O muito aguardado documentário de Raoul Peck, em estreia esta semana, é como um prenúncio distópico do mundo em que vivemos. Por isso mesmo é tão valioso conhecer este complexo historial ensaísta sobre o ímpeto totalitário de tantos candidatos a ditadores. 
Escrito por Paulo Portugal
Orwell: 2+2=5, de Raoul Peck, não é um documentário convencional - aliás, tal como Eu não sou o teu negro (2026) não era. Este pungente documento político e social resulta muito mais como um complexo ensaio fílmico que apetece rever para assimilar toda a informação (vimo-lo 3 vezes, desde a sua descoberta em São Sebastião e depois com o screener enviado pela produtora) - igualmente urgente quanto inflamado, ao aplicar uma colagem erudita sobre um passado que não se desvanece, permite que as advertências de George Orwell continuem perigosamente actuais. Peck entrelaça biografia, arquivo, interpretação crítica literária e reportagem contemporânea para demonstrar como os mecanismos de censura, manipulação e apagamento histórico que Orwell dramatizou em 1984 são ferramentas operacionais no nosso presente. E tantos de nós não se dão conta.
O filme abre com um genérico contundente: gráficos assemelham-se a um vírus que se modifica no ecrã. No ecrã, excertos das páginas de Orwell sobrepõem-se ao título do filme apresentado com a formalidade ensaística de um Chris Marker. Essa metáfora — a desinformação como contágio — define o método de Peck. A vida de Eric Arthur Blair é explorada tanto como trajetória pessoal ou fábula instrutiva: desde a Índia colonial e a classe média indiana, passando pelo colégio beto, em Eaton, ao serviço na Polícia Imperial Indiana, até à ilha de Jura, na Escócia, onde em 1946 (portanto há precisamente 80 anos) começou a escrever o seu derradeiro romance que se tornaria 1984. Estes episódios não servem só de contexto biográfico; servem também para motivar a indignação e a sensibilidade moral do escritor.
A voz rouca de Damian Lewis tem um papel central no filme, ao corporizar os diferentes textos e diários de Orwell. São leituras que conferem ao filme um centro ético: é Orwell quem afirma que não escreve com a ambição de criar “uma obra de arte”, mas para "expor uma mentira e chamar a atenção para uma injustiça" — uma máxima que orienta todo o projecto de Peck. Intercalam-se citações e fragmentos de inúmeras obras cinematográficas e documentais (que dariam elas mesmas um pequeno ciclo temático) — desde as adaptações de 1984 (a de Michael Anderson, em 1953, ou a de Michael Radford, em 1984), mas também My Way Home de Bill Douglas (1978), Land and Freedom de Ken Loach (1995), Babi Yar Context, de Sergei Loznitsa (2021) ou Burma Storybook de Petr Lom (2017) — criando um campo polifónico onde as obsessões de Orwell (verdade vs. propaganda; consciência individual vs. brutalidade institucional) reverberam através dos tempos.
As investidas de Peck nos arquivos funcionam como um truque jornalístico: salta do trivial para o brutal — da referência recorrente a Oliver Twist, de David Lean (1948), nos diários de Orwell, para imagens contemporâneas de bombardeamentos estratégicos, Mariupol, Afeganistão, El Salvador ou Gaza. O realizador traça um fio que liga o policiamento colonial na Birmânia às operações de manutenção da ordem hoje — “operações de limpeza”, eufemismos como “operação militar especial” — e às rotações retóricas do discurso político contemporâneo. Peck nomeia actores e regimes — de Pinochet e Marcos até a líderes actuais como Putin, Orbán, Netanyahu, mesmo quando insiste que 'Israel busca a paz' — e não poupa a cena política americana, onde Bush prenuncia a invasão, em 2002, alegando as armas de destruição maciça, numa rima que se faz com o assalto ao Capitólio em 2021, ao som da voz de Trump a ironizar, em off, o grotesco do momento (“o amor que se sentia no ar”).
Essa prática de ligar contextos é ao mesmo tempo força e limite. A denúncia de Peck a uma “mentira organizada” — a contínua alteração do passado e substituição de verdades — é desarmante. Sim, o filme é vigoroso (e pesado) na forma, por vezes enciclopédica, como evoca ao cinema para expor as verdades do nosso tempo, por vezes, servindo-se de uma montagem densa que exige uma (re)leitura e atenção simultâneas.
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Ainda assim, a clareza moral do filme é difícil de ignorar. Peck não oferece uma visão simplista da realidade; interroga e reconhece complexidade: os oprimidos nem sempre têm razão inquestionável, e o opressor não é um desenho animado — uma ideia sublinhada por referências a Ai Weiwei (“tudo é arte, tudo é política”), por figuras contemporâneas como Edward Snowden, e por crises que vão da Birmânia à Palestina, passando por Bangladesh. Desde logo, o Orwell que Peck apresenta é um pensador forjado no império, cujas advertências são pertinentes em contextos tão diversos como a Rússia, a Ucrânia e os Estados Unidos.
O filme brilha de forma intensa ao debruçar-se sobre a linguagem, servindo-se da intuição orwelliana em que o poder se sustenta pela manipulação da verdade (ou de uma verdade reinventada) acabando por ser dramatizada em vinhetas em sublinham a repetição como forma de fabricar o consentimento. A retórica do filme é deliberadamente incisiva; a montagem e as narrações acumulam pressão moral, obrigando o espetador não só a reconhecer paralelos, mas a sentir-se implicado.
O registo humano também surge com força: episódios da experiência de Orwell na Polícia Imperial Indiana, anedotas sobre o cassetete que transportou e a cena na estrada em que se pergunta a um menino quantos dedos há — “quatro” — ilustram como até simples afirmações factuais se transformam em campo político. Isto recorda que a obsessão de Orwell pela linguagem e pela verdade nasce da experiência vivida, não de teoria abstrata.
Orwell: 2+2=5 é um filme de raiva e de cuidado; raiva contra sistemas que normalizam a crueldade, cuidado pela leitura, pela cidadania e pelo testemunho. Frustrará quem procure coesão narrativa tradicional ou uma biografia linear; como provocação, é revigorante. Peck recusa a complacência: ver o filme é confrontar a pergunta se se permitirá, dia após dia, a erosão da verdade por repetição e eufemismo, ou se se insistirá — como Orwell insistiu — que dois e dois são quatro. Mesmo que a narrativa orwelleana acaba comprovada da forma mais desconcertantes com a realidade que nos entre hoje mesmo pela televisão.
Uma coisa é certa, esta tapeçaria sobre as mentiras do nosso tempo, não é já um dos filmes deste ano de 2026 - é mesmo um dos filmes destes tempos. Algo que nos segreda para estarmos atentos, e insistirmos, mesmo no limite de todas imposições, que 2+2=4. E não 5.
[Imagens: Midas Filmes - fonte: www.insider.pt]


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