Não ceder ao impulso de declarar todos os muçulmanos cúmplices dos atos reivindicados por Daech é a principal preocupação das autoridades
Por
Leneide Duarte-Plon
Por que a
França? Como se proteger dos atentados sem renunciar ao Estado de direito?
Essas duas perguntas feitas e respondidas por políticos, juristas, sociólogos ou filósofos percorreram diversas edições de jornais franceses nos últimos dias.
No dia da festa nacional, um único terrorista em um caminhão
em desabalada carreira pela pista da Promenade
des Anglais, em Nice, matou 84 pessoas ferindo dezenas de outras. A pista
havia sido fechada ao tráfego para os fogos de artifício do 14 de julho.
“A França está em guerra”, repetem o
primeiro-ministro Manuel Valls e o presidente François Hollande desde novembro
do ano passado, quando o país despertou para a novidade dos atentados camicase
em seu território. O inimigo designado é o Estado Islâmico (Daech, em
árabe). O termo “guerra” é discutível, contestado por diversos intelectuais,
pois ao reconhecer o Estado Islâmico como inimigo, seus “soldados” ganham o
status de combatentes e não seriam ”terroristas”. O mesmo dilema se
colocou durante a Guerra da Argélia, só reconhecida como tal em 1999.
Na realidade, o inimigo só começou a intensificar
os ataques no solo francês depois do envolvimento direto e maciço da França nas
diversas guerras que ela trava hoje: na Síria, no Iraque, na Líbia e na África
Central. Todas têm o pretexto de combater o terrorismo.
“Nós não podemos destruir Daech
na França se não nos transformarmos em Estado policial militarizado. O que seria
preciso para vencer Daech? A resposta é simples: fazer a paz no Oriente
Médio”, escreveu no “Le Monde” o filósofo e sociólogo Edgar Morin, de 95 anos,
quando o terrorismo atingiu Paris em novembro passado.
Corajoso, Morin lembrou que os drones e bombardeios
americanos e franceses matam principalmente populações civis e não militares.
O papa Francisco também foi claro ao analisar o mundo, depois da degolação do padre francês numa pequena cidade da França, na terça-feira, 26 de julho: “Não tenhamos medo de dizer a verdade. O mundo está em guerra. Mas não é uma guerra de religião. Ela encontra suas raízes nas questões de dinheiro, acesso a recursos naturais, dominação dos povos”.
O papa Francisco também foi claro ao analisar o mundo, depois da degolação do padre francês numa pequena cidade da França, na terça-feira, 26 de julho: “Não tenhamos medo de dizer a verdade. O mundo está em guerra. Mas não é uma guerra de religião. Ela encontra suas raízes nas questões de dinheiro, acesso a recursos naturais, dominação dos povos”.
Diversos analistas enfatizam que uma guerra civil
na França entre cristãos (os “cruzados”, na linguagem do Estado Islâmico) contra
os muçulmanos seria o sonho de Daech. E isso só será evitado se os franceses
preservarem o respeito a todas as religiões, no contexto da laicidade
republicana, tão solidamente implantada no país mais laico da Europa.
Coabitação serena
Coabitação serena
Mudando de armas e de estratégia, o Estado Islâmico
chocou ainda mais esta semana. Não pelo número de vítimas, mas pelo simbolismo.
Dois jovens de 19 anos degolaram o padre Jacques Hamel, de 86 anos, em plena
missa, diante do altar, na pequena cidade de Saint-Etienne-du-Rouvray, perto de
Rouen. Era a primeira vez que o terrorismo usava uma arma branca e matava um
representante da Igreja.
Os habitantes da cidade descreveram uma coabitação
serena entre católicos e muçulmanos. O terreno da mesquita fora cedido por
freiras católicas por um euro simbólico. A convivência era exemplar até que
dois jovens djihadistas entraram na igreja para matar um representante dos “cruzados”.
O ataque indiscriminado de Nice matou e feriu
homens, mulheres e crianças no 14 de julho, data que une todos os franceses
independentemente de suas origens. Naquele dia, o terrorista fez muitas vítimas
entre seus correligionários: um terço dos mortos eram de cultura muçulmana,
pois na cidade, tradicionalmente governada pela direita, vive uma grande
população magrebina que fez questão de frisar que “o terrorista não representa
o Islã, uma religião de paz”.
Prevenir o ódio inter-religioso
Não ceder ao impulso de declarar todos os
muçulmanos cúmplices dos atos reivindicados por Daech é a principal preocupação
das autoridades civis e religiosas. A teoria do “choque de civilizações” que
levaria a uma guerra de religiões seria o principal erro que daria razão à
ideologia que sustenta Daech.
Nessa tarefa, os representantes do culto muçulmano
se unem aos políticos para declarar sua lealdade às leis da “République”
e condenar os atos de terrorismo cego que mata civis indiscriminadamente.
