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| Christmas Eve in Miller’s Point (Tyler Taormina, 2024) |
Escrito por Hugo Gomes
À quinta
edição, o Outsiders confirma-se menos como questão e mais como afirmação: o de
existir um cinema americano a persistir fora do centro, fazendo, ao contrário
da percepção comum, Hollywood como periferia. Entre 27 de janeiro e 1 de fevereiro, o Festival de
Cinema Independente Americano regressa a Lisboa (no Cinema São Jorge) para insistir naquilo que o define desde a origem: a descoberta
em sala, a estreia nacional, o gesto quase resistente de ver primeiro, aqui,
agora, em comunidade.
Num tempo de abundância digital
e de visibilidade ilusória, estes filmes continuam a chegar-nos tarde ou nunca.
O Outsiders existe para contrariar essa lógica, revelando obras que
circularam internacionalmente, mas permaneceram invisíveis em Portugal e arredores. A programação desta 5.ª edição traça um retrato
fragmentado da América contemporânea, onde território, identidade, violência
simbólica e mediação tecnológica se cruzam com formas livres e modelos de
produção alternativos.
Mais do que uma mostra, o Outsiders é um espaço de encontro entre filmes esquecidos e estreias
recentes, entre autores e público, entre margens que, vistas de perto, dizem
muito sobre o centro do mundo, e de como Hollywood não integra, de facto, esse
núcleo. Mais um ano, e Cinematograficamente Falando … mantêm a tradição, desafiando o programador Carlos Nogueira a uma pequena apresentação deste festival que se quer, nada de
marginalidades, mas ser banhado no holofote da cinefilia lisboeta.
Na 5.ª edição do Outsiders
volta a insistir-se na estreia nacional como princípio estruturante da
programação. Num momento em que o acesso digital parece tornar tudo
“disponível”, que sentido continua a fazer, hoje, esta ideia de estreia e de
descoberta em sala?
É um princípio estruturante da
programação desde o início que gostaríamos de manter enquanto for possível, uma
vez que, como refere, hoje, cada vez mais, tudo parece estar disponível. Mas a
verdade é que não está ou, pelo menos, não está acessível ao espetador
“médio”. Para já não falar da oportunidade, única provavelmente, de ver estes
filmes em sala.
Os 12 filmes seleccionados
passaram por festivais de grande visibilidade internacional e, ainda assim,
chegam inéditos a Portugal. Este desfasamento entre circulação internacional e
invisibilidade nacional diz mais sobre a fragilidade da distribuição portuguesa
ou sobre o lugar que o cinema independente americano ocupa hoje no mercado
global?
Diria que um pouco de ambas. A distribuição comercial portuguesa não se interessa por estes filmes. Muitas vezes adquire-os no fundo de um “pacote” de uma “major” e nem se dá conta, ou não sabe o que fazer deles. Os principais festivais nacionais, que são uma forma de distribuição mais activa, mas também mais fugaz, têm quotas limitadas e, por isso, deixam de fora algumas coisas muito interessantes. A exportação de filmes independentes que não pertencem ao catálogo das grandes distribuidores luta com imensas dificuldades. Um dos nossos objectivos é justamente repescar pérolas que ficaram inéditas: este ano temos um desses casos, o excelente “Love After Love” (Russell Harbaugh, 2017), tanto mais bizarro quanto conta no elenco com Andie MacDowell.
Rebuilding (Max Walker-Silverman, 2025)
O filme de
abertura, “Peak Season” (Steven Kanter & Henry Loevner, 2023), ancora-se
fortemente na paisagem de Jackson Hole, enquanto “Rebuilding” (Max
Walker-Silverman, 2025) revisita os elementos do western e atribui-lhe uma sensibilidade
contemporânea. Que papel desempenha o território, seja físico ou simbólico,
nesta edição do Outsiders enquanto retrato da América actual?
São dois filmes que abordam, de
formas distintas, uma das características de sempre do universo americano que
se tem vindo a acentuar nos tempos que correm: a oposição entre o mundo urbano
e o mundo rural. “Keep Quiet” (Vincent Grashaw, 2025) seria outro exemplo da
presença desse território, físico ou simbólico como diz, fonte inesgotável de
ficção.
“Our Hero, Balthazar” (Oscar
Boyson, 2025) aborda frontalmente temas como redes sociais e armas de fogo.
