segunda-feira, 5 de junho de 2017

Fernando Morais escreve sobre o novo livro de Anita Prestes

"Mais que uma excelente obra de referência, o livro de Anita Prestes sobre sua mãe Olga é a pungente, dolorosa história de uma revolucionária exemplar."
Por Fernando Morais
Qualquer pesquisador se sentiria diante de uma mina de ouro ao deparar com o acervo histórico que deu origem ao livro Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo. No coração de Moscou jazia o tesouro composto por nada menos que 2,5 milhões de documentos separados em 28 mil dossiês, estes, por sua vez,­­ organizados em 50 catálogos. Não por acaso essa montanha de informações era conhecida como os Trophäen-dokumente, os “documentos-troféus” acumulados pela Gestapo, a polícia secreta do Reich, o regime nazista alemão que aterrorizou o mundo durante doze anos. Apreendida pelo Exército Vermelho após a derrota da Alemanha, em 1945, a documentação foi preservada pela União Soviética e começou a ser aberta para consulta pública dois anos atrás.
Para Anita Leocadia Prestes, descobridora do filão, porém, a pesquisa nesse rico material envolvia mais que a curiosidade acadêmica de uma historiadora. O objeto de seu olhar e de seu trabalho eram os oito dossiês contendo cerca de 2 mil documentos que a Gestapo arquivou com o título de “Processo Benario” – o acervo da polícia secreta nazista sobre sua mãe, a revolucionária Olga Benario Prestes. Trata-se do mais extenso rol de documentos sobre uma única vítima do nazismo, o que permite medir a importância atribuída pelo Terceiro Reich à então mulher do líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes.
Além de mais de meia centena de cartas inéditas, trocadas entre Olga, o marido, preso no Brasil, a sogra, Leocadia Prestes, e as cunhadas Clotilde, Lygia, Eloiza e Lúcia, o acervo vasculhado pela historiadora Anita Prestes revela minúcias do monitoramento a que Olga era submetida pelas autoridades em todas as prisões e campos de concentração em que esteve entre 1936 e 1942, quando foi executada em uma câmara de gás.
Além das cartas, chama a atenção do leitor a pétrea decisão de Olga de não transmitir a seus algozes nem sequer uma solitária informação a respeito de seu passado e de suas atividades políticas na União Soviética e no Brasil. Ainda que esse obstinado silêncio viesse a lhe custar, como ocorreu dezenas e dezenas de vezes, penosos castigos físicos e privações ainda mais duras que as do cotidiano de um campo de concentração nazista. Penas que, com frequência, eram encerradas com uma cruel recomendação: “Ademais, solicito que lhe seja atribuída uma árdua carga de trabalho adicional”.
Mais que uma excelente obra de referência, Olga Benario Prestes: uma comunista nos arquivos da Gestapo é a pungente, dolorosa história de uma revolucionária exemplar.
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Onde encontrar?

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Fernando Morais é natural de Mariana, Minas Gerais. Jornalista, biógrafo, político e escritor, é autor de diversos livros, dentre os quais Olga, lançado em 1985 e reeditado em 1994, que narra a trajetória trágica de Olga Benario, recrutada pelo governo soviético para dar proteção ao líder comunista brasileiro Luiz Carlos Prestes. Atualmente edita também o blog Nocaute.


[Fonte: www.blogdaboitempo.com.br]

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