Sistema antifogo em
santuários cheios de peças insubstituíveis para quê?
Bombeiro em
escombros do Museu Nacional, destruído por incêndio
Escrito por Sérgio Rodrigues
O hidrante seco é um símbolo do Brasil.
Primo-irmão da privada seca, mais conhecida como penico, emblema do “país do
futuro” em que metade da população não tem acesso a redes de esgoto, o baixinho
notável conheceu mais um momento de brilho na noite de domingo.
Aliado do terrível fogo, o Grande
Fogo Purificador que mora dentro das armas que levam seu nome, o hidrante seco
—ou meia bomba, dá no mesmo— ajuda a limpar o mundo de toda frescura, toda sutileza, todo verniz civilizatório com suas relíquias, pesquisas,
memórias e apego a coisas inúteis.
Implacável na busca da essência, o
GFP reduz nossa confusa realidade ao que importa —primeiro ao esqueleto
carbonizado, depois a cinza, a pó, de onde nos restará a tarefa de reconstruir
um país livre de história e purgado de desvios humanistas.
Ou será coincidência que o
meteorito do Bendegó tenha resistido ao holocausto enquanto dos artefatos
toscos urdidos por povos incapazes de sobreviver ao progresso já não há
bulhufas? Sobre qual pedra ergueremos o futuro?
Deus nos livre de hidrantes com
água, santuários abarrotados de peças insubstituíveis com sistema antifogo,
museus modernos e acolhedores frequentados por multidões, multidões que saem da
escola sabendo ler o que está escrito nas plaquetas de identificação das
peças.
Soldadinho do fogo impalpável, seu anjo de ferro entre os
mortais, o hidrante seco é de sublime inutilidade, como o gesto estético que
funda toda arte, mas nela ancora uma função superior: a de nos negar a menor
ilusão de luta. Não é pouco.
Vejamos.
Talvez não houvesse mesmo nada a fazer aquela noite. A precária força humana
chega a ser ridícula quando se defronta com tantas décadas de descaso acumulado
num só lugar: desinteresse, desinvestimento, fios expostos, tábuas rangendo,
escadas bambas, salas fechadas, público arisco.
Como
impedir que arda o cipoal ressequido de culpas entrecruzadas entre
administrações universitárias, gerações de governantes de mão fechada e
cabecinha também, público indiferente? Mas, ah, como teríamos lutado mesmo
assim!
Isto
é, se o hidrante seco deixasse. Mas não deixou, nunca deixa. É uma obra-prima.
Uma peça de Duchamp. Um dedo médio vermelho erguido na esquina, convidando todo
mundo a nele pousar o traseiro e relaxar.
Rendidos
ao seu poder, bombeiros borboletearam inúteis ao redor da hecatombe e diante
das câmeras de TV, coçando a cabeça. Alguns verteram lágrimas, mas estas,
embora sinceras e hídricas, jamais teriam volume para inflar as mangueiras
impotentes. Mandou-se buscar água, operação trabalhosa que leva tempo. E tempo
é a matéria que o GFP queima primeiro, às gargalhadas.
Importamos
a palavra “hidrante” dos EUA há um século. Os ingleses não gostam do original
“hydrant”, dizem que não passa de um americanismo e que sua formação a partir
do elemento grego “hydor” é irregular.
Pode
ser, não convém discutir com o dicionário Oxford. Mas parece que no país de
John Orr —bombeiro de Los Angeles que em 1991 foi preso e condenado como o
piromaníaco responsável por 2.000 incêndios— hidrantes compensam a morfologia
plebeia com o fato de que funcionam.
Com
isso quero dizer o seguinte: jorram água! Sim, em catadupas. A menos que sejam
forjadas aquelas fotos antigas, clichês jornalísticos de verão, em que crianças
brincam risonhas diante de hidrantes abertos. Mas não, é claro que as fotos não
são forjadas. Que país mais sem imaginação.
[Foto: Carl de Souza/AFP - fonte: www.folha.com.br]

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