sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Bloqueio de Leningrado impediu primeira edição em verso dos "Lusíadas" em russo

O bloqueio imposto pelas tropas alemãs à cidade soviética de Leningrado, que começou em 1941 e se prolongou por 872 dias, impediu a publicação da primeira edição em verso dos "Lusíadas", obra épica de Luís de Camões, em russo.



A tradução, realizada pelo filólogo russo Mikhail Travchetov, estava praticamente acabada e pronta a ser editada pela editora Lenizdat, mas o cerco nazista não só impediu a sua publicação, como matou o seu tradutor.

Mikhail Travchetov nasceu em São Petersburgo, em 1889, dedicando grande parte da sua vida ao ensino de Literatura nas escolas soviéticas e à tradução para russo de autores estrangeiros como Pierre Jean de Béranger, Lope de Vega, Calderón de la Barca, Lord Byron e Camões.

Em 1940, Travchetov terminou a principal obra da sua vida, a tradução de português para russo dos "Lusíadas" de Camões. O redator dessa edição, professor Alexander Smirnov, considerou-a “um acontecimento na literatura traduzida para russo”.

O texto da tradução foi entregue na tipografia na primavera de 1941, mas a invasão da União Soviética pelas hordas hitlerianas adiou a sua publicação.

Andrei Rodossky, professor de língua e literatura portuguesas da Universidade de São Petersburgo (antiga Leningrado), citando as palavras da irmã do tradutor, escreve que “o manuscrito que fora entregue à editora Lenizdat desapareceu durante o bloqueio”.

Porém, conservaram-se os cadernos com os rascunhos da tradução, que atualmente fazem parte do espólio da Biblioteca Nacional da Rússia, em São Petersburgo. Alguns dos fragmentos da tradução foram publicados na obra “Literatura Estrangeira. Época do Renascimento”, com edições em 1959 e 1976.

Não obstante ter sido publicada em russo uma tradução integral do poema épico camoniano em 1988, o professor Rodossky defende que a versão poética de Travchetov não deve ser esquecida e merece ser impressa, pois possui grandes qualidades.

Depois de analisar as virtudes e defeitos da tradução de Travchetov, Rodossky conclui: “as qualidades da tradução são bastante grandes e resta apenas lamentar que ela não tenha sido publicada até agora”.

É também de salientar que a Travchetov traduziu outras obras do poeta português, nomeadamente os seus sonetos.

O destino do próprio tradutor russo foi tão dramático como o da sua obra. Tendo-se recusado a abandonar Leningrado, tal como fizeram o grande compositor soviético Dmitri Shostakovich e numerosos outros intelectuais, ficou livre do serviço militar por questões de saúde, mas inscreveu-se como bombeiro no Serviço de Defesa Anti-Aérea e Anti-Química da União Soviética.


Entre outras tarefas, os membros desse serviço deviam, nos telhados da cidade, vigiar a queda de bombas incendiárias lançadas pela aviação alemã a fim de as recolher rapidamente e impedir incêndios de edifícios. Em 1942, a revista norte-americana publica, na capa de um dos seus números, o retrato de Shostakovich com o capacete de bombeiro.

Mikhail Travchetov faleceu em dezembro de 1941, quando regressava de um turno de vigilância noturna.

Segundo fomos informados, o professor Andrei Rodossky está preparando a edição dessa tradução dos "Lusíadas", que, dentro em breve, poderá ficar acessível aos leitores. 

[Foto: cidmarcus.blogspot.ru - fonte: portuguese.ruvr.ru]

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