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Imagem ilustrativa de livros
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Escrito por Sérgio Rodrigues
É fácil criar uma frase em que a
ausência de pontuação subverte o sentido pretendido pelo escriba, com efeito
cômico ou desastroso ou ambos. Brincando com as vírgulas numa mensagem como
"Não te amo não vá embora", vemos que esses sinais, longe de serem
supérfluos, podem fazer a diferença entre um coração feliz e um coração
despedaçado -a diferença mais relevante do universo.
Então
por que será que mensagens eletrônicas ignoram cada vez mais os sinais de
pontuação e que mesmo no (que resta do) mundo analógico eles vêm sendo pouco e
mal empregados como nunca, a julgar por relatos trazidos das trincheiras
conhecidas como salas de aula por apreensivos professores de português?
Antes
de cedermos à conclusão de que o mundo vai acabar não num gemido, como queria
T.S. Eliot, mas numa vírgula faltante, convém lembrar que as convenções de
pontuação que hoje consideramos naturais e eternas não são nem uma coisa nem
outra.
A
leitura como a conhecemos, com espaços em branco individualizando as palavras e
um punhado de sinais de trânsito para organizar o fluxo das ideias nos
cruzamentos, é uma construção histórica que só começou a ganhar corpo no
princípio da Idade Média, chegando à maturidade na era de Gutenberg.
Imersos
numa cultura em que a escrita se subordinava humildemente à oratória e na qual,
tudo indica, a leitura silenciosa era artigo raro, os maiores sábios da
antiguidade foram pouco sensíveis à evidência de que uma fileira de palavras grudadas era algo que merecia aprimoramento. O dramaturgo grego
Aristófanes foi uma das exceções, adornando seus textos com pontinhos
indicativos de ênfase e pausa, mas essa semente genial levaria séculos para
vingar.
Em
sua versão século 21, a mesma primazia do oral sobre o escrito -ou melhor, a
representação gráfica dessa primazia num ambiente em que a menor fumaça de
formalidade é considerada formal demais- está por trás do rareamento de sinais
de pontuação em mensagens eletrônicas.
E
como ficam os possíveis mal-entendidos, como aquele do primeiro parágrafo? Bem,
cada um deve se responsabilizar pelos sinais de pontuação que engole, e todo
mundo sabe que o discurso amoroso requer cuidados especialíssimos. No caso das
mensagens interpessoais, porém, o código compartilhado costuma eliminar sem
susto a margem de ambiguidade.
Se
no WhatsApp isso se dá de forma mais natural, no Twitter, por exemplo, a
pontuação é frequentemente avacalhada com uma intencionalidade que tem menos a
ver com ignorância ou desleixo do que com a liberdade textual exercitada por
poetas modernos desde as primeiras décadas do século 20.
Sim,
estamos falando de um código lúdico e disruptivo em que determinados sinais de
"certo" passam a significar "errado", e vice-versa.
Prenúncio do fim do mundo? Menos, menos, seria minha resposta de sempre,
embora, como o colega Antonio Prata, depois de Trump eu não duvide de mais
nada.
De
todo modo, vale observar que uma sutil economia de compensações parece estar em
curso na gramática digital. Os pixels economizados em cada vírgula ou ponto
retornam, gloriosos, nas maiúsculas dos que só sabem gritar e nos 15 pontos de
exclamação em série dos deslumbrados. Deve haver alguma forma de justiça aí.
[Fonte: www.folha.com.br]

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