terça-feira, 28 de junho de 2016

O idioma materno e o idioma felino

Trocando em Miúdos: Coluna Primera Persona traz hoje um obituário disfarçado de resenha literária sobre a obra do ítalo-mexicano Fabio Morábito.

Por Mariana Sanchez

Morreu nossa gata. Recebi a notícia um minuto após terminar de ler um livro de Fabio Morábito. Como de costume, anotei na última folha o local, data e hora do fim da leitura, e fiquei ali contemplando a plasticidade daqueles números: 21/06/2016, 15h51. Que belo dia para ser lembrado, o primeiro do inverno, o último daquela criaturinha de pelagem cinzenta que tanto amamos e com quem convivemos por mais de uma década.
Desde que nos mudamos para Buenos Aires havia o temor de que um eventual rito fúnebre de passagem se desse em nossa ausência. Mas só porque ignorávamos que sua morte já começara na despedida. Felinos são pura presença, o amor em estado tátil. Uma relação que se dá no aqui e agora, ao toque de uma orelha fria e ao som de um ronronado, para além do inteligível. Quando não existe comunicação verbal possível, qualquer mínima distância é uma pequena morte, afinal.
Julio Cortázar, o escritor argentino que mais amou felinos e escreveu sobre eles, dizia que gatos são telefones. Se não compreendemos as mensagens que nos mandam (e que “nossa literatura primária e patética translitera burramente em forma de miaus e outros fonemas parecidos”), os bichanos nada têm a ver com isso. “Todo gato é um telefone, mas todo homem é um pobre homem. Sabe-se lá o que continuam nos dizendo, os caminhos que nos mostram”, escreveu, num conto de Um Tal Lucas.
O livro em que anotei, sem saber, a data da morte de nossa gata, chama-se El Idioma Materno, e é um livro sobre linguagem. Mais especificamente, sobre como é se tornar um escritor em outra língua que não a própria. Fabio Morábito, seu autor, nasceu no Egito, passou a infância na Itália e aos quinze anos se mudou para o México, onde vive até hoje. É um dos poetas e prosadores mais sublimes da América Latina, com uma única obra lançada no Brasil até agora — a novela infantojuvenil Quando as Panteras Não Eram Negras —, pela Editora 34.
El Idioma Materno saiu em 2014 e foi considerado um dos livros do ano na Argentina pelo suplemento “Ñ”, do jornal Clarín. Trata-se de uma peça literária perfeita: são 84 textos com exatamente o mesmo tamanho e estrutura (uma página e meia), num gênero que oscila entre a crônica — pela forma — e o ensaio — pela densidade do conteúdo. Neles, o ítalo-mexicano revisita sua própria trajetória de leitor e escritor, numa divertida e comovente meditação existencial sobre “como se fez por si mesmo”, para usar aquela frase maravilhosa do curitibano Jamil Snege.
Cada texto é uma pequena fábula poética que costura sua autobiografia (ou, ao menos, a de um eu ficcionalizado) com temas como língua e leitura, escritura e identidade, linguagem e estilo literário. Em um deles, postula sobre a única diferença que existe entre prosa e poesia (“só há uma forma de escrever um poema, e é verso a verso, enquanto não se escreve um conto ou romance linha por linha”); em outro, descreve o escritor como alguém que não apenas enfrenta o fracasso de escrever, como faz disso sua missão, enquanto os outros apenas redigem. Mais adiante, defende o sotaque como um último reduto da alma, e o ato de sublinhar livros como uma forma de reconhecer, no futuro, quem um dia fomos.
Mas o ponto central desta obra de Morábito está no vínculo que temos com nossa primeira língua e a experiência de assumir, ao longo da vida, uma segunda.
[Fonte: www.aescotilha.com.br]

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