No passado dia 7 de setembro, dia da Independência do Brasil, começaram as comemorações do Ano de “Portugal no Brasil” e do “Brasil em Portugal”. O momento foi assinalado com um caloroso concerto das cantoras Roberta Sá e Mariza, em Brasília. Mas este momento veio também reavivar uma ferida histórica entre os dois países.
Nos idos anos 90, os dentistas brasileiros, que se queriam estabelecer em Portugal tiveram sérias dificuldades na sua certificação profissional. Agora, são os engenheiros portugueses que enfrentam igual dificuldade no seu reconhecimento no Brasil.
Gostaria de apresentar cinco motivos para que a certificação profissional dos jovens engenheiros portugueses seja encarada como algo que interessa ao Brasil e não com o peso de um episódio triste, que deveria ter sido evitado.
O primeiro motivo é a formação acadêmica. Portugal tem excelentes escolas de engenharia e forma anualmente bons profissionais. Um indicador da boa formação de base que acompanha os engenheiros portugueses é o resultado dos últimos testes de PISA da OCDE, em que Portugal ficou classificado entre a 27ª e a 33ª posições (leitura, ciências naturais e matemática). O Brasil ficou entre a 53ª e a 57ª posições.
O segundo motivo é o custo. Os engenheiros portugueses são mais baratos, em média, do que os engenheiros brasileiros. Em recente conferência realizada em São Paulo, um empreendedor brasileiro explicou que consegue contratar um engenheiro português por metade do custo de um brasileiro.
O terceiro motivo prende-se com a necessidade. O Brasil tem um plano ambicioso para o desenvolvimento de infraestruturas de energia, transporte, mineração, etc. Estima-se que o Brasil precisaria de 100 mil novos engenheiros civis em 2011, no entanto, formam-se anualmente cerca de 40 mil.
Ou seja, existe um déficit de mão de obra qualificada, que constituirá, se não for reduzido a tempo, um gargalo para o desenvolvimento do país.
O quarto motivo é a inflação do mercado de trabalho. Nos últimos anos o chamado “apagão da mão de obra” tem gerado uma pressão desmedida sobre os salários de pessoas com formação superior. A aceitação de engenheiros estrangeiros (não só portugueses) poderia ajudar a aliviar este ímpeto inflacionista.
O quinto motivo é de natureza mais sociológica, mas é um em que acredito profundamente. Uma das forças do povo brasileiro é o seu patrimônio genético. O cruzamento de raças que formou o Brasil dá-lhe a força de um continente de diversidade.
A capacidade de acolher e integrar a “estrangeiridade”, como lhe chama o filósofo polonês Zygmunt Bauman, ajudará a abrir o Brasil ao mundo.
Em suma, nós portugueses temos de reconhecer a infelicidade do episódio dos dentistas, que levou 10 anos para resolver. A par dos EUA e da Austrália, o Brasil é dos países mais desenvolvidos em tratamentos odontológicos.
Portugal foi beneficiado com a presença de dentistas brasileiros em seu território. O Brasil, por sua vez, pode dar mostras de elevação, ultrapassando este histórico desagradável e acolhendo, sem mágoas, os engenheiros portugueses.
É do seu interesse. Finalmente, como português, não posso deixar de agradecer publicamente a forma como sempre fui acolhido neste maravilhoso país. Obrigado, Brasil!
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Miguel Setas é vice-presidente de Distribuição e Inovação da EDP no Brasil
Brasil Econômico
[Fonte: blog.opovo.com.br/portugalsempassaporte]

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