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"Fiquei assustado ao descobrir que também para o compositor baiano as palavras andam fazendo doce"
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Escrito por Sérgio Rodrigues
A última pergunta da boa entrevista que o jornalista
estrangeiro faz comigo sobre o estado atual do português em nosso país e no
mundo, a propósito do meu livro "Viva a Língua Brasileira", é a única
que deixo sem resposta: "Qual é a sua palavra preferida na língua
portuguesa?"
Não tenho nada parecido com uma palavra preferida, na língua portuguesa ou
em qualquer outra. Mesmo levando em conta que a pergunta é uma daquelas
borbulhas que o jornalismo recomenda como forma de amaciar um conteúdo talvez
duro –quer dizer, nada que exija profundidade, brincadeira só–, mesmo assim não
sei brincar.
O jornalista não consegue disfarçar a decepção com essa lacuna. Termina a
entrevista e fico pensando: e se eu premeditasse uma resposta espirituosa para
"improvisar" da próxima vez? Passo em revista algumas palavras
catitas, sedutoras. Outras patuscas, chistosas, maneiras. Além de meia dúzia de
esquisitas, viajandonas, bizarras.
Não adianta. A ideia de eleger uma menina dos olhos entre milhares e
milhares de palavras me provoca uma leve náusea. É uma proposta escalafobética.
(Aliás, que tal "escalafobético"? Não, muito abstruso.)
A verdade é que eu preciso de todas as palavras, inclusive aquelas que
ainda não sei. Como manifestar preferência, hierarquizar? Um substantivo
horroroso como "bócio", por exemplo, pode se fazer a entrada mais
desejável do dicionário pela beleza da adequação, pela capacidade de dar o seu
recado como nenhum outro.
Não acho que haja um pingo de arrogância nessa promiscuidade vocabular.
Pelo contrário: uma poligamia judiciosa e gentil é a condição natural do
escritor que, sendo artesão consciente, inseguro dos seus ariscos meios de
expressão, morre de medo de despertar o ciúme de uma amada que seja, que dirá
arriscar um motim.
"Lutar com palavras é a luta mais vã", superlativou Drummond. Se
isso era verdade para o autor de "A máquina do mundo", aquele das
"mãos pensas" (hmm, o que pensas de "pensas"?), é claro que
ninguém está seguro.
Ninguém mesmo, constato mais uma vez ao ler a nova introdução que Caetano
Veloso escreveu para a edição comemorativa do 20º aniversário daquele seu
cartapácio (opa, quem sabe?) tão interessante quanto barroco, "Verdade
Tropical".
Diz ele: "VT foi escrito na flor dos meus 54 anos, quando a memória
para o vocabulário era rápida e precisa. Hoje, penso que deveria comprar um
dicionário analógico (ou achar um online) mas me esqueço de fazer uma coisa ou
outra".
Fiquei assustado ao descobrir que também para o compositor baiano, tão
hábil em roçar sua língua na língua de Luís de Camões, as palavras andam
fazendo doce. Na flor dos meus 55, até hoje nunca tinha me ocorrido a ideia
–óbvia, pensando bem– de que a idade pudesse ser mais um fator de dureza nesse
jogo.
Confesso que tais pensamentos me deixaram meio sorumbático.
"Sorumbático" que já foi, tempos atrás, uma das palavras que mais me
davam alegria, numa frontal contradição entre sentido e forma.
"Macambúzio", seu sinônimo, também.
Mas isso passou, eu juro. Eram paixões de adolescente, pelas quais peço um
perdão contrito e arquejante a todas as outras palavras já inventadas ou ainda
por inventar.
[Foto: Francois Guillot /AFP – fonte: www.folha.com.br]

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