Dia desses, num dos nossos sites de notícias, havia esta
manchete: "Que fim levou a água do aquífero Guarani?". O caro leitor
provavelmente saiba o que é um aquífero e/ou o que é o aquífero Guarani.
Para os que não sabem uma das
duas coisas (ou as duas), explico: como se deduz pelos elementos que formam a
palavra, "aquífero" significa "que conduz água". Os
elementos latinos "aqui-" e "-fero" (equivalente do grego
"-foro") significam, respectivamente, "água" e "que
carrega, leva, transporta, conduz, contém". Antes que alguém pergunte,
digo que esse "u" de "aquífero" é pronunciado, fato que
antes da vigência do (Des)Acordo Ortográfico se indicava com o trema.
Localizado na América do Sul, o aquífero Guarani é um dos maiores reservatórios
de água doce da Terra.
Como se vê, parece que o
título jornalístico abusou um pouco da redundância. Salvo engano, bastaria
perguntar "Que fim levou o aquífero Guarani?" Ou será que não é bem
assim? A velha discussão sobre o que é o que não é pleonasmo (uso redundante de
palavras) jamais terá fim, prezado leitor.
Para muitos, quando se diz,
por exemplo, que "o técnico manterá o mesmo time que entrou em campo
domingo passado", infringem-se as regras do bom estilo, já que, se o
técnico vai manter o time, o time será o mesmo, ou seja, "manter o
mesmo" seria exemplo de redundância.
Para outros, em certos casos é
nítida a perda da força de determinadas palavras, o que justifica o emprego de
um vocábulo que "recupera" o sentido do termo
"enfraquecido". E aí muitos dizem que "manter o mesmo time"
não constitui caso clássico de pleonasmo vicioso, do tipo "entrar para
dentro", "sair para fora", "subir para cima" etc.
É célebre a referência a
Camões, que escreveu "De ambos os dous a fronte coroada" (sim,
"dous", variante antiga de "dois", muito comum, por
exemplo, na obra de outro clássico, Machado de Assis).
Há quem diga que para muita
gente a palavra "ambos" não remete de imediato ao conceito de
"dois", "duplo" etc., o que justifica ou justificaria o
pleonasmo camoniano.
Voltando ao aquífero, é bom
lembrar o termo "aqueduto". Ao pé da letra, pode ser visto como
equivalente a "aquífero", mas tem uso específico. Trata-se de
"elevada estrutura (...) constituída por uma ou mais ordens de arcadas
(...) e erguida para servir de suporte a um canal que se destinava a conduzir a
água sobre vale ou outra depressão do terreno" ("Houaiss").
O caro leitor notou o emprego
de "destinava"? Parece que não se constroem mais aquedutos, ao menos
como os de antigamente. Quer um exemplo de um deles? Os arcos da Lapa, no Rio
de Janeiro. Pouca gente sabe que aquilo é (ou melhor, foi) um aqueduto. E ainda
menos gente sabe que o nome oficial da obra é "aqueduto da Carioca".
Mais uma dica sobre a palavra
"aquífero". Sabe qual é a relação entre essa palavra e o antropônimo
(nome de pessoa) "Cristóvão"? Dou uma ajudinha: como é
"Cristóvão" em inglês? É "Christopher". Já ligou lé com lé
e cré com cré?
Esse "-pher" do
inglês nada mais é do que o "-fero" de "aquífero". Se o
aquífero é "que conduz, contém água", "Christopher" ("Cristóvão",
em português; "Cristoforo", em italiano _lê-se
"Cristóforo") é o "que conduz, carrega Cristo". O resto da
história sobre (são) Cristóvão fica para você, prezado leitor. É isso.
[Fonte: www.folha.com.br]
Sem comentários:
Enviar um comentário