A direita e a extrema-direita têm sido contidas em
suas demandas securitárias pelo bom-senso e inteligência dos governantes
preocupados em não fazer novas leis mais repressivas a cada novo atentado.
Assim mesmo, o estado de emergência (decretado no dia seguinte aos atentados do
Bataclan e dos cafés no dia 13 de novembro de 2015) foi prorrogado por mais 6
meses logo após o atentado de Nice.
“A legislação antiterrorista foi reforçada todos os
anos desde 1986. Ousar dizer que esse arsenal jurídico é insuficiente, é um erro
histórico e jurídico. Não se pode ir mais longe, a não ser saindo do Estado de
direito”, alerta o respeitado jurista Serge Portelli.
Alvo preferencial
Por que a França é o alvo preferencial de Daech ?
As guerras são em parte a resposta. A coalizão da qual a França faz parte fez mais de 14 mil bombardeios no Iraque e na Síria, em dois anos. Tudo isso para impedir que o Estado Islâmico continue a se expandir. Segundo Washington, o EI perdeu no Iraque e na Síria cerca de 50% e 20%, respectivamente, dos territórios conquistados em 2014.
Mas quem é o responsável pelo caos instalado no Oriente Médio desde a queda de Saddam Hussein em 2003, passando pela queda de Kaddafi e pela guerra civil na Síria? O mesmo Ocidente, que usou o ataque do 11 de setembro de 2011 contra as torres do World Trade Center para invadir o Iraque e iniciar uma transformação total do Oriente Médio, segundo planos do Pentágono.
“Em vez de gastar somas colossais em armamentos no estrangeiro, a França deveria dirigir seus recursos para financiar os serviços públicos como a saúde, a educação, a cultura e o emprego para reduzir as fraturas na sociedade francesa. Isso evitaria a frustração e amargura que conduz jovens a refugiarem-se na radicalização islamista e outros a adotarem reflexos xenófobos dos fascistas”, escreveu no jornal “L’Humanité” a historiadora Chloé Maurel, especialista das Nações Unidas.
Ela aponta a contradição: a França tem contratos milionários de venda de armas à Arábia Saudita que, segundo ela, é apenas “a forma limpa e respeitável de Daech”. Os historiadores Sophie Bessis e Mohamed Harbi mostraram em artigo no “Le Monde” a existência de uma filiação ideológica entre Daech e a Arábia Saudita. O que não impede que a monarquia saudita seja uma excelente aliada dos Estados Unidos e da França.
Alvo preferencial
Por que a França é o alvo preferencial de Daech ?
As guerras são em parte a resposta. A coalizão da qual a França faz parte fez mais de 14 mil bombardeios no Iraque e na Síria, em dois anos. Tudo isso para impedir que o Estado Islâmico continue a se expandir. Segundo Washington, o EI perdeu no Iraque e na Síria cerca de 50% e 20%, respectivamente, dos territórios conquistados em 2014.
Mas quem é o responsável pelo caos instalado no Oriente Médio desde a queda de Saddam Hussein em 2003, passando pela queda de Kaddafi e pela guerra civil na Síria? O mesmo Ocidente, que usou o ataque do 11 de setembro de 2011 contra as torres do World Trade Center para invadir o Iraque e iniciar uma transformação total do Oriente Médio, segundo planos do Pentágono.
“Em vez de gastar somas colossais em armamentos no estrangeiro, a França deveria dirigir seus recursos para financiar os serviços públicos como a saúde, a educação, a cultura e o emprego para reduzir as fraturas na sociedade francesa. Isso evitaria a frustração e amargura que conduz jovens a refugiarem-se na radicalização islamista e outros a adotarem reflexos xenófobos dos fascistas”, escreveu no jornal “L’Humanité” a historiadora Chloé Maurel, especialista das Nações Unidas.
Ela aponta a contradição: a França tem contratos milionários de venda de armas à Arábia Saudita que, segundo ela, é apenas “a forma limpa e respeitável de Daech”. Os historiadores Sophie Bessis e Mohamed Harbi mostraram em artigo no “Le Monde” a existência de uma filiação ideológica entre Daech e a Arábia Saudita. O que não impede que a monarquia saudita seja uma excelente aliada dos Estados Unidos e da França.
Uma prova a mais, se preciso fosse, das
contradições e incoerências das alianças militares no mundo, regidas por
interesses inconfessáveis disfarçados em defesa da democracia.
*Leneide
Duarte-Plon é autora de “A tortura como arma de guerra - Da Argélia ao Brasil:
Como os militares franceses exportaram os esquadrões da morte e o terrorismo de
Estado” (Editora Civilização Brasileira)
[Foto:
Presidência de la República – fonte: www.cartamaior.com.br]
Sem comentários:
Enviar um comentário