi
muito bem-vindo, uma vez que estava praticamente sem dinheiro na altura e os
ganhos como colunista de um jornal de província inglês rendiam-me apenas cinco
libras e cinco xelins...
Salazar morreu em 1970, mas o regime sobreviveu até 1974. A
Revolução foi uma surpresa para si enquanto historiador?
Não, não foi uma surpresa. Quando o general Spínola publicou o seu
livro Portugal
e o Futuro, pensei que algo de importante tinha acontecido. Eu
estava no Instituto de Estudos Avançados de Princeton na altura, quando Robert
Silvers, o editor da New York Review of Books, me
enviou a Portugal para saber o que se passava, o que fiz. Passei algum tempo em
Londres a caminho, analisando tudo. A cobertura da imprensa internacional sobre
Portugal, presente na então maravilhosa coleção de recortes da Biblioteca de
Londres, dada a conhecer por um amigo que era editor da revista The Economist.
Em Lisboa, conheci muitas pessoas, e um dos meus amigos mais próximos, de 1964,
era um oficial miliciano com base em Lisboa...
Também escreveu há alguns anos um livro sobre a construção da
democracia portuguesa. Mário Soares foi decisivo no confronto com os comunistas
e na obtenção do apoio dos Estados Unidos? Soares é o pai da nossa democracia?
É mais complexo. O papel fundamental em 1975 foi desempenhado por
Frank Carlucci, que era o embaixador americano, e pelo seu adjunto, Herb Okun.
Ambos falavam português e ambos tinham servido no Brasil. O seu papel,
sobretudo o de Carlucci, foi absolutamente crucial para contrariar Henry
Kissinger em Washington, que queria fazer de Portugal um exemplo de como
impedir a propagação da ameaça comunista no sul da Europa. E o general Spínola
conspirava para invadir Portugal pelo norte de Espanha, com o seu
quartel-general em Salamanca. Mas, crucialmente, os EUA não o apoiaram e o
próprio Brasil sob o comando do general Geisel também não o apoiou. E naquele
momento, Mário Soares mostrou-se muito mais resiliente do que até os seus
amigos esperavam. Mas o papel dos militares foi crucial, e especialmente o
papel de Ramalho Eanes e Melo Antunes foi fundamental naquele momento.
Kenneth Maxwell tem ainda boas memórias da descoberta
de Portugal em 1964, e guarda o anúncio que publicou no DN, o postal do Rossio
enviado para a família, que depois o visitou. Entre os seus livros está 'A
Construção da Democracia em Portugal'. Tem agora mais três livros e a História
de Portugal, tal como a do Brasil, continuam entre os seus grandes interesses
como historiador.
Outro livro lançado recentemente, Uma história de três cidades, fala sobre a reconstrução de Lisboa, Londres e Paris. O que se fez em Portugal após o terramoto de 1755 é um acontecimento raro na história?
Sim, foi. O papel de Pombal foi crucial. Detinha praticamente o
poder absoluto após o terramoto e foi em grande parte responsável pela cidade
planeada em que Lisboa se tornou depois, uma cidade muito ligada ao Iluminismo.
E Pombal foi aconselhado sobre saúde pública por Ribeiro Sanches, um português
cristão-novo exilado de Paris, que era consultor remunerado de Pombal (claro
que Sebastião José de Carvalho e Melo só mais tarde ficou conhecido como
Marquês de Pombal). Mas os planos para a nova Lisboa também foram feitos por
engenheiros militares portugueses, e eram altamente utilitários, austeros e
uniformes, o que provavelmente só um déspota esclarecido poderia ter imposto,
ao contrário do que aconteceu em Londres após o grande incêndio. Embora a
experiência de Pombal em Londres, quando era embaixador português, tenha sido
também crucial. Assim como no seu período como representante português em
Viena. Pombal expulsou também os jesuítas, o que levou a ações semelhantes em
França e Espanha, e à supressão da ordem pelo papa. A imagem histórica de
Pombal é ainda muito impactada por estas medidas: o seu ataque aos jesuítas e o
seu ataque aos conspiradores aristocráticos que tentaram um regicídio contra o
rei D. José. O livro está publicado em inglês, português e francês e nele conto
que as ruas de Londres permanecem tal como eram antes do grande incêndio,
quando foi negada a Christopher Wren a oportunidade de replanear a capital. Mas
Lisboa e Paris permanecem como o Marquês de Pombal e Napoleão III e o Barão
Haussmann as imaginaram, Lisboa reconstruída após o catastrófico terramoto de
1755, e Paris reconstruída entre a revolta revolucionária de 1848 e a
catastrófica derrota de França por Bismarck e uma Prússia ressurgente e o cerco
de Paris e os dias sangrentos da comuna de Paris.
