Embora Israel se esforce por eliminar o direito de regresso dos refugiados palestinianos com medidas que visam desmantelar a UNRWA, os palestinianos nunca abdicarão dos seus direitos, afirma a histórica combatente da resistência palestiniana, Kifah Afifi.
Por Nelson Pereira
Os palestinianos residentes no Líbano (222 mil, segundo a agência da ONU para os refugiados palestinianos) não perderam a sua ligação à terra de que foram privados e não estão dispostos a aceitar a perda dos seus direitos, declara Kifah a Nelson Pereira em Beirute.
"O sionismo tornou-nos órfãos da nossa terra, mas os refugiados
palestinianos nunca desistirão", afirma a ex-combatente da resistência
palestiniana, que tinha 11 anos quando perdeu os seus irmãos no massacre de
Shatila e esteve detida de 1982 a 1995 na prisão de Khiam, no sul do Líbano
ocupado por Israel.
Nascida no campo de
refugiados de Shatila, Kifah começou a lutar aos 14 anos. Em outubro de 1988,
aos 17 anos, pegou em armas e liderou um esquadrão de cinco palestinianos e
dois libaneses numa missão para atravessar a fronteira com Israel e capturar
israelitas para uma troca de reféns.
Capturada por uma unidade do exército israelita e por um batalhão das
milícias pró-Israel do Exército do Sul do Líbano na aldeia fronteiriça de Kfar
Kila, Kifah foi detida na prisão de Khiam, onde foi mantida em regime de
solitária e torturada com choques elétricos.
"Os meus pais foram expulsos da Palestina em 1948. E, infelizmente,
não conheço a minha terra natal", diz ela. "Segui esse caminho,
envolvi-me nesta operação contra o inimigo sionista porque a primeira coisa que
vi ao abrir os olhos foram os massacres de Sabra e Shatila. Foi muito difícil
para mim, naquela idade, uma menina de 11 anos, ver crianças, ver as pessoas
que mais amava, a serem massacradas diante dos meus olhos. E o que tornou tudo
ainda mais difícil foi o martírio dos meus três irmãos jovens."
Os palestinianos enfrentam um inimigo que lhes retirou o que lhes é mais
precioso: a sua terra, sublinha Kifah, acrescentando que a forte determinação
para resistir "vem do nosso amor pela terra de que fomos privados".
"O sofrimento que suportei em Khiam é incompreensível. Sofri todo o
tipo de tortura lá, mas o que achei mais difícil foi a humilhação psicológica e
física que as mulheres sofriam durante o período menstrual", recorda a
ativista palestiniana.
Entre os muitos episódios de tortura cruel que sofreu, guarda uma viva
memória do momento em que um dos interrogadores se sentou numa cadeira colocada
sobre as suas costas enquanto ela estava algemada e amordaçada, encharcada em
sangue.
Kifah sofria de um
eczema grave que lhe causava hemorragia nos ferimentos. "E nunca me
esquecerei da vez em que estive na cela número 24, uma cela muito difícil. Era
inverno e a água não parava de correr. O meu colchão ficou encharcado e os meus
ferimentos infetaram. Então, começaram a mudar-me o penso, e o interrogador
entrou e perguntou-me como estava. Depois, enfiou um cigarro aceso no meu rim a
sangrar."
A resiliência e a força que lhe permitiram suportar todo o sofrimento na
prisão derivavam do seu amor pela terra, acredita. "Tendo suportado os
tormentos da prisão, os massacres de Sabra e Shatila, a agressão israelita
contra o sul do Líbano, o pior tipo de tortura psicológica e física, ainda
tenho esperança."
Os combatentes da resistência são frequentemente caricaturados como pessoas que desejam a morte. Nada poderia estar mais longe da verdade, sublinha Kifah. "Na verdade, é o contrário. Somos um povo que ama a vida e acreditamos fervorosamente que todos os esforços não serão em vão, que a resistência continuará, mesmo no meio da dor. A esperança é a nossa arma mais poderosa, porque forjou em nós uma vontade inabalável."

Kifah Afifi em Khiam, janeiro de 2026
"Não normalizaremos as nossas relações com o inimigo sionista,
apesar de tudo o que estamos a passar e das dificuldades no Líbano, apesar das
opiniões divergentes sobre a normalização das relações", sublinha,
acrescentando que o sonho que orienta a resistência é o de um futuro de paz,
independência e dignidade para as gerações futuras.
"Temos um sonho: o sonho da sobrevivência, o sonho do regresso de
todas as terras do Líbano e da Palestina aos seus legítimos donos. Este é o
nosso projeto, o nosso projeto nacional, o ideal a que aspiramos. Perseveramos,
e a nossa esperança é grande, não só para a nossa geração, mas também para a
dos nossos filhos, para as gerações futuras, para que possamos alcançar a
vitória para o Líbano, a Palestina e todas as nações oprimidas do mundo",
resume Kifah.
[Fotos: Mohammed Ramadan - fonte: www.esquerda.net]

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