Em 'Tradução', Tiago Rodrigues interpreta Joaquim, um intérprete da
União Europeia. O texto é de Jacinto Lucas Pires. Hoje e amanhã, na
Culturgest, em Lisboa.
| O coro do espetáculo 'Tradução' |
Por Maria João Caetano
Joaquim é um tradutor da União
Europeia, habituado a ouvir nos seus auscultadores palavras em línguas
estrangeiras sobre pescas e comércio e a traduzi-las para português. "É
uma infelicidade Portugal estar na União Europeia", disse o deputado
alemão. Uma infelicidade? As reações a esta declaração não se fazem
esperar. O Parlamento Europeu entra em reboliço. Os diplomatas exigem
explicações. Os presidentes emitem declarações. Fazem-se ameaças. Os
jornais em alvoroço. A Europa à beira de uma terceira guerra mundial. E,
no seu canto, Joaquim duvida: "Unglück. Foi o que o deputado disse.
Unglück. Uma infelicidade. Ou terá sido felicidade?"
Pode um problema de tradução causar uma crise política? Este é o ponto de partida de Tradução,
o espetáculo criado pelo escritor Jacinto Lucas Pires e pelo ator e
encenador Tiago Rodrigues. No palco, Tiago é Joaquim, acompanhado por um
coro de 80 alunos da Escola Superior de Música, dirigido pelo maestro
Paulo Lourenço.
Há aqui uma ideia política que lhes interessava
explorar. "O erro levou a uma discussão e isso foi importante, porque
pôs as pessoas a questionar se esta era a Europa que queriam. A
interpretação é isso. É a possibilidade de conversar com o outro, que é
diferente, é a procura de um entendimento, uma negociação", explica
Tiago Rodrigues. "Eu gosto dessa Europa poliglota e caótica, onde é
necessária tradução."
Em Interpretação, o drama da Europa é
atravessado pelo drama pessoal do intérprete, que anda a tentar
encontrar-se (literalmente). A história oscila entre o individual e o
coletivo, também como uma forma de "fazer a ponte entre a grande
construção política de uma União Europeia e a felicidade concreta das
pessoas", explica. Tudo com uma dose q.b. de humor.
O coro traz
consigo a dimensão coletiva - da multidão que se movimenta nesta Europa -
mas é também o coro que comenta a ação, como na tragédia grega. E que
traz ainda a música. Ouve-se música da Bach e de Verdi, sons de toda a
Europa e até um "hino da alegria estatística", tudo com as letras
divertidas de Jacinto Lucas Pires.
[Fonte: www.dn.pt]
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