Nesta altura histórica existe um amplo consenso entre todos os grupos políticos presentes no Parlamento de Santiago, para a incorporação na CPLP.
Escrito por Ângelo Cristóvão
A Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP),
criada em 2008, é coerente com a mais longa e fiel tradição da cultura galega
que, de sempre, considerou existir a um e outro lado do rio Minho uma e a mesma
língua, e não duas, mesmo que, por razões históricas e políticas, sejam
chamadas por nomes distintos. São ideias tão comuns, ou tão estranhas para
alguns leitores, como as opiniões fundamentadas de Manuel Rodrigues Lapa (leia
o seu livro Estudos
Galego-Portugueses), ou a Nova Gramática do Português
Contemporâneo de Celso Cunha e Lindley
Cintra, publicada em 1984, em que incluíram os dialetos galegos entre os do
português europeu.
Na sequência deste critério a AGLP assinou
parcerias, incluindo um conjunto de palavras de uso corrente na fala quotidiana
ou na escrita literária galega, no Vocabulário Ortográfico da Porto Editora, no
corretor informático FLiP da empresa Priberam, no Vocabulário Ortográfico da
Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, e na atualização do seu
Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea. Sugiro também dar uma vista de
olhos ao Vocabulário Ortográfico da AGLP on-line, com 140.000 entradas, e ao
Dicionário Estraviz on-line, o maior da Galiza, e um dos mais completos de toda
a língua portuguesa, que incluiu recentemente uma completíssima conjugação
verbal, a pôr ao mesmo lado as variantes galegas e as comuns ao resto do espaço
linguístico.
Em 2018 a Academia foi admitida na Comunidade dos
Países de Língua Portuguesa na qualidade de “observador consultivo”, e
atualmente participa na sua Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua
Portuguesa. Aproveito a oportunidade para anunciar que a AGLP e a citada
Comissão organizam uma Conferência em Santiago de Compostela, que terá lugar em
11 de outubro, em instalações da Universidade de Santiago, com o patrocínio do
Governo autónomo. Talvez isto sirva também para outra reflexão.
Oportunamente a AGLP colaborou na redação, promoção
e negociação da Lei “Paz-Andrade”, aprovada em março de 2014 no Parlamento
autónomo da Galiza pela unanimidade dos deputados. Uma lei que obriga a fazer
efetivas, entre outras medidas, a incorporação da língua portuguesa ao sistema
de ensino público, e à promoção da entrada da Galiza em organismos
multilaterais do espaço lusófono.
Nesta altura histórica existe um amplo consenso
entre todos os grupos políticos presentes no Parlamento de Santiago, para a
incorporação na CPLP. O Governo autónomo tem manifestado o seu interesse em
avançar nesta direção. Estou certo que, de uma ou outra forma, nos próximos
anos este desejo terá uma resposta positiva, e a Galiza terá um lugar
reconhecido dentro do conjunto dos povos de língua oficial portuguesa. Língua
de Camões, Guimarães Rosa e Rosalia Castro, que podemos legitimamente dar o
nome de português ou galego.
Porém, na altura em
que a Galiza realiza esforços institucionais para a integração no espaço
lusófono, e por mostrar a sua proximidade linguística, alguns exemplos parecem
vir em sentido contrário, como a publicação no Jornal de Letras de um especial dedicado à Galiza (ou será
Galicia, à castelhana?) em que se utiliza uma ortografia insolidária com as
outras variantes da mesma língua e se omite pessoas e entidades que, de forma
real e efetiva, levam décadas a trabalhar pela aproximação da Galiza. Talvez
não seja este tipo de enquadramentos os mais acertados.
O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
[Fonte: www.publico.pt]
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