Renomado músico e compositor uruguaio está em Caracas cantando por
Maduro e pela integração latino-americana.
Leonardo Wexell Severo e Vanessa Silva, de Caracas - Venezuela
Autor de
clássicos latino-americanos como “A desalambrar”, “Canción para mi
América” e “El Chueco Maciel”, Daniel Viglietti dispensa comentários
pela beleza e contundência de suas canções. Uruguaio de nascimento, mas
filho da “nossa América” – como faz questão de dizer para contrapor-se
àquela do Império –, tem sua reconhecida e premiada obra embalado
corações, animando o amor e a luta presentes, com seu canto armado de
futuro.
No Brasil, infelizmente, a lógica anti-integracionista e
alienante dos grandes conglomerados de comunicação silenciam sua voz e
seus dizeres, repletos de convicção no ser humano, na força da
solidariedade e da unidade. Confiante na capacidade coletiva de romper
barreiras e superar desafios, Viglietti está em Caracas, apoiando a
eleição de Nicolás Maduro.
Entre os muitos êxitos da revolução
bolivariana está o avanço da reforma agrária, o combate ao latifúndio, e
a distribuição de terra e justiça. Aqui o governo não empanturra com
dinheiro público o agronegócio – com seu monocultivo e seus agrotóxicos –
nem dá sinal verde à especulação com alimentos nas bolsas de valores. A
reforma agrária é justa e necessária, sublinha Viglieti. Afinal, “si
las manos son nuestras/es nuestro lo que nos den”.
Abaixo, a entrevista com Daniel Viglietti.
ComunicaSul – Companheiro Daniel, tens em tuas canções a marca da integração e da solidariedade. Como sentes esta responsabilidade?
Daniel Viglietti
– Sempre senti que tinha duas pátrias. Uma, a de nascimento, o Uruguai,
e outra pátria a latino-americana que gosto de chamar de
“nuestroamericana” (nossamericana). Inventei esta palavra a partir da
expressão de José Martí [que contrapunha a Nossa América, a América
deles, do império do Norte]. Percebi que as fronteiras são artificiais
além da língua e da cultura, que têm seu peso em diferentes regiões, mas
estas fronteiras, as aduanas, os escritórios de imigração são invenções
feitas para nos dividir. Quando entro no Brasil, na Venezuela, em Cuba
ou em tantos países progressistas, sinto que é irreal precisar de
passaporte. A canção não tem que pedir vistos para entrar em lugar
nenhum. A música entra naturalmente e, quando é necessário, se traduz,
como fiz como algumas canções do meu amigo Chico Buarque.
A circulação
de música, da cultura, é totalmente livre. No entanto, me sinto cada vez
mais “nuestroamericano”, embora meu nascimento, minha nacionalidade
seja uruguaia.
Na Venezuela o governo
Chávez tomou medidas como a Lei de Responsabilidade Social em Rádio e
Televisão (Resorte), que ampliou os espaços para a música nacional e
regional no conjunto dos meios de comunicação, o que fez aflorar uma
variada gama de artistas. Como avalia esta medida?
Há um processo de transformações, com tendência revolucionária na
Venezuela que tem a ver com a luz que ilumina o invisível em muitos
planos. Dos povos originários, das classes populares, das populações
chamadas “marginais”, quando na verdade elas são fruto de sistemas que
marginalizam as pessoas. O invisível da cultura é uma das luzes que este
processo está identificando, dando voz a cantores, grupos, coletivos...
Há um caso muito importante aqui na Venezuela da geração de Alí
Primera, Cecília Todd, Lilia Vera, e fenômenos mais jovens, garantia da
continuidade. Isso nos mostra como a cultura pode se renovar e de como é
bom que a cultura - não necessariamente panfletária ou
supraoficialista, mas a criativa, que busque linguagens - fique
iluminada por estes processos. Há aí um contraponto à concepção
reacionária, baseada em valores que semeiam a escuridão.
Na
sua compreensão, qual o papel da democratização da comunicação para que
nos conheçamos melhor, enquanto países e povos, já que a grande mídia
trabalha dia e noite contra a integração?
Creio que também este aspecto está ligado ao anterior: cultura e
comunicação. Acho que uma proposta como a TeleSUR, que é um canal
“nuestroamericano”,onde as pessoas podem se informar sobre o que passa
no continente, deveria ser vista livremente em nossos países. Cito o
caso de Montevidéu. Na capital uruguaia, para poder ver a TeleSUR tens
que alugar um cabo argentino. São medidas que faltam ser tomadas. Esse é
um exemplo claro do que é possível fazer em matéria de comunicação.
Estou contente de trabalhar com a Rádio Nacional da Venezuela com o
programa Tímpano, que também se faz no Uruguai, na Argentina, Quem sabe
um dia teremos também no Brasil, com “legendas” [risos]. Estou contente
de estar aqui com os sem-terra, porque sei o que significa em um país
continente como o Brasil a luta por mais justiça, pela distribuição da
terra, metaforicamente pela distribuição “da selva”. Me alegro desta
coincidência. Venho do Uruguai onde se fez uma homenagem a Chávez em um
povoado pequeno que se chama Bolívar e nosso presidente esteve presente.
E homenageou também cantando a memória de Chávez. Eu estreei uma canção
que coloquei o nome bolivariana. A cantei ontem na TeleSUR e cantarei
hoje. Creio que será o maior ato do qual terei participado em minha vida
e terei que tratar de cantá-la com um quatro. É um instrumento de
grande riqueza, eu o uso modestamente, mas dá um colorido diferente para
a canção. É uma honra estar aqui com todos que apoiam esta eleição, tão
limpa que foi até elogiada pelo ex-presidente dos EUA, Jimmy Carter.
Frente ao cinismo, a desfaçatez e ao ódio destes que são capazes de
coisas terríveis - e temos que estar atentos a isso –precisamos
continuar unidos. Logo nos veremos em meio à alegria coletiva.
[Foto: Joka Madruga - fonte: comunicasul.blogspot.com]

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