Com o seu estilo único, Lobo Antunes foi um dos mais reconhecidos e premiados escritores portugueses das últimas décadas.
Morreu esta quinta-feira aos 83 anos o escritor António Lobo Antunes, um dos nomes que mais marcaram a literatura portuguesa no último meio século. Licenciado em Medicina com especialização em Psiquiatria, dedicou-se à escrita a tempo inteiro em 1985, afirmando que o fazia “para combater a depressão”, embora mantivesse por mais de uma década a rotina da ida semanal ao Hospital Miguel Bombarda "para não ficar maluco".
Nessa altura já contava com vários livros publicados, como “Memória de Elefante” e “Os Cus de Judas” (1979), "Conhecimento do Inferno" (1980) e "Explicação dos Pássaros" (1981), com tema que giravam em torno da experiência da guerra colonial, que viveu mobilizado para Angola entre 1971 e 1973, e pelo exercício da psiquiatria que dizia ter-lhe dado “um raciocínio diferente, uma maneira particular e talvez mais aguda de encarar o mundo”.
"Parte importante da obra literária de Lobo Antunes é um monumento de denúncia da guerra colonial e do colonialismo, culminando no devastador “O Esplendor de Portugal”. A ficção em contraponto com a doutrina oficial, assumindo o verdadeiro peso da realidade", escrevia Mário Tomé em 2010, a propósito de uma polémica lançada por ex-militares contra o escritor.
“Nunca soube verdadeiramente fazer outra coisa que não escrever”, disse Lobo Antunes em 2004, quando se assinalavam 25 anos da sua carreira literária. Uma carreira repleta de prémios nacionais e internacionais e doutoramentos honoris causa, mas também com o reconhecimento do público que além dos seus livros o lia nas muitas centenas de crónicas que escreveu para a imprensa nacional.
Lobo Antunes deixa mais de três dezenas de romances publicados, metade dos quais nos últimos 20 anos, vários livros de crónicas reunidas, um livro para crianças e uma coletânea de correspondência de guerra que esteve na base do filme de Ivo M. Ferreira, “Cartas de Guerra”.
“Sou demasiado individualista e rebelde para aceitar uma disciplina partidária”, dizia o escritor em 2007. A sua intervenção política passou em 1980 pelo apoio à APU e mais recentemente, em 2022, apoiando António Costa. Nos anos da troika criticou o governo de Passos Coelho, afirmando que “os portugueses estão a viver de forma muito dura e a ser tratados como cães". Mais tarde, juntou a sua voz em defesa da autodeterminação da Catalunha e pela amnistia aos políticos independentistas condenados após a realização do referendo em 2017.
“Lobo Antunes conseguiu, com honestidade crua, denunciar a brutalidade da guerra colonial, mas também dar a conhecer recantos escondidos da humanidade. Perdemos todos com a sua morte”, afirmou esta quinta-feira o coordenador do Bloco de Esquerda, somando-se às inúmeras mensagens de reconhecimento vindas de todo o espectro da política e da sociedade portuguesa.

Sem comentários:
Enviar um comentário