Na Faculdade de Direito
da Universidade de Lisboa discutiu-se no passado mês de fevereiro o
processo político na Catalunha. Foi uma importante iniciativa
universitária: com grande alcance nas relações de Portugal com a
Espanha; para a compreensão do papel estratégico de Portugal nos
equilíbrios peninsulares; e para acentuar o contributo que podemos dar
no debate sobre as nações na Europa dos Estados.
A Faculdade de Direito de Lisboa (FDL), com apoio do seu Reitor, Prof. Doutor António Cruz Serra, tem procurado - nas colaborações institucionais que recebe - concretizar a missão da Universidade, nomeadamente na abertura à comunidade e aos problemas actuais franqueando as portas das Escolas aos intervenientes políticos, culturais, económicos e sociais e levando o conhecimento que nelas se produz àqueles que vão assistir a cursos, conferências, seminários; e à comunidade em geral através dos meios de comunicação social.
Tratou-se
de uma iniciativa académica, no âmbito do Direito e da lei, procurando
conhecer e compreender as razões e as circunstâncias políticas que
determinaram as normas jurídicas vigentes aplicáveis ao caso da
Catalunha; os efeitos resultantes da aplicação actual dessas normas na
interpretação que lhes é dada pelos vários protagonistas institucionais,
nomeadamente o tribunal constitucional espanhol; e as razões e
motivações políticas e sociais, com expressão normativa, que dividem as
partes em confronto, ditando os argumentos para manter ou alterar tais
normas no futuro próximo. Este é um tema jurídico para que as Escolas Universitárias de Direito são convocadas.
O
Direito é um instrumento da paz e, em Estados de Direito, só pela paz
assente em normas jurídico-legais consensualmente aceites (pelo trabalho
político que as precede) se pode garantir
a ordem e a convivência entre pessoas e comunidades, sobretudo na
Europa da UE. Da mesma forma, é através da melhor interpretação jurídica
dessas normas legais
pelas instituições judiciais competentes e independentes que se garantem a
isenção e a imparcialidade das soluções encontradas e a possibilidade
do seu acatamento por todos (sobretudo por aqueles que se sentem
prejudicados por elas). Na Universidade sabemos isso e não abdicamos de o
conseguir, responsabilizando os decisores.
Ora, ao tratar como tratou a questão da Catalunha, com os
intervenientes que participaram e pela forma como o fizeram, com as
temáticas colocadas com especialização e cultura e com as conclusões a
que se chegou, o evento que teve lugar na FDL escreveu mais uma página
da história recente do contributo da Universidade Portuguesa para a
maturidade democrática do País e a sua independência. Numa Universidade
descaracterizada pelas más decisões de quem governa e legisla,
desprestigiada no discurso oficial, com a sua autonomia ameaçada e sem
condições para cumprir a sua missão, a Academia continua a prestar
serviço público e a responder aos desafios mais difíceis. Temas como
este requerem a serenidade e o distanciamento que o cenário académico
convoca e a sabedoria que traz o tempo e o pensamento de quem ensina. É
aí que a FDL responde e corresponde.
Tentar silenciar um tema com
esta importância e dimensão só porque isso parece ser da conveniência do
Governo de Espanha; ceder a eventuais pressões da sua diplomacia para
que a Universidade não o discuta; seguir a “directiva” da Comissão
Europeia sobre o tema como uma “restrição aceitável” ao que se discute
ou não discute; entender como “propaganda independentista” qualquer
iniciativa que trate o assunto; confundir legítimos posicionamentos
pessoais sobre as reivindicações políticas dos catalães com análises
preconcebidas, preconceituosas e parciais sobre o que se passa em
eventos académicos sobre o tema; aceitar que a manipulação da História
pelos partidários de causas políticas estadualistas ou nacionalistas é
feita apenas por uma das partes – são atitudes que fazem parte de uma
história superada e de um passado que não queremos repetir. As regras
legais, mesmo as fundamentais, são questionadas e debatidas na
Universidade num contraditório que é a ética da Política e o modo de ser
do Direito. A FDL está nesse futuro.
A Universidade portuguesa e o ensino superior universitário
do Direito feito nas suas Faculdades estão bem integrados num Portugal
independente, livre e democrático, sem complexos, servidões ou
exclusões; praticam a liberdade académica e institucional como condição
sine qua non da liberdade de aprender e de ensinar; e prestam serviço
público aos portugueses, participando com os seus saberes da actualidade
do mundo e abrindo as suas portas aos que no mundo intervêm, propõem e
decidem. O processo político na Catalunha é um assunto da Universidade e
os universitários portugueses, sobretudo os professores de Direito,
continuarão a acompanhar, a discutir e a estudar esse tema na
Universidade e em Lisboa. Para estas conversas estão, como sempre
estiveram, convidados todos os que acreditam no Direito como instrumento
fundamental da justiça e da paz e na Universidade como lugar de ciência
e de cultura onde o saber é partilhado e utilizado em prol das decisões
mais adequadas.
Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (FDL)
[Fonte: www.publico.pt]
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