Ao maltratar a língua, presidente e séquito ferem um
símbolo maior que o hino
Escrito por Sérgio Rodrigues
O
perfil do presidente da República no Twitter inventa a grafia
"fácelmente", mais original que o plural "cidadões" do
encarregado do Enem. Para não ficar atrás, seus filhos criam o plural de raiz
em "raises" e o ponto mais baixo possível como "fundo do posso".
Deixemos
de lado o potencial poético de "fundo do posso", com sua insinuação
de um limite último e inapelável para toda forma de poder. Por critérios
escolares muito valorizados pelas multidões conservadoras que apoiam os
personagens acima, todos são erros feios de português.
"Ah,
e o Lula? Errava pouco?" Chegaremos lá. Primeiro vamos combinar que
"erro de português" não é um tema simples. Julgamos merecedoras de
enfática correção e até de escárnio grafias baseadas na fala
("fugiro") e construções da gramática popular que ignoram a culta
concordância ("os preso fugiro"), mas toleramos palavras sem sentido
algum numa petição judicial.
Num
país em que a desigualdade social é um aleijão, a linguística tem denunciado a
carga de discriminação socioeconômica --o que, no caso do Brasil, significa
dizer também racial-- embutida na caça agressiva a manifestações de português
"errado".
É por
isso que, para o senso comum, sociolinguistas pregam o vale-tudo, como se o
erro não existisse. Errado. Eles sabem que a língua de documentos, leis,
literatura e outros discursos de prestígio é de importância vital, e
universalizar seu ensino, tarefa de qualquer Estado democrático. Nesse âmbito,
o erro não só existe como pode custar caro.
Seja
como for, apontar o dedo para a língua dos outros foi deixando de ser diversão
garantida, ainda bem. (Por outro lado, a escola continua a valorizar um ensino
rico em decoreba e pobre de leitura, com provas cheias de pegadinhas tolas
--mas esta é outra coluna.)
Um
exemplo da mudança de ares: a imprensa rolou de rir com o "imexível"
do então ministro Antonio Magri. Era 1990. Poucos anos depois, as bicudas de
Lula na gramática culta teriam recepção bem diferente.
Sim, a
depreciação continuava lá. As lulices eram comentadas privadamente ou por
alusões. Ria-se delas, mas sua tematização pública aberta, restrita a
opositores mais duros, tendia a ser considerada no mínimo de mau gosto.
Na
minha opinião, era. Lula fez um grande mal à educação brasileira quando a declarou
perfeitamente dispensável, autonomeando-se a maior prova desse fato, mas seus
desvios do português padrão --que foram escasseando com o passar do tempo--
nunca me pareceram um problema.
No
entanto, hoje eu vejo um claro problema cultural, quem sabe até cívico, nos
fartos sinais de falta de intimidade com a língua culta espalhados pelo
presidente e seu séquito. Se algo de absoluto pode ser dito dos erros de
português, é que seu peso é sempre relativo.
Quanto
mais chance de estudar a pessoa tiver, quanto maior for seu poder, quanto mais
ela pregar a obediência à tradição, quanto mais transformar professores em
bodes expiatórios e cultivar em área tão crítica marquetices politiqueiras como
a "Lava-Jato da educação" --tanto mais justo será medi-la pela régua
com que mede o mundo.
Do
contrário, a impressão que ficaria é que o analfabetismo funcional crônico,
essa praga brasileira, está tão impregnado no sistema que agora tanto faz.
Seria trágico: a língua não precisa de lei para ser um símbolo nacional muito
mais importante do que todos os hinos da República.
[Fonte: www.folha.com.br]

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