Sociólogo
tunisiano reflete sobre a sexualidade islâmica e mostra como há distorções nas
visões de ocidentais e dos próprios muçulmanos.
A sexualidade no Islã de Abdelwahab
Bouhdiba
Ed.Globo, 384 págs, R$ 36
Pode surpreender que, sendo o livro árabe
por excelência, o Alcorão não faça qualquer alusão a camelos. Contudo, essa
curiosa observação do historiador inglês Edward Gibbon levou Jorge Luís Borges
a concluir que a ausência de camelos é prova da autenticidade do texto escrito
por Maomé. Segundo o autor argentino, justamente por ser árabe, o Profeta
"não tinha motivos para saber que os camelos eram especialmente árabes;
sendo parte da sua realidade, ele não tinha porque os distinguir".
Em compensação, completa o
escritor nessa notável crítica ao senso comum, a primeira coisa que um
falsário, um turista ou um nacionalista teriam feito seria povoar cada página
do Alcorão de caravanas de camelos.
Ora, basta substituir os tais
camelos por odaliscas para sermos contemplados com imagens ditas
"típicas" da sexualidade no Islã. Imagens que incitam as fantasias do
Ocidente cristão há muitos séculos, no mais das vezes contribuindo para
aprisionar a alteridade árabe em lamentáveis clichês. Essas visões distorcidas,
cuja origem coincide com os interesses colonialistas, também cumprem o papel
perverso de transformar o Oriente islâmico em espaço projetivo dos recalques do
homem ocidental.
Disfarçado em outro, o
reprimido retorna com redobrado vigor, alimentando fantasmas e preconceitos,
como nossa atualidade dá provas de sobra.
Mas as distorções em torno da
sexua¬lidade no Islã, sobretudo nas últimas décadas, não se esgotam nas
representações que dela fazem os ocidentais. Em que pesem as manipulações
midiáticas, não se pode ignorar a hostilidade que uma expressiva parcela da
população islâmica vem demonstrando em relação ao sexo. São recorrentes os
registros da intolerância de muçulmanos que, atiçados por fundamentalistas,
castigam suas mulheres em espetáculos públicos de horror. Quanto aos
homossexuais, os costumes mostram-se ainda mais severos: considerado a torpeza
das torpezas, o homoerotismo chega a ser punido com a pena de morte.
Nada simples, portanto, o
desafio enfrentado pelo sociólogo tunisiano Abdelwahab Bouhdiba em A
sexualidade no Islã, que se propõe a investigar as práticas e representações
eróticas do mundo muçulmano. Nada simples, vale repetir, inclusive porque sua
opção em oferecer uma "visão de dentro", alheia aos habi¬tuais
clichês, não o leva a fazer vista grossa diante das barbaridades que vêm sendo
denunciadas pelo bloco ocidental.
Por isso mesmo, deve-se
saudar o lançamento deste livro no Brasil, que chega em boa hora, apesar de
passados mais de 30 anos de sua publicação original na França, em 1975. Com tradução
de Alexandre de Oliveira Torres Carrasco e revisão de Mamede Mustafa Jarouche,
tradutor da recente edição brasileira das Mil e uma noites, o estudo de
Bouhdiba já é considerado um clássico. Trata-se de uma notável suma da erótica
islâmica, que examina desde suas concepções tradicionais até seu complexo
contato com os imperativos das sociedades modernas, mas sem ceder às
interpretações comprometidas, seja com as tirânicas ocupações, seja com o
sectarismo fundamentalista.
Tendo o Alcorão como ponto de
partida, o autor interroga o impacto das escrituras no imaginário erótico
muçulmano, vasculhando o amplo tecido social que compõe o mundo árabe-islâmico.
Seu principal argumento gira em torno do lugar central que o erotismo ocupa no
Islã, desmentindo a imagem de uma religião assentada na repressão da
sexualidade. Bouhdiba observa que, ao contrário do cristianismo, o islamismo
não elege o prazer carnal como origem do pecado, uma vez que afirma o gozo do
corpo como uma espécie de fonte e de prova da existência do poder divino de
Alá.
Dessa afinidade entre o
sexual e o sagrado decorre a concepção de que o exercício erótico é uma forma
de prece. Por isso, segundo a bela interpretação do autor, o Islã não só aceita
e recomenda as alegrias do sexo, como também incentiva as técnicas de sua
constante renovação: "O tempo do amor é um magnífico arabesco no qual o
fracasso próximo é sempre evitado e a realização, uma vez alcançada, faz-se um
ponto de partida para outro recomeço. Apenas a prece da alvorada pode pôr termo
à sábia utilização da noite".
Entende-se por que os
procedimentos amorosos são alvo de intensa ritualização nessas tradições,
caracterizadas por requintes pouco cultivados entre nós. Cumpre dizer, nesse
sentido, que as descrições desses procedimentos compõem algumas das passagens
mais encantadoras do livro, oferecendo ao leitor uma possibilidade de entrar em
contato com a rica, delicada e sofisticada simbologia que envolve a matéria
sexual na sensibilidade muçulmana.
Exemplo de tal refinamento
pode ser encontrado nas formas simbólicas de diferenciação dos sexos, tópico
essencial da vida islâmica. Os muçulmanos não medem esforços para dar evidência
à dicotomia entre o masculino e o feminino, o que resulta em rígida
regulamentação da vestimenta e dos cuidados corporais. Daí a interessante
oposição entre a barba e o véu - principais símbolos da virilidade e da
feminilidade -, que transfere para os rostos as marcas sexuais distintivas de
homens e mulheres.
