Escrito por Sérgio Rodrigues
Quando mencionei duas semanas atrás as "traduções
macunaímicas", aquelas que têm muita preguiça e nenhum caráter, abri uma
porteira.
Leitores me enviaram seus exemplos preferidos de expressões
copiadas do inglês, especialmente do inglês americano, que fazem muita gente
soar como atores gringos mal dublados.
Antes dos pratos principais, uma entrada importante: a
xenofobia sempre foi má conselheira. Afiar o espírito crítico para identificar
modismos bobos, filhos da ignorância e até do desapreço por nossa língua e
nossa cultura, não significa abraçar os puristas.
Quando era o francês que nos bombardeava com palavras e
construções, há um século ou mais, a militância purista fazia campanha para
que, por exemplo, o francesismo "engajado" fosse substituído por
"aferrado".
Ferrou-se, como se viu. O engajamento em causas desse tipo é
furado porque toda língua é impura, indomável e amoral. Se um número suficiente
de brasileiros adotar o verbo "realizar" com o sentido de
"perceber, dar-se conta de", acabará por consagrá-lo. Já estamos
quase lá.
O que ocorre nesses casos é parecido com a acumulação de
fortunas por velhos facínoras: em duas gerações os crimes prescrevem, em três
ninguém se lembra mais de crime nenhum, em quatro temos uma dinastia de
aristocratas impolutos.
Eu não gosto do "realizar" anglófilo, mas sei que o
surgimento de acepções novas para velhas palavras por influência estrangeira,
fenômeno banal e incontrolável, é um dos flancos em que as traduções
macunaímicas têm mais facilidade para penetrar na corrente principal da língua.
O nome disso é falso amigo -enquanto é tratado como erro de
tradução. Depois que o erro começa a ser absorvido, prefere que o chamem de
estrangeirismo semântico. Enquadra-se aí a maior parte das contribuições dos
leitores.
Listo as principais, com a tradução preferível e o original
inglês entre parênteses: "planta" (fábrica, "plant"),
"painel" (congresso, "panel"), "assumir" (supor,
"to assume"), "eventualmente" (finalmente ou mais tarde,
"eventually"), "escopo" (abrangência, "scope"),
"inalar" (inspirar, "inhale"), "exalar" (expirar,
"exhale").
Categoria mais selvagem é a dos neologismos que são decalques
grosseiros do inglês, às vezes feitos até de forma gozadora. Estão nesse grupo
muitos verbos vindos no fluxo migratório da tecnologia.
Alguns deles: "estartar" (iniciar, "to
start"), "frizar" (congelar, "to freeze"),
"popular" (preencher, "to populate") e o ortograficamente
defeituoso "inputar" (inserir, "to input"). Com graus
variados de sucesso, todos lutam para repetir a feliz história de assimilação
de "deletar".
No grau mais alto da patetice ficam as versões literais de
expressões idiomáticas e construções tipicamente anglófonas. "At the end
of the day" significa "no fim das contas" e não "no fim do
dia" (registre-se que até na fala americana é um clichê cansado).
"State of the art" quer dizer "o estágio mais desenvolvido"
e não "estado da arte". "Take your time" deve ser traduzido
por "não tenha pressa" em vez de "tome seu tempo".
É verdade que ainda não ouvi ninguém pedir "um casal de
minutos" ("a couple of minutes") quando quer ganhar um tempinho,
mas talvez seja questão de... tempo, pois é. Quem sabe nada além de um casal de
minutos.
[Fonte: www.folha.com.br]
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