quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Curitiba e suas entranhas

Rua XV de Novembro, centro de Curitiba

Escrito por Paulo Camargo 

Há pouco mais de três semanas, me mudei para um edifício de traços modernistas construído no inicio dos anos 1960 no centro de Curitiba. Estou escrevendo este texto a três quadras do prédio histórico da Universidade Federal do Paraná, onde estudei por seis anos e me formei no início da década de 1990, e do Teatro Guaíra, espaço cultural que me proporcionou algumas das experiências estéticas mais fundamentais de minha vida. Em seu palco, assisti a Elis Regina no antológico show “Transversal do Tempo”, à montagem original do musical Ópera do Malandro, de Chico Buarque, que também lá vi pela primeira vez, na turnê do maravilhoso álbum Paratodos. Sinto que estou onde deveria e quero estar.
Mas viver na região central de uma grande cidade do Brasil em 2019 é, também, encarar de frente a realidade de um país empobrecido. Há muito tempo, nem sei quanto, não percebia Curitiba tão desvalida, com tantos miseráveis espalhados por todo canto, e isso é ainda mais evidente quando se trata de uma localidade que se percebe, equivocadamente, como exceção. Não é.
No último sábado, bem cedo pela manhã, testemunhei uma cena triste: um guarda municipal tentava convencer um homem negro de uns 40, 50 anos, a deixar a entrada do Auditório Salvador de Ferrante, o Guairinha, onde havia provavelmente dormido. Já passava das 8 horas e o sem-teto recusava-se a sair, enquanto o policial lhe dizia que não desejava tomar medidas mais drásticas: “Se o senhor sair, não vai acontecer nada.” Ele estaria, pelo que entendi da conversa, enfeiando a paisagem. Ainda que sonolento, perturbava a ordem.
Mas viver na região central de uma grande cidade do Brasil em 2019 é, também, encarar de frente a realidade de um país empobrecido. Há muito tempo, nem sei quanto, não percebia Curitiba tão desvalida, com tantos miseráveis espalhados por todo canto, e isso é ainda mais evidente quando se trata de uma localidade que se percebe, equivocadamente, como exceção.
Quando voltei pelo mesmo caminho, dez, quinze minutos mais tarde, nem ele nem o guarda estavam mais lá, porém havia pelo menos mais uma dezena de pessoas na mesmíssimo situação, espalhadas num raio de poucas quadras, pedindo esmolas, e de alguma forma cumprindo o importante papel de nos lembrar de quem somos e de onde estamos. 

Pode-se até tentar higienizar cosmeticamente uma cidade, porém é impossível varrer suas entranhas para baixo do tapete.


[Foto:  Daniel Castellano/Gazeta do Povo - fonte: www.aescotilha.com.br]

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