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O escritor, humorista e chargista Millôr Fernandes (1923-2012) em seu estúdio, em Ipanema, no Rio
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Escrito por Sérgio Rodrigues
Eu tinha acabado
de assumir o consultório gramatical do finado "Jornal do Brasil", em
2002, quando Millôr Fernandes me lançou de sua coluna vizinha esta casca de
banana: "Existe mesmo a tal crase em português do Brasil, ou é apenas uma
macaquice do português de Portugal?"
Falar em casca
de banana, não deve obscurecer o fato de que o grande humorista e intelectual do
Meier, estrela maior do jornal carioca, fazia ali uma mesura gentil ao novato
do aconselhamento gramatical. O que repetiu em muitas outras colunas,
alimentando um diálogo de grande generosidade (da parte dele).
Mesmo assim,
pela profundidade da questão, casca de banana era. Não adiantava responder com
aquele orgulho rasinho e bobo do didatismo que sim, ora, é claro que a crase
existe, trata-se da contração da preposição "a" com o artigo
"a" etc. Crase é uma palavra de origem grega que significa
simplesmente contração, fusão. Mas Millôr estava careca de saber disso.
Na época, eu
apenas vislumbrava o que para ele era claríssimo: o problema da crase beira a
metafísica. "Se 80 milhões de brasileiros alfabetizados erram na
identificação de uma regrinha de merda", escreveu na sequência do debate
meu ilustre interlocutor, "quem está errado, o brasileiro ou a
regra?"
Dava os
seguintes exemplos: "Aqui [no Brasil] já vi até placas, inscrições em
mármore em edifício de ministério, com três crases erradas. Vi também, por
acaso esta semana mesmo, manual de regras de editora importante, para
professores, e feito por professor, com 27 páginas contendo 32 preposições
craseadas –todas erradamente!!!"
O homem era mais
provocador do que linguista, e sabia bem disso. Mas a provocação era boa. O
português brasileiro, mesmo no registro que costuma ser chamado de
"culto", está cheio até o gargalo de crases absurdas como em "à
duzentos metros", "viajou à São Paulo", "vá à uma
loja", "deu à ele", "chegamos à um impasse".
Em todos esses
casos –que nos confrontam em documentos oficiais, placas de trânsito, textos
publicitários, notícias, tuítes, mensagens pessoais, em toda parte– o acento
grave que sinaliza crase aparece jogado sobre a preposição "a" sem
que haja sombra de um artigo "a" nas imediações.
O que isso quer
dizer? A resposta convencional é que estamos diante de um sintoma do grave
déficit educacional brasileiro. Não é uma resposta errada, mas é fácil demais.
Quando um desvio gramatical é tão disseminado, inclusive entre falantes de alto
grau de escolaridade, costuma ser mais inteligente procurar o que está além do
óbvio.
"A crase
não foi feita para humilhar ninguém", disse o poeta Ferreira Gullar, que
foi copidesque de jornal. Optando pelo caminho da não humilhação, somos
obrigados a reconhecer que o português brasileiro tende a tratar a preposição
craseada como uma preposição de boné virado, invocadinha, livre de qualquer
ideia de contração.
Não prego uma
revolução gramatical que absolva as batatadas de crase que nos bombardeiam.
Elas não me incomodam menos hoje do que me incomodavam quando o Millôr lançou
sua provocação libertária.
Só desconfio que
o problema do Brasil com a crase vá muito, muito além da gramática. É coisa
para ser resolvida num divã de dimensões continentais.
[Foto: Ricardo Moraes/Folhapress - fonte:
www.folha.com.br]

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