domingo, 26 de novembro de 2017

Viagens 'erótico-etnográficas' de Hubert Fichte inspiram exposição

Artistas criam diálogos com textos do autor, expoente da literatura underground alemã


     Obra de Letícia Barreto sobre imagem de Hubert Fichte, da série "Entre torres de marfim e deuses de ébano"



Inspirado na obra do escritor Hubert Fichte (1935-1986), um dos nomes centrais da literatura underground alemã dos anos 1960, a coletiva “Implosão: trans(relacion)ando Hubert Fichte” será inaugurada neste sábado no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, reunindo trabalhos de artistas que se relacionam com o teor dos roteiros “erótico-etnográficos” do autor. Obras de nomes como Ayrson Heráclito, Coletivo Bonobando, Letícia Barreto, Michelle Mattiuzzi e Negro Léo (que também realiza uma performance na galeria Gentil Carioca, também neste sábado, em parceria com a mostra do Hélio Oiticica) criam diálogos com os textos do autor alemão, que seguiu as rotas da diáspora africana por vários países, inclusive o Brasil, onde passou três temporadas entre 1969 e 1982. Seus relatos abordavam visitas à terreiros de candomblé, banheiros públicos e cinemas conhecidos como pontos de encontros homossexuais.

— Fichte era filho de judeus e chegou a ser perseguido pelo nazismo. Como homossexual, criou sua obra a partir destas marcas de dupla minoria. Essa vivência o leva a se interessar pela diáspora africana e a vir pesquisar em cidades como Rio e Salvador, lugares essenciais para compreender este processo — destaca o filósofo Max Jorge Hinderer Cruz, que assina a curadoria da mostra com o artista visual Amilcar Packer. 

"Sangue e pérolas", obra de Ayrson Heráclito presente à mostra 

A mostra faz parte de um projeto internacional lançado na Alemanha em parceria com o Goethe-Institut, realizado nos locais que Fichte visitou e registrou em seus textos, como Lisboa, Nova York e Santiago do Chile, além de Rio, Salvador e São Paulo. No Brasil, o projeto começou no ano passado, com uma série de seminários e leituras, que incluíram alguns dos artistas convidados para a mostra que abre neste sábado. 

Selecionamos artistas cujas obras criassem um campo que ressoasse as obras do Fichte, e quando fizemos o convite descobrimos que muitos deles já conheciam seus textos. Mas em nenhum momento pensamos em fazer uma mostra em homenagem a ele, buscamos um diálogo crítico com os artistas — observa o curador. 

ETNOGRAFIA DISTANTE DO ESTRUTURALISMO 

O evento conta ainda com o lançamento do livro “Explosão. Romance da etnologia”, com tradução para o português de Marcelo Backes, que traz alguns dos textos mais importantes das viagens do autor, nas quais tentava fazer uma etnografia diferente da proposta estruturalista. 

Fichte nasceu e morreu em Hamburgo, e conheceu a cultura brasileira na zona portuária da cidade, ao se envolver com alguns marinheiros. Ao chegar aqui pela primeira vez, ainda trazia muitas ideias pré-concebidas, das quais foi se libertando nos períodos em que viveu aqui — ressalta Hinderer Cruz. — Ele não era uma pessoa religiosa, mas trazia as referências da cultura judaica e do protestantismo. Seu primeiro contato com as religiões afro-brasileiras foi pelas fotos de Pierre Verger. Ao chegar aqui, ele frequentou os terreiros mas não se propõs fazer parte daquilo, dentro de uma lógica levistraussiana. Ele se colocava como o outro, se aproximando muitas vezes através do sexo. 

Para o curador, ainda que o projeto já venha acontecendo há quase dois, o momento para a estreia da exposição é propício, por conta da onda conservadora que atinge as artes no país:

A estratégia destas forças conservadoras é justamente vencer pelo medo, por isso não podemos dar nenhum passo atrás. É hora da coletividade artística e dos setores progressistas se posicionarem, o campo da arte deve se manter livre, sem concessões.

SERVIÇO

“Implosão: trans(relacion)ando Hubert Fichte” 

Onde: Centro de Arte Hélio Oiticica — Rua Luís de Camões, 68, Centro (2242-1012). 
Quando: Seg, qua e sex, de 12h às 20h; ter, qui e sáb, das 10h às 18h. Até 13/1/2018. Abertura às 14h. 
Quanto: Grátis. 
Classificação: 12 anos. 

“Encruzilhada Gentil” (Ativação da galeria A Gentil Carioca em parceria com a mostra “Implosão: Trans(relacion)ando Hubert Fichte”, com as obras "Mijatório (Discursivo)", de Jarbas Lopes, performance Negro Leo e exibição de "Neyrótika", de Hélio Oiticica 
Onde: Galeria Gentil Carioca — Rua Gonçalves Lédo, 11 e 17, Centro (2242-1012). 
Quando: Seg a sex, das 12h às 19h; sab, das 12h às 17h. 
Quanto: Grátis
Classificação: Livre




[Fonte: www.oglobo.globo.com]

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