Diria que há, ao longo destas edições, uma preocupação não apenas no
dispositivo independente desses filmes, mas como eles traduzem um país do outro
lado do oceano Atlântico?
Esses temas não se
circunscrevem aos EUA, mas a especificidade histórica desse país e a sua capacidade em
usar com eficácia o megafone dos média, tanto tradicionais como os mais
recentes, converte-o num terreno fértil para que a relação entre as redes
sociais e o culto do uso de armas de fogo prolifere entre os jovens. O filme
trata o tema com um bem equilibrado misto de seriedade e humor, ou não tivesse
colaborado o seu realizador (Oscar Boyson) na produção de alguns filmes dos irmãos Safdie, entre eles “Good Time” e “Uncut Gems”.
Tyler Taormina surge como
convidado desta edição, o que o distingue, para si, de outros autores da mesma
geração e porque é que o seu cinema dialoga de forma tão orgânica com o
espírito do Outsiders? E em comparação com os convidados passados da mostra?
A escolha do convidado depende
sempre de imensos factores. Taormina é um dos jovens realizadores americanos mais interessantes
surgidos nos últimos anos. Com três longas-metragens no activo, inéditas no
nosso país, pareceu-nos chegado o momento de o apresentar ao público português,
não apenas exibindo duas delas, mas também convidando-o para estar presente nas
sessões e, como tem acontecido desde a primeira edição com os nossos
convidados, dar uma masterclass.
Sendo Taormina também
produtor, compositor e fundador de um colectivo como a Omnes Films, até que
ponto o Outsiders se interessa não apenas pelos filmes, mas também pelos
modelos de produção alternativos que estes autores propõem?
Na sua qualidade de cofundador
da Omnes e produtor de alguns dos filmes feitos por outros membros do
grupo, a sua vinda abriu a possibilidade de fazer um pequeno foco sobre este
colectivo de produção. Incluímos por isso o filme “Eephus”, de Carson Lund, um dos maiores sucessos críticos granjeado por uma produção
independente nos últimos tempos, que será também apresentado por Tyler Taormina.
Ao fim de cinco edições, o
Outsiders parece cada vez mais afirmar uma identidade própria, distante tanto
dos grandes festivais como da lógica de “mostra de nicho”. Hoje, como define o
lugar do Outsiders no ecossistema dos festivais portugueses, e que tipo de
relação espera construir com o público a médio prazo?
Não somos nem ambicionamos ser um “grande festival” no referido ecossistema, mas quero crer que estamos no bom caminho para ser um festival essencial. Trazemos filmes que ficaram perdidos no complexo labirinto da rede de exibição e permitimos o seu diálogo com outros mais recentes, por vezes acabados de ter a sua estreia mundial, mostrando como os temas e as formas criativas mais improváveis se articulam. O público tem vindo a crescer de ano para ano, e noto que começa a haver uma fidelização (pessoas que participam de edição para edição, caras que se veem quase diariamente durante o festival), o que é muito reconfortante. Pouco a pouco vai-se sentindo a construção de um espaço de debate, vê-se cada vez mais a interacção do público entre si ou com o realizador convidado, no fundo a formação de um verdadeiro espírito de festival.
Our Hero, Balthazar (Oscar Boyson, 2025)
Por fim, tendo em
conta a situação geopolítica actual e as mudanças radicais sociopolíticas que
experienciamos nos EUA, como o Outsiders pretende persistir nesse ambiente, ou
até mesmo renovar? Se é que existe alguma intenção de tal?
É difícil fazer conjecturas
sobre o futuro. Contudo, lembremo-nos que o Outsiders teve um parto complicado (estava previsto ter início em maio de 2020, integrado nas comemorações dos 35 anos da FLAD … mal sabíamos que nos cairia em cima a pandemia … e a
primeira edição teve lugar em dezembro de 2021, durante um recomeço parcial do confinamento) e
sobreviveu. Essas dificuldades iniciais trouxeram ao festival uma grande
capacidade de resistência. Para além disso, o projecto tem no seu ADN
características que lhe permitem grande maleabilidade. E a FLAD tem, anualmente, reafirmado o seu interesse em continuar o Outsiders.
Toda a programação
poderá ser consultada aqui
[Fonte: cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt]



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