A extrema-direita alemã lidera as sondagens para a eleição de 6 de setembro com grande vantagem e a possibilidade de formar governo sozinha neste estado do leste do país é real, pela primeira vez desde a derrota do fascismo alemão.
Ulrich Siegmund, candidato da AfD, num comício com apoiantes. Foto publicada nas suas redes sociais.
Escrito por Harald
Wolf
Membro do partido Die Linke
Três eleições
regionais em setembro poderão alterar profundamente a paisagem política da
Alemanha. A 6 de setembro realizam-se eleições no Estado federal da Saxónia
Anhalt, no leste da Alemanha, e duas semanas mais tarde em Mecklenburg
Vorpommern e em Berlim. Na Saxónia Anhalt e em Mecklenburg Vorpommern, a AfD de
extrema-direita lidera as sondagens com uma vantagem clara sobre todos os
outros partidos. Muito diferente é a situação em Berlim, onde Die Linke se
encontra à frente e luta para assumir a chefia do governo. Por mais diferentes
que sejam as evoluções nos dois estados federais do leste da Alemanha, por um
lado, e em Berlim, por outro – elas são expressão da enorme perda de confiança
no governo alemão e do declínio dos partidos que o sustentam, a CDU e o SPD.
As eleições na
Saxónia-Anhalt encontram-se no centro da atenção pública. A AfD lidera as
sondagens com larga vantagem, com mais de 40 %, muito à frente dos restantes
partidos. Até mesmo uma maioria absoluta e um governo exclusivamente
constituído pela AfD é um perigo real. Isto representaria uma profunda rutura,
caso, pela primeira vez desde a derrota do fascismo alemão, um partido de extrema-direita
voltasse a alcançar o poder governamental.
A AfD quer uma
viragem nacionalista
O programa de
governo da AfD é um programa de transformação radical e autoritária do Estado.
A sua proposta principal é uma “viragem de 180 graus na política migratória” e,
consequentemente, uma “ofensiva de deportação e remigração”. A radiodifusão
pública, independente do Estado e dos partidos políticos, criada como
consequência da experiência da propaganda fascista estatal do
nacional-socialismo alemão, deverá ser transformada numa “rádio da pátria” de
âmbito regional. Às poucas vozes críticas de esquerda, como a rádio
independente Corax, deverão ser retirados os apoios financeiros.
Deverá ser criado um instituto regional para a formação política e cultural,
destinado a transmitir uma “cultura nacional e patriótica”. Na política
educativa, o “amor à pátria” deverá ser imposto por lei, a bandeira nacional
deverá ser hasteada diariamente e a inclusão das pessoas com deficiência deverá
ser abolida. A atribuição de verbas às instituições de ensino superior deverá
depender, entre outros fatores, de estas deixarem de transmitir conteúdos que
ponham em causa os papéis tradicionais de género. Desta forma, os estudos de
género e a investigação científica sobre o género deverão ser impedidos. Ainda
mais perigoso, e pouco referido publicamente, é o projeto de criar,
paralelamente à polícia, uma “guarda de cidadãos” voluntária – um campo de
atuação ideal para grupos de choque fascistas.
O que
significaria um governo da AfD?
Se a AfD
obtivesse, nos estados federais, o controlo do aparelho de Estado, teria nas
suas mãos os instrumentos necessários para concretizar todos estes objetivos.
Se a AfD ocupar as posições-chave do poder governamental, também significaria
uma ameaça individual para muitas pessoas: na mira estarão sobretudo migrantes
e pessoas queer, mas também
trabalhadoras de casas de abrigo para mulheres, sindicalistas, professores,
ativistas envolvidos no apoio a refugiados, jornalistas, agentes culturais e
muitos outros. Até agora, a CDU tem defendido a manutenção da “Brandmauer”
(parede guarda-fogo) perante a AfD e rejeitado qualquer colaboração com ela. No
entanto, existem na CDU da Saxónia Anhalt vozes que defendem uma colaboração
com a AfD. Recentemente, por exemplo, um presidente de câmara da CDU fez chegar
à AfD um donativo de 10.000 euros. Caso a AfD não alcance a maioria absoluta
dos deputados no parlamento, também não se pode excluir a possibilidade de
alguns deputados da CDU mudarem de campo e elegerem um ministro-presidente da
AfD.
Quais as
opções da votação?
Perante as
últimas sondagens, o perigo de um governo exclusivamente constituído pela AfD é
real. Segundo essas sondagens, a AfD obteria 40 lugares no parlamento da
Saxónia Anhalt, a CDU 20, Die Linke 11, o SPD 7 e os Verdes 5. Os Verdes,
contudo, apenas ultrapassariam por uma margem pequena a fasquia dos 5%. Caso
fiquem abaixo dos 5%, não conseguirão entrar no parlamento e a AfD obterá a
maioria absoluta dos deputados. A Campact – uma organização de
campanhas online de orientação alternativa e de esquerda –
promove, por isso, intensamente a exigência de um voto tático, com o objetivo
de assegurar a entrada dos Verdes e do SPD no parlamento e, assim, impedir uma
maioria absoluta da AfD. A campanha “votar taticamente” não está, contudo,
isenta de problemas. Na realidade, pretende desviar votos de Die Linke (e
também da CDU) em benefício do SPD e dos Verdes, em vez de mobilizar os
abstencionistas para uma política mais consequente a favor dos desfavorecidos e
contra a AfD. Reduz, assim, o antifascismo em benefício de um voto tático
pretensamente inteligente.
Die Linke ante um desafio político bem complicado
A situação política na Saxónia Anhalt coloca, desta forma, Die Linke perante um dilema. Por um lado, uma eventual tomada do poder pela extrema-direita só poderá ser impedida se Die Linke viabilizar um ministro-presidente da CDU. Mas também é verdade que a transformação autoritária, neoliberal e militarista do Estado é igualmente impulsionada pelos partidos do chamado centro. A nível nacional, o SPD e a CDU prosseguem uma política de desmantelamento massivo do Estado social, uma política racista de marginalização de migrantes e uma política de rearmamento e militarização em larga escala, que é também parcialmente apoiada pelos Verdes.
A solução para este dilema só pode consistir em assegurar a maioria necessária para a eleição de um ministro-presidente da CDU, sem, contudo, se diluir numa pretensa “unidade dos democratas”. É necessário impedir que a AfD apareça como a única oposição ao sistema. Die Linke deve, portanto, impedir taticamente um governo da AfD, mas continuar a assumir uma clara posição de oposição. Para Die Linke, o desmantelamento da democracia e das conquistas do Estado social, o endurecimento das políticas de asilo e migração, os ataques a iniciativas de apoio aos refugiados e a iniciativas antifascistas, etc., devem constituir uma clara linha vermelha, cuja ultrapassagem não pode ser tolerada. Apesar de toda a tática parlamentar necessária para impedir uma tomada fascista do poder governamental, o foco deve estar hoje na mobilização social e na construção de um contrapoder social contra a fascização da sociedade.
[Fonte: www.esquerda.net]

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