O que o gênio da crônica pode nos ensinar sobre este Brasil feio de 2018
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| O escritor capixaba Rubem Braga, em foto que fará parte da exposição "Rubem Braga - O Fazendeiro do Amor", em Vitória, Espírito Santo. |
Escrito por Sérgio Rodrigues
Tenho-me apanhado pensando o que o grande Rubem Braga (1913-1990)
escreveria sobre o atual momento do país nos textos que batucava em ritmo
industrial na máquina de escrever, cercado de árvores frutíferas e passarinhos
em sua cobertura de Ipanema.
Mas que importa o que diria um
escritor morto sobre um século que não chegou a ver? Antecipo a
pergunta do leitor irritado (ah, como eu o compreendo!) e peço-lhe um voto de
confiança pelo próximo punhado de parágrafos, ao fim dos quais, prometo, não
sairá de mãos vazias.
Limita-se a isso, promessa e
tamanho, o modelo textual conhecido como crônica. Tendo no capixaba Braga seu
gênio maior, a crônica ganhou no país ao longo do século 20 alturas estéticas
que chegam a sugerir uma contribuição original brasileira ao cardápio universal
dos gêneros.
Vamos com calma. De um lado, é
óbvio que o Brasil não inventou o textinho leve de jornal assinado por
literatos. Do outro, a crítica tradicional sempre se esmerou em classificar a
crônica como gênero menor, contingente, superficial e —definitivo prego no
caixão— jornalístico.
Que esses adjetivos são
inadequados ou pelo menos insuficientes para qualificar nossa melhor produção
pode ser conferido no recém-lançado Portal
da Crônica Brasileira, vasta galeria virtual de textos que é uma das
melhores notícias do Brasil este ano em qualquer área.
Parceria do Instituto Moreira
Salles com a Fundação Casa de Rui Barbosa, o portal tem
milhares de crônicas digitalizadas —sempre que possível, os
próprios recortes de jornais e revistas em que os textos saíram pela primeira
vez (os que iriam parar em livros) ou pela única vez (a maioria).
No time de autores da estreia,
além de Braga, estão Antonio Maria, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Rachel de
Queiroz e Otto Lara Resende. Faltam nomões, alguns imensos,
como Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade. Trata-se de obra em
construção.
A convite dos organizadores,
participei do lançamento do portal no IMS Rio, mês passado, batendo um papo
público com seu editor, o jornalista e escritor Humberto Werneck. Falamos de
muita coisa, inclusive de nossa discordância sobre o vetor
"jornalístico" ser estruturante do gênero, ideia que Werneck rejeita
e que eu defendo —com a ressalva de que isso não rebaixa a crônica em nada.
O que, na escassez do tempo,
faltou abordar aquela noite me assombra desde então na forma da pergunta ali de
cima: o que diria Rubem Braga sobre o Brasil de agora, essa atmosfera tóxica, esse duelo de
rejeições absolutas, essa eleição?
Ou seja, o que pode ensinar a
melhor safra da crônica brasileira, escrita entre os anos 1930 e 1970, aos
brasileiros crispados de hoje, cada vez mais incapazes de compreender a crônica
se não a anabolizamos com doses maciças de articulismo, de opinião?
Aquele cruzamento de lírico e
narrativo enchia nossos jornais e revistas —coalhados de más notícias, vamos
combinar que nunca amarramos cachorro com linguiça— de um olhar único:
enviesado, falsamente despretensioso, cosmopolita sob o disfarce provinciano,
sofisticado mas acessível a multidões pouco letradas.
Nos casos mais felizes, aqueles
textos detonavam epifanias, abriam diante do leitor janelas revigorantes para
além da realidade imediata —que já tinha a mania, nunca perdida, de ser tão
feia. Pode-se chamar isso de ingenuidade. Eu prefiro chamar de sabedoria.
[Fonte: www.folha.com.br]

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