domingo, 12 de julho de 2026

« On vous croit » (Acreditamos em ti), filme de Arnaud Dufeys e Charlotte Devillers: nas entranhas do irreversível

 

Escrito por Ana Matos 

Arnaud Dufeys e Charlotte Devillers estreiam-se na realização de uma longa-metragem com On vous croit (Acreditamos em ti, em português, nas salas de cinema), uma fatia de vida atirada à cara do espectador. Quem procura sensações fortes recorre muitas vezes a thrillers psicológicos ou ao terror gore, mas este filme é a prova de que a realidade pode ser bem mais agonizante do que qualquer ficção. Sem recorrer a imagens chocantes, a força das palavras é quanto basta para nos deixar nauseados com um murro no estômago.

O filme retrata a história de Alice que comparece em tribunal com os seus dois filhos, determinada a defendê-los de um pai que põe em causa a sua guarda. A frieza quase asséptica das salas do tribunal contrasta com a intensidade das emoções vividas. O formato da imagem em 4:3 é resgatado para criar um ambiente íntimo, focado em planos fechados dos rostos das personagens. Os efeitos sonoros também trazem ao filme uma opressão que, de resto, já lá está, fazendo-nos sentir a respiração e os batimentos cardíacos das vidas que ali se jogam. 



O filme aborda o pesado mecanismo de um sistema jurídico que ainda se torna mais penoso enfrentar quando crianças têm de testemunhar e reviver atrocidades que só procuram esquecer. Ao longo de 75 minutos assistimos, praticamente em tempo real, a uma ida ao tribunal com os detalhes escabrosos do drama vivido e as suas irreparáveis consequências. Mais do que procurar respostas, On vous croit é um manifesto que expõe a violência de um processo que obriga as vítimas a justificar repetidamente o seu sofrimento.

Mas é na prestação da atriz belga Myriem Akheddiou que o filme se afirma, fazendo-nos esquecer que estamos a assistir a ficção. Se alguns momentos deixam transparecer as limitações de um elenco desigual, o filme encontra em Myriem uma intérprete capaz de levar aos ombros todo o peso emocional da narrativa. Entre a contenção e o desespero, a atriz constrói uma personagem profundamente sensível, movida pela necessidade de proteger os filhos. 

A máquina judicial está longe da perfeição, mas um consolo permanece: por detrás da lei estão pessoas. Pessoas que, confrontadas todos os dias com a dor, a violência e a fragilidade humanas, não perderam a capacidade de ouvir nem a disposição para compreender. Num mundo cada vez mais mediado por sistemas e algoritmos, continuam a ser humanos a lidar com humanos. Até ver.

 

 

[Fonte: www.tribunadocinema.com]

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