Substituídas, ainda que de forma incompleta, pelo e-mail, as cartas escasseiam. Livros recentes contam a história da correspondência em papel e debatem suas peculiaridades, como a de traçar retratos vívidos de seus autores, a exemplo do Van Gogh que surge de "Cartas a Theo", que terá nova edição brasileira.
Alguns
anos atrás, a moda era discutir o "fim" de qualquer coisa: o fim do
Estado-nação (Jean Guéhenno), o fim do predomínio americano (Fareed Zakaria), o
fim da história (Francis Fukuyama), o fim dos livros (Umberto Eco, Jane
Yellowlees Douglas) e até mesmo o fim das colmeias de abelhas (Rowan Jacobsen).
O
momento talvez seja mais propício para livros propondo o contrário: a volta do
vinil, a volta da rivalidade russo-americana e mesmo a volta da fritura na
manteiga -uma vez que, segundo pesquisa recente da revista "Annals of
Internal Medicine", não há prova de que gorduras saturadas façam mesmo mal
ao coração.
Ainda
assim, parece bastante seguro afirmar que acabou o tempo das cartas pessoais
-aquelas manuscritas, com selo e envelope. É possível que, nos últimos dez
anos, eu não tenha recebido mais de cinco, e escrito ainda menos do que isso. O
e-mail eliminou inapelavelmente essa forma de comunicação, sem, no entanto,
substituí-la por completo.
Há
quem preveja, aliás, o fim do e-mail também. Enquanto isso não acontece, o
sistema ajuda muito a combinar compromissos, trocar informações rápidas e
enviar textos de trabalho; não funciona tanto, imagino, para as ocasiões mais
importantes da vida.
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Declarações
de amor, conselhos paternais, enunciados de intenção artística ou existencial
sem dúvida exigem outro tipo de preparo psicológico -e receber um envelope
selado em casa sempre despertou emoções que nenhuma tela do Outlook pode
reproduzir.
Sem
se dedicar a exercícios de futurologia, três livros recentes celebram a beleza,
a variedade e antiguidade da comunicação postal.
O
ensaísta inglês Simon Garfield assina o melhor deles, "To the Letter - A
Journey through a Vanishing World" [Canongate, e-book, R$ 35,18]. Do
jornalista John O'Connell, colaborador do "Guardian" e do
"Times", vem "For the Love of Letters- The Joy of Slow
Communication" [Short Books, e-book, R$ 22,88]. O mais boboca é "Kind
Regards -The Lost Art of Letter-Writing" [Michael O'Mara Books, e-book, R$
22,21], de Liz Williams.
O
"amor às cartas" do leitor brasileiro se vê recompensado, enquanto
isso, com uma nova edição das cartas de Vincent van Gogh (1853-90) pela editora
L&PM, prevista para o segundo semestre.
Além
das cartas do pintor holandês a seu irmão Theo, já publicadas muitas vezes, o
volume trará também as que ele recebeu de volta, numa das mais famosas
demonstrações de dedicação fraterna e sustento material de que se tem notícia
na história da arte.
Vem
junto a importante correspondência de Van Gogh com um pintor mais moço, Émile
Bernard (1868-1941), além de notas, glossário, cronologia e a biografia de
Vincent escrita pela mulher de Theo, Johanna van Gogh-Bonger.
RUDEZA
É
comum que, lendo as cartas de algum artista admirável, nossa admiração por ele
diminua um bocado. As do escritor Gustave Flaubert (1821-80), que perfazem
cinco volumes em papel-bíblia na coleção da Pléiade, podem ser incomparáveis no
que expressam de autoexigência artística e de espírito crítico, mas não deixam
de incomodar pela frequente rudeza de expressões e sentimentos.
No
caso de Van Gogh, ainda que o pintor holandês tenha sido vítima de perigosos
surtos de violência psicótica no final da vida, a impressão que deixam suas
cartas é a de alguém próximo da santidade.
"Neste
inverno", escreve ele a Theo em abril de 1882, "encontrei uma mulher
grávida, que tinha sido abandonada pelo pai da criança que ela estava
esperando". "Uma mulher grávida que, no inverno, vagava pelas ruas,
que devia ganhar seu pão você bem sabe como." Van Gogh conta que a levou
para casa e a tomou como modelo pelo resto da estação.
"Eu
a fiz tomar banhos, dei-lhe fortificantes tanto quanto pude, e ela ficou bem
mais saudável." Passaram a morar juntos -sendo que, como sempre, Van Gogh
não tinha um tostão além do que Theo lhe dava. "Esta mulher agora está
ligada a mim como uma pomba domesticada."
