Escrito por Ana Matos
Arnaud Dufeys e Charlotte Devillers estreiam-se
na realização de uma longa-metragem com On vous croit (Acreditamos
em ti, em português, nas salas de cinema), uma fatia de vida atirada à
cara do espectador. Quem procura sensações fortes recorre muitas vezes a thrillers psicológicos
ou ao terror gore, mas este filme é a prova de que a realidade
pode ser bem mais agonizante do que qualquer ficção. Sem recorrer a imagens
chocantes, a força das palavras é quanto basta para nos deixar nauseados com um
murro no estômago.
O filme retrata a história de Alice que
comparece em tribunal com os seus dois filhos, determinada a defendê-los de um
pai que põe em causa a sua guarda. A frieza quase asséptica das salas do
tribunal contrasta com a intensidade das emoções vividas. O formato da imagem
em 4:3 é resgatado para criar um ambiente íntimo, focado em planos fechados dos
rostos das personagens. Os efeitos sonoros também trazem ao filme uma opressão
que, de resto, já lá está, fazendo-nos sentir a respiração e os batimentos
cardíacos das vidas que ali se jogam.
O filme aborda o pesado mecanismo de um sistema jurídico que ainda se
torna mais penoso enfrentar quando crianças têm de testemunhar e reviver
atrocidades que só procuram esquecer. Ao longo de 75 minutos assistimos,
praticamente em tempo real, a uma ida ao tribunal com os detalhes escabrosos do
drama vivido e as suas irreparáveis consequências. Mais do que procurar
respostas, On vous croit é um manifesto que expõe a violência
de um processo que obriga as vítimas a justificar repetidamente o seu
sofrimento.
Mas é na prestação da atriz belga Myriem Akheddiou que o filme se
afirma, fazendo-nos esquecer que estamos a assistir a ficção. Se alguns
momentos deixam transparecer as limitações de um elenco desigual, o filme
encontra em Myriem uma intérprete capaz de levar aos ombros todo o peso
emocional da narrativa. Entre a contenção e o desespero, a atriz constrói uma
personagem profundamente sensível, movida pela necessidade de proteger os
filhos.
A máquina judicial está longe da perfeição, mas um consolo permanece:
por detrás da lei estão pessoas. Pessoas que, confrontadas todos os dias com a
dor, a violência e a fragilidade humanas, não perderam a capacidade de ouvir
nem a disposição para compreender. Num mundo cada vez mais mediado por sistemas
e algoritmos, continuam a ser humanos a lidar com humanos. Até ver.
[Fonte: www.tribunadocinema.com]



Sem comentários:
Enviar um comentário