segunda-feira, 7 de abril de 2014

Um erro de 'Tradução' pode dar origem a uma crise política?

Em 'Tradução', Tiago Rodrigues interpreta Joaquim, um intérprete da União Europeia. O texto é de Jacinto Lucas Pires. Hoje e amanhã, na Culturgest, em Lisboa.

O coro do espetáculo 'Tradução'
Por Maria João Caetano 

Joaquim é um tradutor da União Europeia, habituado a ouvir nos seus auscultadores palavras em línguas estrangeiras sobre pescas e comércio e a traduzi-las para português. "É uma infelicidade Portugal estar na União Europeia", disse o deputado alemão. Uma infelicidade? As reações a esta declaração não se fazem esperar. O Parlamento Europeu entra em reboliço. Os diplomatas exigem explicações. Os presidentes emitem declarações. Fazem-se ameaças. Os jornais em alvoroço. A Europa à beira de uma terceira guerra mundial. E, no seu canto, Joaquim duvida: "Unglück. Foi o que o deputado disse. Unglück. Uma infelicidade. Ou terá sido felicidade?"

Pode um problema de tradução causar uma crise política? Este é o ponto de partida de Tradução, o espetáculo criado pelo escritor Jacinto Lucas Pires e pelo ator e encenador Tiago Rodrigues. No palco, Tiago é Joaquim, acompanhado por um coro de 80 alunos da Escola Superior de Música, dirigido pelo maestro Paulo Lourenço.

Há aqui uma ideia política que lhes interessava explorar. "O erro levou a uma discussão e isso foi importante, porque pôs as pessoas a questionar se esta era a Europa que queriam. A interpretação é isso. É a possibilidade de conversar com o outro, que é diferente, é a procura de um entendimento, uma negociação", explica Tiago Rodrigues. "Eu gosto dessa Europa poliglota e caótica, onde é necessária tradução."

Em Interpretação, o drama da Europa é atravessado pelo drama pessoal do intérprete, que anda a tentar encontrar-se (literalmente). A história oscila entre o individual e o coletivo, também como uma forma de "fazer a ponte entre a grande construção política de uma União Europeia e a felicidade concreta das pessoas", explica. Tudo com uma dose q.b. de humor.

O coro traz consigo a dimensão coletiva - da multidão que se movimenta nesta Europa - mas é também o coro que comenta a ação, como na tragédia grega. E que traz ainda a música. Ouve-se música da Bach e de Verdi, sons de toda a Europa e até um "hino da alegria estatística", tudo com as letras divertidas de Jacinto Lucas Pires. 

[Fonte: www.dn.pt]

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