Escrito por Hugo Gomes
Uma mulher e uma bicicleta, seja Nina
Hoss, seja Paula Beer, as musas representativas do seu trajecto
artístico, Christian Petzold faz cinema a partir dessa imagem
minimalista, por vezes invocativa de um certo bucolismo. “Mirrors No. 3”
responde, sem surpresas, a essa imagética, é uma obra que, fazendo ouvidos
moucos ao que entendemos por realismo, se assume e se abraça na sua austeridade
funcional: não apenas narrativo, mas também cénico. Um cinema despojado, a
pedalar na sua própria lógica.
Em tempos (não há muito), Petzold,
sob o signo da sua Beer, olhava para sirenas fluviais como quem observa constelações,
imaginando e consciencializando que essa luz é gerada por matéria morta, uma
iluminação projectada através de milhares de anos-luz. Pois bem: a fantasia no
cinema petzoldiano tem esse chamamento ao morto, ao
desaparecido, evidencia-se nele algo desafiante à crença do espectador, sem
artifícios nem artificialidades, à presença de fantasmas e outros seres
místicos, sem sequer os invocar pelo nome. É um cinema reduzido na sua graxa, e
consequentemente o espectador na sua graça.
Paula Beer é
o espectro: um almejar de vidas passadas, cuja actualidade lhe é indiferente,
existencialmente indiferente. Com isto vai “assombrar” uma mulher rural, cujo
segredo reforça o seu voluntário cativeiro. Depois, a música surge como esse
chamamento, uma memória auditiva voraz e um piano há muito não tocado, cujo
teclar aqui e ali abre certas portas imaginárias, invisíveis ao olhar, mas pode
sentir-se na devoção do enredo; o clássico melódico é apenas ultrapassado
por Frankie Valli and the Four Seasons (“The Night”, para sermos exactos), enchendo de
curiosidade a protagonista invasiva, curiosidade que pouco a pouco se dilui
naquele ambiente de clausura.
Como em muitos filmes de Petzold,
sobretudo desta fase Beer, somos tentados a pairar no mundo
retratado. Não é passividade: é quase uma agressividade amestrada, em oposição
à faceta Nina Hoss, onde o choque, o confronto, revelava um
realizador com vitalidade e irrequietude para atentar na História e nas
estórias, no género, mas também no segredo. Em “Mirrors No. 3”, resta a
reviravolta como ligação a esse estanque.
Há quem o considere uma obra menor. Talvez. A produtividade de Petzold poderá estar a conduzi-lo a algum cansaço, e a personagem de Beer não é, de facto, das mais empáticas para sustentar o trajecto. Ainda assim, permanece um pequeno prazer cinéfilo: esse miminho oriundo da Escola de Berlim.
[Fonte: cinematograficamentefalando.blogs.sapo.pt]

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