Van
Gogh imagina a resposta que receberá do irmão. "Vincent, você vai passar
por momentos péssimos e preocupações tremendas." Profecia que, de resto, iria
se cumprir. Mas naquele momento o pintor não se importa.
"Sei
disso, você tem razão, mas, meu caro, eu estaria ainda pior se, bem no fundo de
mim mesmo, eu ficasse com a sensação de ter perfidamente abandonado uma mulher
que encontrei no inverno, grávida e doente, e a lançado de volta às cruéis
pedras do calçamento mais uma vez." (Uso neste trecho tradução minha da
edição inglesa das cartas para a Penguin Classics, já que nem todas as missivas
constam da edição brasileira, que faz outra seleção do material, sempre
riquíssimo, deixado pelo pintor.)
GENEROSIDADE
A
generosidade de Vincent van Gogh, que o levara a empreender uma carreira como
pregador leigo entre os mineiros miseráveis da região carvoeira de Borinage, no
oeste da Bélgica, mantém-se mesmo depois dessa fase ultrarreligiosa de finais
dos anos 1870.
É
difícil, no seu caso, separar a produção estética do que nasce de uma
particular conformação emocional. Não para dizer, como o filósofo e psiquiatra
Karl Jaspers (1883-1969) em seu estudo sobre as relações entre loucura e arte
na pintura de Van Gogh e na dramaturgia de Strindberg, que a última fase de
desequilíbrio psíquico do gênio holandês se refletia num enfraquecimento da
qualidade de seus quadros, mais mecânicos e maneiristas, segundo Jaspers.
A
relação entre arte e psicologia, ou, melhor dizendo, entre pintura e
"alma", se expressa nas palavras do próprio Van Gogh. Apesar de
próximo da estética dos impressionistas e pós-impressionistas, o holandês tinha
afinidades maiores com a pintura de românticos como Eugène Delacroix
(1798-1863) e realistas como Jean-François Millet (1814-75). No primeiro, ele
encontrava a possibilidade de usar a cor como meio de transmitir
"conteúdos" expressivos; em Millet, a representação evangélica da
vida do trabalhador do campo.
Leitor
de Dickens e Tolstói, Van Gogh está sempre buscando a proximidade com os mais
pobres. "Cristo é o maior artista de todos", diria -e os atormentados
ciprestes que ele pintou no fim da vida eram para ser, em sua concepção, como
as árvores do Gólgota.
Um
sofrimento recorrente nas cartas do tão célebre pintor de paisagens e girassóis
é a falta de modelos vivos, que o permitissem retratar não só a natureza -que
ele vê sempre em estado de germinação, movimento e desejo- mas também o ser
humano.
Seja
como for, suas cartas funcionam como uma segunda obra, além das realizações
pictóricas, nas quais ele mostra uma alma por inteiro. Na esmagadora maioria
das missivas, o que vemos é uma pessoa fervorosa, "pintando como uma
locomotiva", sempre descontente com seu trabalho, mas sem nenhum
ingrediente de loucura mais notável. Depois de uma juventude desorientada, e de
vários desentendimentos com a família, Van Gogh sabe o que quer, o que procura
e entrega-se a isso com energia e constância. Muita gente menos louca do que
ele deveria invejá-lo nesse aspecto.
TRATADO
As
cartas de Vincent van Gogh não são citadas por Simon Garfield no seu divertido
e emocionante "tratado" sobre a comunicação pessoal escrita. Mas
outro caso de arte, loucura e suicídio -o da poeta americana Sylvia Plath
(1932-63)- ganha destaque em "To The Letter".
Um
dos capítulos do livro é dedicado à correspondência do viúvo de Plath, o também
poeta Ted Hughes (1930-98). Uma coletânea das cartas do autor britânico foi
publicada em 2007, e Simon Garfield transcreve um trecho do que Hughes escreveu
para a mãe de Plath, um mês após o suicídio:
"Cara
Aurelia, foi impossível para mim escrever-lhe antes. Nunca vou superar o choque
e esse nem é particularmente um desejo meu. Vi as cartas que Sylvia escreveu
para os meus pais e imagino que ela tenha escrito outras parecidas, ou piores,
a você."
Hughes
continua: "Nós estávamos totalmente cegos, nós dois estávamos
desesperados, fomos estúpidos e orgulhosos -e o orgulho nos fez tortuosos, ela
mais ainda. Sei que Sylvia era constituída de forma a impingir terríveis
punições às pessoas a quem mais amava, mas todo mundo é um pouco assim, e era
necessário apenas um pouco de inteligência da minha parte para lidar com
isso."
Ele
conclui: "Não quero ser perdoado nunca. Não quero dizer com isso que vou
me tornar um altar público de lamento e de remorso; o mais cedo possível vou me
transformar no oposto disso. Mas se houver uma eternidade, estarei nela em
danação".
