Escrito por CARLOS BIZARRO MORAIS
A pretexto da primeira tradução francesa do histórico
estudo de Adolf Trendelenburg, intitulado De
Aristotelis categoriis (1833),
a prestigiada revista Les
Études Philosophiques* publicou
recentemente o seu terceiro fascículo do corrente ano dedicado ao tema
“Categorias da língua, categorias do ser”. Este número monográfico reúne, para
além da referida tradução d’As
Categorias de Aristóteles realizada
por Alain Petit, um notável conjunto de contributos de especialistas na matéria.
Tal
acontecimento já justificaria o destaque editorial dado por esta revista de filosofia, tal é a importância do estudo de Trendelenburg na interpretação e
fixação do que se deve entender por “categorias” no contexto do pensamento de
Aristóteles.
Porém,
do nosso ponto de vista, o interesse do assunto ultrapassa o âmbito da
discussão meramente académica entre especialistas do grande discípulo de
Platão, dado que toca numa matéria verdadeiramente nevrálgica da nossa cultura
atual: a questão do fundamento, do significado e do valor das palavras e dos
conceitos que usamos no quotidiano.
De
facto, todos sentimos os efeitos devastadores da perda de valor da palavra nas
relações entre os humanos. Desde há muito que as palavras, apesar de ornadas de
sedutores efeitos retóricos, deixaram de ser o solo credível da comunicação
entre as pessoas. Não é necessário um grande esforço para verificarmos que as
palavras dadas são cada vez menos honradas, cada vez menos expressão da
confiança, cada vez menos fecundadas pelo compromisso da verdade.
A
aceitação inconsciente e acrítica da cultura da assim chamada pós-verdade, da
pós-metafísica, da pós-transcendência, disseminando o vírus do ceticismo niilista,
ataca inexoravelmente os fundamentos do discurso, seja no campo jurídico, da
ética e da religião, da comunicação e da política, da economia, da ciência, da
arte, da própria filosofia. É todo um ambiente e uma atmosfera cultural que
compromete seriamente a saúde intelectual e espiritual do corpo social e de
cada indivíduo.
Ora,
em que sentido o estudo das referidas categorias de
Aristóteles podem ajudar a alterar este panorama? Precisamente por nos permitir
perceber que já os termos mais gerais e, neste sentido, mais básicos com os
quais construímos as frases do dia a dia (modos de predicação), correspondem
por um lado à estrutura do discurso, mas pautam-se, por outro lado, pela ordem
da realidade.
É
uma questão complexa, mas de grande incidência prática. O que efetivamente está
em causa é a conceção daquilo que as categorias são na sua natureza
fundamental: serão elas apenas filtros da arquitetura de uma lógica gramatical
– isto é, da sintaxe – da língua transposta para o nosso pensamento, ou
corresponderão, também, aos modos fundamentais da manifestação da realidade?
Neste segundo aspeto, longe de um formalismo lógico, as palavras ou categorias
valeriam correlativamente como filtros ontológicos do ser. Ora, é aqui que está
o cerne da questão.
Esta
articulação que as categorias realizam entre a língua, o pensamento e a
realidade surge na contemporaneidade ausente de um dos polos de sustentação:
precisamente, a realidade. E por isso, o discurso esgota-se na sua própria
formalização, assegurando-se do rigor lógico como único valor, deixando cair o
valor de verdade ontológica, razão de ser do conhecimento pleno.
Ora,
a lógica de Aristóteles – de que as Categorias constituem
o primeiro tratado – está muito empenhada em garantir ao pensamento o máximo
investimento na coerência, mas para melhor atingir o mais elevado conhecimento
da verdade das coisas. E o seu ponto de partida
consiste na «apreensão da essência das coisas existentes», como se lhe refere o especialista Émile de Strycker (sj).
Estamos
persuadidos de que será possível superar a destrutiva crise da linguagem em que
nos encontramos, mediante o aprofundamento da conceção da natureza do discurso
e das categorias que o constituem, na linha da genuína interpretação
aristotélica. Daí, também, a importância do tema da publicação anteriormente
referida.
*
Esta publicação periódica está disponível na Biblioteca da Faculdade de
Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica – Braga.
[Fonte: www.diariodominho.pt]
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