domingo, 25 de novembro de 2012

Crise ameaça amputar parte da Espanha

Eleitores da Catalunha decidem hoje se querem, futuramente, fazer um referendo sobre sua independência do país
Candidato à reeleição, líder catalão pede 'maioria excepcional'; espanhóis temem que instabilidade aumente
Líderes pró-separação durante comício em Barcelona, anteontem; ao fundo, simpatizantes reproduzem a bandeira catalã
A crise econômica aparentemente inesgotável consumiu nos últimos cinco anos 3,5 milhões de empregos na Espanha. Fez também subir a patamares insuportáveis os juros para rolar a dívida. Como se fosse pouco, agora ameaça amputar um pedaço do país, sua parte nordeste, a rica e charmosa Catalunha.

Hoje, 5,4 milhões de eleitores catalães dão o que pode ser o primeiro passo para a futura convocação de referendo sobre a independência.

Formalmente, o voto é apenas para eleger o novo presidente da Generalitat, o governo catalão, já que o atual, Artur Mas, eleito em 2010, decidiu antecipar o pleito que, em teoria, seria apenas em 2014.

E agregou à convocatória um apelo para que os catalães lhe deem "uma maioria excepcional" para que possa, a partir dela, preparar o referendo de independência para algum momento dos próximos quatro anos.

Ou seja, a Catalunha não vai decidir hoje se quer a independência, mas vai decidir se quer ou não o direito a decidir, futuramente, se se separa ou não da Espanha.

Por isso mesmo, o presidente do governo espanhol, Mariano Rajoy, óbvia e furiosamente contra a independência, rotulou o voto de hoje como "mais importante que a eleição geral".

Tem razão: se o apelo de Mas for atendido pelo eleitorado, abre-se um período de instabilidade que é tudo o que a Espanha não precisa num momento de auge da crise e da pressão dos mercados.

Pior: se há controvérsias sobre se a Catalunha ganharia ou perderia com a independência, é certo que a Espanha perderá com a amputação de um pedaço de quase 20% da sua economia.

O que a crise tem a ver com a proposta de independência? Tudo. A coligação que Mas comanda (CiU ou Convergència i Unió) governou a Catalunha em todos os 35 anos que a Espanha leva de democracia, exceto um breve intervalo entre 2003/10.

Nunca propôs a independência, embora tenha sempre defendido a ampliação cada vez maior das competências do governo regional.

Agora, "a crise rompeu todos os equilíbrios existentes", escreve Carles Guell de Sentmenat, político centrista, contra a independência.

Quais as chances de Mas obter uma "maioria excepcional"? Aí, entra-se em terreno minado porque não se sabe se ele se refere ao voto exclusivamente na CiU ou em todos os grupos soberanistas.

A pesquisa mais recente dá a Mas apenas 62 cadeiras no Parlamento, número idêntico ao que obteve em 2010 e abaixo da maioria absoluta dos 135 lugares. "Será um grande fracasso de Mas se não obtiver a maioria absoluta", diz Xavier Vidal-Folch, colunista de "El País", orgulhosamente catalão, mas desconfiado dos nacionalismos.

O que complica a conta é que as pesquisas também apontam crescimento de duas outras forças políticas pró-independência (ERC, Esquerra Republicana de Catalunya, e SI, Solidaritat Catalana per la Independència). Os três grupos a favor da soberania teriam 82 cadeiras, bem acima das 68 que formam a maioria absoluta.

Nesse cenário, caberia aos radicais do ERC marcar o passo até o referendo, em vez dos moderados da CiU. Significaria evitar a indispensável negociação com o governo central para que a consulta sobre independência possa de fato se realizar só na Catalunha. A lei espanhola prevê que referendos do gênero envolvam todos os eleitores, não só os da comunidade interessada.

A independência pode estar longe, mas um bocado de confusão estará servido já na noite de domingo.
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Catalães querem se separar, mas permanecer na União Europeia
Mais que uma Catalunha independente, o que os catalães querem mesmo é o confortável regaço da mãe Europa: pesquisa do instituto Metroscopia, publicada por "El País", mostra uma maioria apenas relativa (46%) a favor da independência, maioria que desaparece quando a hipótese proposta é de a Catalunha independente ficar fora da União Europeia.

Nesse caso, 50% preferem manter a situação atual e apenas 37% ainda insistem na independência.

Por isso, o presidente da Catalunha, Artur Mas, vem tentando vender a ideia de que a Catalunha continuará, sim, na UE mesmo que se torne independente.

Não é verdade: Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, disse em Cádiz, no sábado passado, com toda a firmeza, que qualquer região que se separe de um país-membro do conglomerado europeu passará ao fim da fila no processo de readesão.

Significa tardar no mínimo dez anos para voltar.

O líder catalão Mas confia em um "jeitinho": "A União Europeia encontrará o modo de não perder um dos territórios mais prósperos da Europa, com 7 milhões de pessoa", disse em entrevista ao jornal "La Vanguardia", publicada anteontem.

Enquanto a saída e eventual reentrada na Europa ficam para depois, a conta mais imediata que agita os independentistas é simples, até simplória: uma Catalunha soberana ganharia, de saída, algo em torno de € 16 bilhões (R$ 42,5 bilhões), ou portentosos 8,4% de seu PIB (Produto Interno Bruto).

É a diferença, hoje, entre o que o poder central arrecada na Catalunha e o que devolve à comunidade.

Com esse dinheiro, em tese a nova Catalunha poderia ser menos rigorosa no ajuste orçamentário que já segue, em parte por iniciativa do próprio Mas, em parte por imposição do governo central.

Em contrapartida, uma Catalunha independente teria dívida de 94% do PIB -bem acima dos 79% da Espanha atual, que já tem problemas imensos para se refinanciar.

Além disso, perderia todos os benefícios da associação com a Espanha. "Não consigo ver onde estão os benefícios de trocar um mercado aberto de 47 milhões de consumidores [os espanhóis todos] por outro de 7 milhões [os catalães]", escreve o jornalista Fernando Ónega.

Acrescenta: "A Espanha seria também muito menor sem a rica contribuição catalã". Divórcio, pois, em que ambos perdem.

Por CLÓVIS ROSSI 

[Fonte: www.folha.com.br]

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