Artistas criam diálogos com textos do autor, expoente da literatura underground alemã
Obra de Letícia Barreto sobre imagem de Hubert Fichte, da série "Entre torres de marfim e deuses de ébano"
Inspirado na obra do escritor Hubert Fichte (1935-1986), um dos nomes centrais da literatura underground alemã dos anos 1960, a coletiva “Implosão: trans(relacion)ando Hubert Fichte” será inaugurada neste sábado no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, reunindo trabalhos de artistas que se relacionam com o teor dos roteiros “erótico-etnográficos” do autor. Obras de nomes como Ayrson Heráclito, Coletivo Bonobando, Letícia Barreto, Michelle Mattiuzzi e Negro Léo (que também realiza uma performance na galeria Gentil Carioca, também neste sábado, em parceria com a mostra do Hélio Oiticica) criam diálogos com os textos do autor alemão, que seguiu as rotas da diáspora africana por vários países, inclusive o Brasil, onde passou três temporadas entre 1969 e 1982. Seus relatos abordavam visitas à terreiros de candomblé, banheiros públicos e cinemas conhecidos como pontos de encontros homossexuais.
— Fichte era filho de judeus e chegou a ser perseguido pelo nazismo. Como homossexual, criou sua obra a partir destas marcas de dupla minoria. Essa vivência o leva a se interessar pela diáspora africana e a vir pesquisar em cidades como Rio e Salvador, lugares essenciais para compreender este processo — destaca o filósofo Max Jorge Hinderer Cruz, que assina a curadoria da mostra com o artista visual Amilcar Packer.
"Sangue e pérolas", obra de Ayrson Heráclito presente à mostra
A mostra faz parte de um projeto internacional lançado na Alemanha em parceria com o Goethe-Institut, realizado nos locais que Fichte visitou e registrou em seus textos, como Lisboa, Nova York e Santiago do Chile, além de Rio, Salvador e São Paulo. No Brasil, o projeto começou no ano passado, com uma série de seminários e leituras, que incluíram alguns dos artistas convidados para a mostra que abre neste sábado.
Selecionamos artistas cujas obras criassem um campo que ressoasse as obras do Fichte, e quando fizemos o convite descobrimos que muitos deles já conheciam seus textos. Mas em nenhum momento pensamos em fazer uma mostra em homenagem a ele, buscamos um diálogo crítico com os artistas — observa o curador.
ETNOGRAFIA DISTANTE DO ESTRUTURALISMO
O evento conta ainda com o lançamento do livro “Explosão. Romance da etnologia”, com tradução para o português de Marcelo Backes, que traz alguns dos textos mais importantes das viagens do autor, nas quais tentava fazer uma etnografia diferente da proposta estruturalista.
Fichte nasceu e morreu em Hamburgo, e conheceu a cultura brasileira na zona portuária da cidade, ao se envolver com alguns marinheiros. Ao chegar aqui pela primeira vez, ainda trazia muitas ideias pré-concebidas, das quais foi se libertando nos períodos em que viveu aqui — ressalta Hinderer Cruz. — Ele não era uma pessoa religiosa, mas trazia as referências da cultura judaica e do protestantismo. Seu primeiro contato com as religiões afro-brasileiras foi pelas fotos de Pierre Verger. Ao chegar aqui, ele frequentou os terreiros mas não se propõs fazer parte daquilo, dentro de uma lógica levistraussiana. Ele se colocava como o outro, se aproximando muitas vezes através do sexo.
Para o curador, ainda que o projeto já venha acontecendo há quase dois, o momento para a estreia da exposição é propício, por conta da onda conservadora que atinge as artes no país:
A estratégia destas forças conservadoras é justamente vencer pelo medo, por isso não podemos dar nenhum passo atrás. É hora da coletividade artística e dos setores progressistas se posicionarem, o campo da arte deve se manter livre, sem concessões.
SERVIÇO
“Implosão: trans(relacion)ando Hubert Fichte”
Onde: Centro de Arte Hélio Oiticica — Rua Luís de Camões, 68, Centro (2242-1012).
Quando: Seg, qua e sex, de 12h às 20h; ter, qui e sáb, das 10h às 18h. Até 13/1/2018. Abertura às 14h.
Quanto: Grátis.
Classificação: 12 anos.
“Encruzilhada Gentil” (Ativação da galeria A Gentil Carioca em parceria com a mostra “Implosão: Trans(relacion)ando Hubert Fichte”, com as obras "Mijatório (Discursivo)", de Jarbas Lopes, performance Negro Leo e exibição de "Neyrótika", de Hélio Oiticica
Onde: Galeria Gentil Carioca — Rua Gonçalves Lédo, 11 e 17, Centro (2242-1012).
Quando: Seg a sex, das 12h às 19h; sab, das 12h às 17h.
Quanto: Grátis
Classificação: Livre
[Fonte: www.oglobo.globo.com]


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