A barba se destina
fundamentalmente a exibir a masculinidade. Motivo de orgulho e objeto de
redobrada atenção, o modelo canônico prescreve que ela deve ser longa, mas
aparada, escovada, alisada e também perfumada. Conta Bouhdiba que o próprio
Profeta costumava pentear sua barba 40 vezes por cima e outras 40 por baixo,
sustentando que essa prática servia para aumentar a vivacidade da inteligência
e para suprimir as secreções do corpo. Inspirados nas recomendações de Maomé,
vários textos sagrados associam o comprimento da barba à amplitude da razão,
estabelecendo uma correspondência estreita entre ela e a autoridade, a
sabedoria e o poder.
Tema obrigatório dos
tradicionais tratados de fisionomia árabe, a barba indica igualmente a posição
social de seu portador. Trata-se de um reconhecimento imediato, dado pelo
tamanho, forma e cor, como confirma a curiosa passagem de um livro citado pelo
autor: "Um burguês apresenta uma bela barba semilonga tingida de azul, ou
de verde, ou de vermelho. Reconhece-se um trabalhador ou um escravo por uma
pequena barba bastante curta. Os notáveis e as pessoas que exercem profissões
liberais, médicos, qádís, professores, imãs, têm a mandíbula ornada de uma
longa barba branca como neve, enquanto a dos militares se divide em dois tufos
do mais belo negro".
Tudo isso concorre para que a
quantidade de pêlos na face torne-se objeto de orgulho dos adolescentes, que os
aguardam ansiosamente, assim como dos homens maduros, que se valem dela como
veículo de sedução ou signo de prestígio. Em suma, como conclui o autor, há um
inegável fetichismo do pêlo no Islã, cuja significação é simultaneamente sexual
e religiosa. Num sentido mais amplo, a barba participa do imperioso fetichismo
da vestimenta, instrumento do pudor que deve dissimular o corpo e, ao mesmo
tempo, refletir a dicotomia sexual do universo.
Sua contrapartida, oposta e
complementar, é o véu, cujo valor também ultrapassa o simples nível utilitário
para desdobrar-se em uma verdadeira teologia da manutenção da pureza feminina.
Símbolo renovado do Islã, o véu encontra-se no centro de uma poderosa mitologia
que tem sua origem nas recomendações do Alcorão, voltadas para os crentes em
geral e as mulheres em
particular. Lê-se no livro sagrado, reproduzido por Bouhdiba:
"Diga aos crentes que eles baixem seus olhares e que sejam castos. Será mais
decente para eles. Alá está bem informado do que eles fazem. Diga às crentes
para baixarem seus olhares, para serem castas, para não mostrarem de seus
atributos senão o que aparece. Que elas rebatam seus véus sob suas
gargantas!".
Diferentemente da barba, que
convoca o olho, o véu subtrai da vista as formas femininas, reiterando as
advertências religiosas nas quais a visão aparece quase sempre como sinônimo de
pecado. Descobrem-se aí traços da inexorável lei da separação dos sexos que
impele a socialização muçulmana a um aprendizado preciso e minucioso sobre como
olhar e como ser olhado. Não estranha que, para compensar as severas exigências
dessa sociedade que codifica a visão nos menores detalhes, "a poesia árabe
seja um hino aos olhos e uma sinfonia do olhar", como recorda o autor.
O contraste entre a barba e o
véu, aqui resumido de forma breve, é apenas um entre os diversos tópicos que
Bouhdiba explora com particular encanto e rigor. Ainda que todos eles despertem
o interesse do leitor, essa única oposição basta para dar evidência à rígida
hierarquia entre os sexos nessas sociedades. A revelação de sua densidade
simbólica requer a superação dos lugares-comuns ocidentais, ao mesmo tempo em
que atenta para a complexidade que envolve a questão nos dias de hoje. Por isso
mesmo, o grande mérito do livro está em expor o dilema do Islã dentro de um
mundo globalizado, sem deslizar em fórmulas fáceis.
Esse dilema, segundo o
sociólogo, tem travado a renovação da teologia islâmica. Provas disso também
são abundantes na atualidade, tal como a inexistência de um estatuto da mulher
muçulmana, que acabou por transformá-la num objeto de fruição, reduzindo-a a
mera condição de reprodutora. "Por um lado, a insistência constante em
cantar a sexualidade, por outro, o dimorfismo sexual" que esvazia a
feminilidade de seu valor, reprimindo o potencial erótico dessa parcela da
população condenada ao silêncio. Como então evocar o Eros paradisíaco da visão
alcorânica, se as mulheres que se rebelam contra o modelo hegemônico são cruelmente
apedrejadas e mortas nas ruas?
Acredita o autor que o
despreparo para dialogar com as sociedades modernas, somado à preocupação em
defender uma doutrina visada por todos os lados, levou o muçulmano a
privilegiar "as formas exteriores da atividade sexual em vez de se ligar à
alma que deve animá-la". Se o fundamentalismo, atiçado pela violência das
sucessivas ocupações, acelerou o processo de destruição dos valores originais
do islamismo, a obsessão atual pela pureza vem trazendo conseqüências perversas
aos fiéis. Enfim, na impossibilidade de adequar qualquer prática erótica aos
inatingíveis ideais religiosos, assiste-se hoje à patética substituição de um
erotismo alegre por uma sexualidade vivida com culpa.
A refinada arte erótica do
Oriente parece estar ameaçada. O amor islâmico corre o risco de tornar-se pura
mistificação. De fato, para Bouhdiba o grande perigo que ronda as sociedades
muçulmanas é a "cretinização pelo sexo". Se esse desolador
diagnóstico estiver certo, é bem provável que em breve os textos árabes venham
a ser colonizados por caravanas de camelos e legiões de odaliscas.
Por Eliane Robert Moraes
[Fonte: www.uol.com.br]


Sem comentários:
Enviar um comentário