Outra das suas áreas de interesse é o Brasil. Para compreender o
Brasil, um país gigante até hoje, é essencial conhecer o impacto da
transferência da corte para o Rio de Janeiro?
Sim. A transferência da corte portuguesa para o Brasil no final de
1807 e o seu estabelecimento no Rio em 1808, até ao início da década de 1820,
explicam a continuidade e a preservação da integridade territorial do Brasil
durante o período da independência. O meu livro mais recente, A
globalização do século XVIII, foi publicado no meu 85.º aniversário
e no 250.º ano da independência americana e relaciona a tradução dos documentos
constitucionais americanos feita por Benjamin Franklin e a sua publicação em
francês para encorajar a França a apoiar as colónias americanas na sua luta
contra a Grã-Bretanha, e o papel de Thomas Jefferson, que, como enviado
americano que sucedeu a Franklin em Paris, se encontrou secretamente em Nimes
com um jovem estudante brasileiro da Universidade de Montpellier, que procurava
apoio americano para uma revolta anticolonial no Brasil contra o domínio
português. A revolta foi planeada em Minas Gerais para 1789, mas o plano foi
denunciado e fracassou. Jefferson foi ambíguo na sua resposta, preferindo um
acordo comercial com Portugal e o apoio naval português no Mediterrâneo contra
os Estados da Barbária. É também uma história do livro Recueil
des loix constitutives de colonies anglaises, confédérées sous la dénomination d’Etats-Unis, de 1778), que descobri na Biblioteca Newberry em
Chicago quando eu era um Newberry-Gulkbenkian Fellow em 1968. Subsequentemente,
o original Recueil dos conjurados Mineiros foi redescoberto e agora, depois de
1994, está no Museu da Inconfidência em Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil.
Depois de perder o Brasil no século XIX, Portugal construiu um império
africano no século XX. Mesmo lutando em três frentes, Portugal era impotente,
até por as colónias terem sido um importante teatro da competição da Guerra
Fria entre os EUA e a URSS, sobretudo Angola?
Tanto Portugal como Angola tornaram-se, durante um período em
meados da década de 70, o fulcro das tensões da Guerra Fria entre o Leste e o
Oeste. Em Portugal, porém, a democracia ocidental triunfou, apesar de
Kissinger, dos soviéticos e de Spínola, o que levou à incorporação de um
Portugal democrático na Comunidade Europeia. Em África, porém, e em Angola em
particular, a intervenção cubana foi crucial para a vitória do MPLA contra a
intervenção armada clandestina apoiada pelos Estados Unidos e pela África do
Sul, o que levou depois à queda do regime branco na Rodésia e na África do Sul.
Estas foram consequências internacionais importantes.
Portugal celebrará 900 anos em 2043. Como vê a sobrevivência
histórica de um país nascido da Reconquista e sem fronteiras naturais com
Espanha? Deve-se muito à aliança com a Inglaterra?
É um quadro complexo. Certamente, o apoio inglês e, mais tarde,
britânico, ajudou em momentos críticos. E recorde-se que, na década de 1640,
foi a República Parlamentar Inglesa de Oliver Cromwell que assinou o tratado
com o recém-independente Portugal, após o domínio espanhol. Mas Portugal acaba
sempre por fazer a sua própria história. Esta é sempre a minha recomendação:
nunca subestimem os portugueses.
Uma última questão, mais pessoal, ao historiador que conhece o
país há seis décadas. Quando visita Portugal, do que mais gosta? Dos monumentos, das paisagens ou dum bom prato de bacalhau?
Bacalhau à Brás com um copo de vinho alvarinho.
[Foto: Carlos Manuel Martins/Global Imagens - fonte: www.dn.pt]


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