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Durante
o resto da vida, Hughes recusou-se a alimentar a indústria de especulações em
torno de sua responsabilidade pelo suicídio de Sylvia Plath. Só em 1998 ele
publicaria um livro de poemas -cujo título, "Birthday Letters", evoca
a ideia de correspondência- escritos ao longo dos 25 anos transcorridos desde o
suicídio dela.
Tendo
morrido nesse mesmo 1998, Ted Hughes pode ser considerado um dos últimos
escritores a nunca ter encostado as mãos num computador, e suas cartas servem
como um testemunho pessoal que, sem dúvida, e-mail nenhum é capaz de oferecer.
BABILÔNIA
A
história começa muitos séculos antes, obviamente. Em "Kind Regards",
Liz Williams informa que o rei Hamurabi, da Babilônia, foi dos primeiros a
organizar um "sistema postal", por volta de 1750 antes de Cristo.
Como prevaleceria até a invenção do telégrafo, distribuíam-se
"postos", ou "estações", ao longo das estradas, nos quais
mensageiros trocavam de cavalo para prosseguir viagem.
No
século 13, Kublai Khan, neto de Gêngis Khan, teria espalhado 1.400 desses
postos pelo território chinês, separados por uma distância de no máximo 60
quilômetros. Mecanismos desse tipo estavam reservados, entretanto, para a
correspondência oficial e militar.
Na
Inglaterra, foi só em 1657 que se instituiu, por decreto do republicano Oliver
Cromwell, um serviço geral de correios aberto ao público. Daniel Defoe, no
começo do século seguinte, orgulhava-se de que em Londres, diferentemente das
outras grandes cidades do mundo, era possível mandar e receber cartas no mesmo
dia, em "quatro, cinco, seis ou oito horários diferentes". Cerca de 1
milhão de cartas circulavam pela Inglaterra em 1703, conta Simon Garfield.
Quase
dois séculos se passariam, entretanto, até que Oscar Wilde pudesse se dar ao
luxo de simplesmente jogar uma carta pela janela -confiando que o primeiro
passante que a visse na calçada teria a civilidade de colocá-la na caixa de
correio mais próxima.
Para
isso, os selos tiveram de ser inventados (em 1840, por Rowland Hill). O Brasil
foi o segundo país do mundo a adotá-los, em 1843.
Também
as caixas de correio tiveram de ser instituídas. Embora desde a Renascença
existissem recipientes postais nas igrejas para que os cidadãos se denunciassem
mutuamente, um mecanismo mais confiável só veio a ser implantado em Londres em
abril de 1855. O responsável pela inovação teria sido (a autoria é contestada)
um romancista vitoriano de peso, Anthony Trollope (1815-82) -o prolífico
escritor foi também funcionário dos correios por 33 anos.
As
curiosidades em torno do assunto são o forte, como se vê, de "Kind
Regards". O problema do livro de Williams é o seu ar de "manual do
escoteiro-mirim". Surgem coisas como uma tabela de como se diz
"carta" em diversas línguas do mundo ("dopis", em tcheco,
"barua", em suaíli), além de considerações do tipo "por que você
deveria escrever cartas": a resposta, segundo a autora, está em que
"bem escrita ou não, a carta proporciona uma conexão humana".
Trivialidades
desse tipo não ocupam o livro de Simon Garfield. "To the Letter" sabe
alternar com maestria o fatual e o comovente, e talvez nisso esteja o segredo
das cartas realmente memoráveis.
Não
faltam exemplos. Uma carta banalíssima -convidando para uma festa de
aniversário- ganha força quando sabemos que foi escrita numa tabuinha,
milagrosamente preservada nas terras úmidas do norte da Inglaterra, por Claudia
Severa a Lepidina, por volta do ano 100 d.C. "O dia será muito mais
prazeroso com a sua vinda", diz a aniversariante, no que provavelmente é
um dos primeiros exemplares de um texto manuscrito por uma mulher.
Outro
manuscrito impressionante, mas provavelmente forjado, é a carta de Ana Bolena a
Henrique 8º, protestando sua inocência ao marido, pouco antes de ser decapitada
na Torre de Londres. Um pouco menos deprimente é a correspondência entre
Napoleão e Josefina de Beauharnais, que vai da paixão mais obsessiva às
corteses tratativas de separação.
Ilustrações
(que, na versão física do livro, se veem um pouco prejudicadas pela qualidade
do papel) aparecem com regularidade em "To The Letter". Simon
Garfield é um entusiasta dos leilões de manuscritos, e agrega bastante suspense
ao livro contando de que modo alguns tesouros epistolográficos vieram a
público.
Um
desses tesouros é a correspondência da família Paston, que se estende por
várias gerações durante o século 15. "Estou comendo como um cavalo",
diz um rapaz da família em 1469; "estou sem cartas de você desde o Natal,
e meu coração não ficará sossegado se não receber notícias", diz Margaret
Paston ao marido.
PRESENÇA
As
notícias chegaram até nós. Mais do que a qualidade literária, certamente
notável nos grandes autores de cartas como Madame de Sévigné (1626-96),
Voltaire (1694-1778) ou William Cowper (1731-1800), o que chama a atenção
nessas correspondências preservadas é algo muito simples, e inimitável: a
presença da vida.
Sobre
William Cowper, uma boa e rápida introdução é oferecida por John O'Connell, em
"The Joy of Letters". O livro se divide nos diferentes tipos de
"alegria", ou contentamento, que as cartas são capazes de produzir.
Falando sobre "a alegria de coisa nenhuma", O'Connell dá exemplos
daquelas cartas em que nada de importante se comunica.
"Você
quer ter notícias minhas", escreve Cowper a William Unwin, em 1780.
"Essa é uma boa razão para eu escrever a você -mas não tenho nada a
contar- e essa é uma razão igualmente boa para eu não escrever a você. Mas, se
você tivesse desmontado do seu cavalo na nossa casa de manhã, e no momento em
que escrevo esta carta, às cinco da tarde, tivesse tido a oportunidade de dizer
para mim, sr. Cowper, o senhor nada disse desde que eu entrei, está determinado
a nunca mais falar comigo?, seria uma péssima réplica se, ao atender a sua
convocação, eu mencionasse a falta de coisa importante como minha melhor e
única desculpa..."
E
por aí ele vai, bordando o texto em torno de nada. Dos livros aqui comentados,
o de John O'Connell é, sem dúvida, o mais "literário", menos
interessado em descobertas históricas do que na graça, na eloquência, no gênio
dos grandes missivistas.
Já
Simon Garfield, num livro mais extenso, dá atenção ao que, mesmo na
correspondência entre excelentes escritores, faz parte do cotidiano trivial da
humanidade, sem grandes diferenças ao longo dos séculos.
As
mesmas queixas quanto à demora em responder, as mesmas desculpas por não ter
tido tempo, as mesmas preocupações com a saúde dos parentes, os mesmos desejos
de que tudo corra bem, a mesma perplexidade diante da morte, os mesmos pedidos,
ciúmes e promessas atravessam as linhas escritas por Plínio, o Moço ("como
é que você não apareceu para jantar ontem?", pergunta ele a Septício
Claro, por volta de 100 d.C) e Henry Miller (1891-1980), lamentando que sua
amada Anaïs Nin tenha saído para jantar com a família em vez de ficar com ele.
Lugares-comuns,
sem dúvida -mas que ganham calor e pulso a cada novo contexto. Para quem
conhece os extraordinários quadros em que Van Gogh retratava apenas um par de
sapatos velhos, a simplicidade do menor testemunho de vida sempre há de se
cobrir de um grande valor. Ainda mais quando, num dia especialmente animado,
Vincent se despede de Theo anunciando que irá em seguida se dedicar a uma
tarefa que estava adiando há muito tempo: engraxar as próprias botinas.
Esse
tipo de informação há de ser mais raro hoje em dia. Não apenas pela brevidade
das palavras de um e-mail, ou pela ausência de uma materialidade que nos
permita guardar (em caixas de sapato, por que não?) documentos tão
corriqueiros. É que o e-mail não prevê grande intervalo entre a mensagem e a resposta
nem a ociosidade da espera nem o acúmulo de pequenos nadas que, uma vez
reunidos, compõem as páginas das melhores cartas.
Na
questão da brevidade, entretanto, nem mesmo o Twitter rivaliza com a troca de
mensagens que se deu entre Victor Hugo (1802-85) e seu editor, depois do
lançamento do romance "Os Miseráveis". O escritor estava ansioso para
saber como andavam as vendas. Mandou uma carta curtíssima: "?". A
resposta veio no mesmo tom: "!".
É
novamente Simon Garfield quem conta essa história. Seu "To the
Letter" merece o mesmo sinal gráfico -ou, mais de acordo com os dias que
correm, uma boa "curtida" no Facebook.
MARCELO COELHO, 55, é colunista da
Folha.
PAULO BRUSCKY, 65, é artista
plástico e tem trabalhos em arte postal. Sua obra "Limpos e Desinfetados"
está na mostra "Poder Provisório", no MAM-SP até 15/6.
[Ilustrações: PAULO BRUSCKY - fonte:
www.folha.com.br]


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